Nos passados dias 16 e 17 de Setembro, o auditório Fernando Lopes Graça do Parque Palmela, em Cascais, foi o palco apara o memorável colóquio “Nós Somos Natureza – Ecologia e transição de civilização”.

No Sábado, 16 de Setembro, o colóquio começou com a conferência de abertura por Paulo Alexandre Loução, director da Nova Acrópole Oeiras-Cascais, subordinada ao tema “Ecologia, transição e alteração de paradigmas”. Propondo uma visão cíclica da História, a ideia fundamental era que neste momento encontramo-nos numa curva histórica da maior importância, onde a ecologia se torna um ponto fundamental do nosso devir enquanto indivíduos e sociedade. Focando o actual paradigma vigente, para o qual a Natureza é um objecto exterior ao ser humano, estaríamos numa fase de transição na qual seria necessário resgatar a relação íntima do ser humano com a Natureza, da qual faz parte. Focou também a tensão existente entre a globalização negativa, bem identificada por Zigmunt Bauman, e a necessária glocalização baseada em ideais universais mas com raízes nas tradições e especificidades locais de cada região.

A esta primeira intervenção seguiu-se o painel formado exclusivamente por professores e investigadores do ISA, Instituto Superior de Agronomia, intitulado “Trabalhando com a Natureza”. Este painel contou com a intervenção de Isabel Sousa (professora com agregação do ISA e coordenadora do painel), com o título “Economia Circular e novos modelos de sustentabilidade”, no qual se chamava a atenção para a emergência de um novo figurino económico, de modelo circular, no qual o consumo não significaria mais resíduos e desperdício, sendo praticamente tudo reaproveitado no fim da cadeia de produção e consumo para a formação de novos produtos. A economia circular é um tema aliás cada vez mais abordado nas instâncias europeias, sendo Amsterdão um exemplo de rentabilidade económica na adopção destas novas práticas. O painel seria complementado pelas intervenções de Francisco Moreira e Margarida Moldão. Com o título “Incêndios e políticas de ordenamento do território: algumas ideias provocatórias”, Franscisco Moreira, investigador, apresentou a tese de que o clima dita o número e a intensidade dos incêndios, num contexto nacional ditado pelo êxodo rural dos anos 50/60 e pelo consequente avolumar de biomassa susceptível de servir como que de combustível para os incêndios que se verificam constantemente a nível nacional. Por fim, a conclusão do painel dar-se-ia com Margarida Moldão, com “Plantas e aromas”, uma intervenção muito bem estruturada, centrada nas características das plantas aromáticas.

O segundo painel do dia foi por sua vez subordinado ao tema «Comungar com a Natureza, favorecer a Paz», coordenada pelo arquitecto Vítor Silva. A primeira intervenção esteve a cargo de Elizabeth Silva, responsável da Comissão Nacional da UNESCO para a área das ciência, coordenadora do Fórum Português de Geoparques Mundiais da UNESCO e Vice-Presidente da International Association of the Global Geoparks Network (GGN), com o título “Os Geoparques Mundiais da UNESCO em Portugal: a identidade destes territórios e a sua relação com as comunidades locais e com a Natureza”. Como o título indica, a sua comunicação, especialmente viva e cativante, ocupou-se dos Geoparques, explicando o conceito como desenvolvido pela UNESCO, o presente e o futuro dos mesmos, assim como a sua importância e articulação com as comunidades locais. Com “Educação para a Paz Global Sustentável ”, Helena Marujo e Luís Neto desenvolveram a apresentação da sua Cátedra UNESCO, muito recentemente criada sobre este mesmo tema, através de uma estimulante interacção com os presentes, afinal como concebemos o significado da PAZ? Foi esse o mote da sua abordagem.

Alcide Gonçalves, membro da Sociedade Ética Ambiental, apresentou o tema “Ecologia, ética e ciência”, cruzando temas como o respeito pela Natureza, citando ecologistas de referência como Aldo Leopold, com o contributo de algumas investigações científicas. Exaltou a necessidade de nos tornarmos Cidadão da Terra e não seus conquistadores. Por fim, a concluir este painel, Vítor Guerreiro, doutor em ciências do ambiente pela Universidade Nova de Lisboa, apresentaria “O Montado Alentejano como exemplo de eco-sustentabilidade”, promovendo uma explicação detalhada deste ecossistema único a nível mundial.

A conferência sobre Maria Luísa de Sousa Holstein fecharia o primeiro dia do colóquio. “3ª Duquesa de Palmela – humanista, escultora, mecenas e amante da Natureza” foi o título da palestra apresenta pela historiadora Luísa de Paiva Boléo, que deu a conhecer esta personagem ímpar da nossa cultura, responsável, entre outra coisas, pela existência do próprio Parque Palmela assim como da introdução das cozinhas económicas em Portugal.

