Nasrudin, o grande sábio muçulmano do séc.XII, estava em certa ocasião, agachado, tacteando o solo como se estivesse procurando algo aproveitando a luz de uma lâmpada. Um conhecido seu aproximou-se, e ao vê-lo desta maneira perguntou-lhe:

-Meu querido Nasrudin, que procuras, perdeste algo?

-Pois sim, perdi uma chave, e aqui estou desde há um bocado procurando-a sem encontrá-la. Queres ajudar-me?

-Claro que sim.

E juntos continuaram procurando a chave, aproveitando a luz que na noite propagava um poste. Passados uns minutos aproximou-se outro conhecido do sábio Nasrudin.

-Olá! Que fazeis, que estais buscando?

– Nasrudin perdeu uma chave e nós estamos à procura dela, se puderes ajuda-nos.

-Claro, claro.

E todos juntos agachados e aproveitando a luz do poste tentavam encontrar a chave perdida de Nasrudin. Dez minutos depois, os amigos começaram a ficar inquietos, era impossível que depois do tempo que levavam ali buscando-a não tivesse aparecido, e perguntaram.

-Nasrudin, como é possível que não a encontremos, não há aqui muitos sítios para procurar… Estás seguro que a perdeste aqui.

-Não, de forma alguma, perdi-a dentro de casa, mas como está tão escuro optei por procurá-la aqui, que há mais luz.

Os ensinamentos de Nasrudin, como em geral os derivados da mística sufi, por paradóxicos que pareçam têm sempre um significado escondido.

Nesta narração expõe-se o drama, de todos sabido, de que ainda quando aceitamos que as chaves da vida e a verdadeira solução aos nossos problemas se encontra, “no interior de casa”, no interior da alma, sem dúvida, preferimos buscá-las fora, no conhecido, onde estamos habituados. Porque é muito esforçado e às vezes incómodo penetrar no interior de nós mesmos, conhecer-nos e encontrar a verdadeira resposta àquilo que nos inquieta. Sentimo-nos incapazes de encontrar a força para enfrentar a adversidade e vencer o medo. Estamos mecanizados que perdemos, ou não encontramos a perspectiva real ante os jogos de formas mutáveis do mundo, jogos que nos fascinam, nos adormecem e fazem que percamos as verdadeiras oportunidades.

Não podemos, pois, censurar a Nasrudin o que estava a fazer, pois todos fazemos o mesmo, a maior parte dos dias da nossa vida, e sem dúvida cerramos os olhos da alma, e continuamos buscando FORA.

 

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