A música sempre acompanhou o ser humano. Em outras épocas, reconhecia-se a sua influência activa na saúde e merecia, portanto, um tratamento especial na educação.

O artigo anterior, em Outubro (Precisa a música actual de uma renovação?) terminou com grandes aspirações e vale a pena o esforço para conseguir obter um belo desafio, com fins uteis, agradável e proveitosos para o ser humano ainda que não o alcancemos no primeiro ensaio. Essa tentativa coloca-nos em “marcha” e constitui em si mesma uma pequena vitória.

Queremos, e precisamos mesmo, aprofundar as nossas origens, para renovar um conceito de “arte” muito banalizada. Depois de refletir sobre algumas datas, com a intenção de refrescar a memória (e a nossa consciência) sobre alguns conceitos relacionados com a música e a arte em geral, continuámos com este exercício retrospectivo, em busca de uma renovação tão esperada…

O poder que a música exerce sobre o ânimo do ser humano é evidente, e sobre ele já se chegou a criar um importante tema de discussão na Grécia antiga. O raciocínio principal era simples: sendo a música harmonia, e existindo uma afinidade entre a natureza da alma e da música, esta pode ajudar a restaurar o equilíbrio perdido dentro de nós mesmos, como se fosse uma terapia profunda e purificadora para a alma. Assim, no Séc. V a. C., a educação centrou-se em exercícios de para ginástica e música para alcançar a coragem, sentido de dever e honra. Além disso, sabe-se que a prática e a teoria da música teve uma profunda influência em todos os níveis da sociedade: rituais, banquetes e as tarefas mais corriqueiras de trabalho diário (como fazer pão) foram realizados com o acompanhamento de melodias e canções criadas especialmente para cada ocasião.

Esparta, ao que parece, foi a primeira cidade onde a educação musical (Licurgo) foi introduzida, e mais tarde, em Atenas (Solon), e durava até trinta anos segundo a lei. Em geral, pode-se falar de três graus: primeiro ensinava-se a cantar e tocar instrumentos, leitura e compreensão de poesia e nos dois graus posteriores, o treino era ampliado em conjuntos de bailes e danças. Alguns dos mais antigos textos corais preservados são os Parthenos de Alcman (que nos apresentam a actividade de jovens espartanas do século VII. C.), onde o canto, a poesia e a dança são elementos essenciais de uma celebração religiosa. Manifestações culturais similares chegaram às colônias do Mediterrâneo, como por exemplo a Emporiae (Gerona, Espanha).

É importante ressaltar que o papel de Laso de Hermione (século V a.), que organizou as harmonias e tons relacionando-os com os gêneros poéticos e as ocasiões em que seriam mais apropriados. Isto, juntamente com o desenvolvimento de um conjunto de doutrinas da escola pitagórica, deu à música um papel de vital importância na educação dos jovens. A Teoria de Ethos foi a base fundamental para a estética musical grega. Depois de um período de complexidade e confusão, quis-se retornar à simplicidade, mas depois de ter perdido a tradição e os conhecimentos provenientes dos Mistérios, já nada foi o mesmo. Mas, como já citamos os pitagóricos, detenhamo-nos um pouco neles.

Música para Pitágoras: um eco do cosmos

Os pitagóricos foram os primeiros a transmitir ao Ocidente a ideia do universo como algo ordenado e submetido a leis compreensíveis pelo intelecto humano, e deram a possibilidade de explorar e aprender essas leis. Pitágoras nasceu em Samos cerca de 570 a.C., e depois de uma intensa etapa de busca e aprendizagem, relutante ou não podendo fundar uma escola na sua terra natal, estabeleceu-se em Crotona (Sul da Itália). Lá fundou e organizou a sua sociedade filosófica, política, científica, religiosa… e artística.

Os princípios da teoria musical pitagórica fazem parte, pois não se concebem de outra forma, de uma disciplina destinada à elevação moral, ao conhecimento de si mesmo e do mundo que nos rodeia -mesmos correndo o risco de ser cansativo, não nos podemos esquecer de que “musical” no contexto a que nos estamos a referir, abarca um espectro muito mais amplo do que hoje é entendido por esse termo-.

Para Pitagorismo, a música humana (micro-música) devia ser como um eco da música do cosmos (macro-música ou Teoria das Esferas). Os números eram a base fundamental dos estudos para a compreensão do universo nos seus diferentes níveis. Se existia um prazer estético no ser humano no seu contato com a música, era apenas porque os sons estão regidos pelos números. Os números simbolizam a proporção, a ordem, a regra e a harmonia total.

Os pitagóricos, em virtude de sua concepção matemática de harmonias musicais, também estabeleceram um vínculo indissolúvel entre a saúde e música, uma vez que a proporção e equilíbrio das notas produzem harmonia e ordem, tanto no corpo como na alma. A música é um saber sublime e fundamental para a saúde e a purificação ética do homem.

Que atitude tomar perante estas afirmações, elaboradas e vividas há mais de dois mil anos atrás? Podemos passar por elas como algo caduco e sem valor na actualidade? Ou é possível incorporá-los nas nossas vidas, como sementes da música e da arte do futuro? Ainda é cedo para responder, pois faltam-nos rever alguns conceitos: ideias que podem relacionar e unir, aspectos aparentemente díspares. Mas este é um assunto para outro artigo…

 

Carlos A. Farraces