Na passada quinta-feira, 30 de Agosto, teve lugar a realização de um seminário subordinado ao tema «Mitos, ritos e símbolos – introdução à antropologia do sagrado», ministrado por Fernand Schwarz, Director Internacional do Instituto Internacional Hermes de Antropologia e Comunicação, Presidente da Nova Acrópole em França, e antigo Director de Teses da École d’Anthropologie de Paris. Filósofo, egiptólogo, antropólogo e autor de referência na área do «novo espírito antropológico», tendo trabalhado directamente com Gilbert Durand, Mircea Eliade e outros participantes do Círculo Eranos. Esta actividade foi organizada pela Nova Acrópole em parceria com a Fundação Marquês de Pombal e o apoio da Câmara Municipal de Oeiras. Na primeira parte do seminário, o professor apresentou uma síntese do novo paradigma da antropologia, no qual a imaginação e o pensamento simbólico têm um papel fundamental, afirmando que «o homem não se caracteriza, relativamente às outras espécies viventes, pela fabricação de ferramentas, como se pensava, mas pela sua capacidade de “produzir” símbolos. Foi a sua capacidade de desenvolver o poder da sua imaginação através das diferentes formas do imaginário que lhe permitiu desenvolver a sua humanidade.» A imaginação é vista, assim, não como um espaço mental de fantasia caótica, mas como um continente interior que se manifesta em sonhos, diurnos ou nocturnos, projectos, ideais, sendo que uma parte dessas manifestações mentais se concretizam dando forma ao mundo material através de acções e criações. A imaginação é uma faculdade prodigiosa que permite a mudança, a transformação do ser, e o acesso a novas realidades. E permite representar mentalmente, trazer o ausente ao presente. Foi assim que o ser humano se humanizou integrando a morte na vida, abrindo a porta ao renascimento, à iniciação, à ascensão a novos estados de consciência. Concluiu esta primeira parte, sintetizando: «Com Darwin tivemos a visão da sobrevivência, o materialismo e a competição. Com as novas ciências temos novas respostas com a noção de que tudo é adaptativo e necessita de se integrar na biosfera através da interconexão da parte com o todo. Nascem assim propostas de nos dirigirmos a uma nova civilização em harmonia com o vivente. De inventarmos outro sistema que integre a natureza através da tomada de consciência da interdependência.» E, neste âmbito, o enfoque científico da teoria da complexidade tem especial pertinência. A segunda parte do seminário foi dedicada ao fenómeno do sagrado, da sua manifestação, e das suas quatro funções: arquétipo, mito, rito e símbolo. Constatou-se que a experiência do sagrado é inerente à própria consciência humana, e que tendo uma origem que não no espaço-tempo da vida quotidiana, faz irrupções, e nela se manifesta através da «hierofania», termo criado por Mircea Eliade para significar a «manifestação do sagrado». Nesta nova visão da antropologia, o homo sapiens é verdadeiramente um homo religiosus que, como afirmou o professor, «não participa de nenhuma religião em particular, nem necessita de nenhum clero, ou teologia. É simplesmente um experimentador da dimensão do sagrado através da sua própria consciência.» Quer dizer, o sagrado pode manifestar-se através de uma experiência religiosa, ou noutros contextos, dado que constitui uma experiência interna. Passando ao desenvolvimento das quatro funções do sagrado, Fernand Schwarz referiu que o arquétipo, «modelo exemplar», não é directamente acessível à consciência humana mas revela-se no interior do mito. É transhistórico e transpessoal e pode-se revelar em inúmeros mitos ao longo da história. Por sua vez, o mito é o receptáculo do arquétipo, é o relato das origens, uma narrativa fundadora que «fixa os modelos exemplares de todos os ritos e modelos da vida que se adaptam à realidade quotidiana.» O mito pertence ao «tempo das origens» e a sua reactualização pelo rito, outra função do sagrado, permite a renovação e a superação do desgaste. Na realidade não é que a história se repita, mas sim que o mito renasça sucesivamente no palco do mundo. Os símbolos, quarta função do sagrado, permitem a revelação de modalidades do ser que de outra forma não seriam representáveis, sendo de significado plurivalente. São a base do pensamento analógico, da relação vertical entre diferentes dimensões. Um agente verticalizador da consciência e portador de uma energia psíquica que favorece a ascese do ser. Terminou referindo que «a mensagem das sociedades tradicionais demonstra-nos que, se uma sociedade humana consegue recriar de maneira consciente os princípios de organização do Vivente no seio do seu grupo, pode estabelecer, por ressonância, uma comunicação consciente com os diferentes planos vibratórios da Criação.» E, assim, recriar o velho mito do matrimónio entre o Céu e a Terra, integrando-se conscientemente no universo e tornando-se um agente espiritualizador da matéria. Um seminário verdadeiramente inspirador, propondo o olhar a uma vivência profunda do que é verdadeiramente Ser Humano. No final, desenrolou-se uma sessão de autógrafos e convívio entre os participantes no seminário, que puderam usufruir em primeira mão da edição portuguesa da obra «Mitos, ritos e símbolos – antropologia do sagrado», da autoria do formador. NAOC

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