No domingo, 17 de Setembro, o primeiro painel, denominado «Na demanda de uma ecosofia e suas aplicações», seria inaugurado por Carlos Henriques Pereira, Professor Associado da Universidade Sorbonne, Paris, com  “A arte equestre como via evolutiva e a comunicação do Homem-Cavalo”, sublinhando alguns aspectos relativamente desconhecidos e importantes do simbolismo da arte equestre e do contributo de Portugal para esta arte muito particular. A esta apresentação seguiram-se as comunicações sobre a figura do Padre Himalaya e o seu contributo para o desenvolvimento da visão ecológica hodierna, com Jacinto Rodrigues, catedrático jubilado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, que apresentaria o “Padre Himalaya, cientista visionário e precursor da visão ecológica”, e Rosa Oliveira, mestra em Estudos Portugueses Multidisciplinares, com “A perspectiva da educação do Padre Himalaya integrada numa visão de quinta pedagógica”. Estas comunicações foram uma oportunidade muito importante para entrar em contacto com alguns aspectos fascinantes desta figura, como a invenção do Pyreliophero, um incrível forno solar que atingiu mais de três mil graus, ou ainda o seu legado em França, onde muito recentemente se reproduziu o forno solar por ele inventado e montado em Soréde.

Nesta tarde, foi também de suma importância a intervenção de Sérgio Maraschin, geólogo, consultor ambiental e membro do Schumacher College, onde teve a oportunidade de estudar de perto com Stephan Harding, referência mundial em termos científicos que trabalhou intimamente com James Lovelock e Lynn Margulis. “Explorando a teoria de Gaia” foi o título da comunicação, onde se faria uma breve viagem pelos precursores científicos desta teoria, que preconiza a visão de uma Terra olhada como um ser vivo, como um organismo que se auto-regula, hipótese levantada pela análise da formação da atmosfera terrestre e de como esta se auto-regula, mantendo as condições propícias à vida no planeta.

Rui Vasques, eco-designer e coordenador de vários projectos na área da bioconstrução e permacultura, apresentaria por sua vez o tema “Construções sustentáveis, do projecto à implementação”, passando em revista vários projectos da sua autoria, fornecendo detalhes desde a concepção de aldeias sustentáveis até aos materiais utilizados. Fechando este painel, e depois do visionamento do vídeo “Terra Animada”, no qual Stephan Harding apresenta o desenvolvimento histórico da actual visão do mundo, defendendo a necessidade de voltar a um outro paradigma, no qual a ideia de Gaia estivesse incluída, Paulo Loução apresentaria “A raiz espiritual do problema ecológico”, numa apresentação que se viria a centrar sobre o fundamento filosófico da actual crise ecológica, evocando autores como Lynn White e o seu importante artigo “As raízes históricas da nossa crise ecológica”.

Um segundo painel – «Ciência, natureza e filosofia» – contaria ainda com mais duas comunicações. Antony Capitão, mestrando em ciência política e relações internacionais pela Universidade Nova de Lisboa, apresentaria “Os princípios da deep ecology”, abordando a diferença entre ecologia profunda e superficial, fazendo referência a Arne Naess, fundador do movimento, que sendo muito influenciado por Kant e Gandhi, propunha um atentar sincero às nossas premissas em termos de mundi-visão, inserindo no seu discurso a figura do ecological-self. Por fim, Henrique Cachetas, astrónomo, mestre pela Universidade do Minho e director da Nova Acrópole de Braga, apresentaria “O fenómeno da Vida”, fazendo referência a vários contributos científicos que apontam para uma nova visão da ciência sobre o conceito de vida, onde emergem temas como a auto-organização e o paradigma de que a Vida penetra todo o Universo.

O colóquio, com uma excelente adesão do público, teve a sua conferência de encerramento proferida por José Carlos Fernández, investigador, escritor e Director Nacional da Nova Acrópole, que apresentou o tema “A Analogia e o regresso da Filosofia à Natureza”. Nesta última intervenção, e fazendo como que uma síntese de todo o colóquio, foi abordado o desenvolvimento do moderno pensamento científico e como o progesso técnico se apoderou da Natureza, alienando o Homem de si mesmo. Entre tantos temas abordados, e em jeito de conclusão, cite-se por exemplo a necessidade de voltar à Filosofia e ao uso da analogia como porta de entrada na Natureza, no conhecimento, pois, como viria a sustentar José Carlos Fernández, “o Ser Humano é a Natureza a tomar consciência de si própria”.

 

NAOC