A célebre paz romana, pax romana, está associada ao reinado do imperador Augusto. Ele quis simbolizá-la num monumento de mármore, onde a força das virtudes romanas foi expressa com a graça das formas helenísticas : O Ara Pacis Augustae, o altar da Paz augusta.

Foi entre 13 e 9 A.C. que o imperador Augusto construíu um complexo simbólico monumental perto do Tibre. Esse complexo era constituído pelo seu túmulo, um relógio solar e um altar religioso dedicado à paz, o Ara Pacis.

Um complexo celeste

Ao lado do seu túmulo, onde placas de bronze reavivavam a memória as suas acções, o gnomon ponteiro do relógio solar, um obelisco trazido do Egipto no seguimento da batalha de Actium, constituía o centro de um verdadeiro relógio celeste. Esse obelisco (hoje na praça Montecitorio) dominava um lugar onde signos e letras de bronze encastrados nas lajes marcavam os meses, os signos do zodíaco e o aumento e diminuição do tamanho dos dias. Além disso, a sombra projectada pelo obelisco na noite de 23 de Setembro, o dia do aniversário de Augusto, indicava o eixo da entrada do altar da paz.

O Ara Pacis, é, em muitos sentidos um monumento cheio de paradoxos. Consagrado no ano 9 A.C. após campanhas militares na Gália e em Espanha, foi construído num local simbólico, o Campo de Marte (deus da guerra), exatamente no lugar onde se praticavam os treinos militares.

Continua a poder ver-se o altar perto do local onde foi descoberto e em grande parte conservado. Apresenta-se como um monumento a céu aberto composto de um recinto de forma quadrangular, com uma abertura à frente e outra atrás. Ao centro encontra-se um altar para sacrifícios ao qual se acede por três degraus. Outrora o conjunto estava orientado no sentido este-oeste.

Um espaço sagrado

O recinto do altar tem como intuito principal representar na pedra a imagem do recinto sacrificial primitivo dos romanos: no interior, painéis, cortinados, bucrâneos, coroas vegetais e taças para libaçôes; no exterior pilares ou pilastras com ângulos, paliçadas cobertas de vegetação no registo inferior, e tapeçarias historiadas no registo superior.

Na Roma arcaica, o espaço sagrado delimitado pelo recinto é a materialização na terra de um espaço invisível onde se exprime a vontade dos deuses.

É uma porção do céu (templum) onde os áugures procuravam os sinais da vontade dos deuses.

O recinto é não sómente a imagem terrestre do céu, um lugar sagrado ritualmente definido e separado do espaço profano, mas também e sobretudo o arquétipo do enquadramento formal de toda a acção humana: o direito dos homens, a liberdade de acção, o livre-arbítrio, a justiça, só podem nascer no âmbito do respeito das leis invisíveis. Isto define para um Romano os seus deveres para com a natureza, os antepassados, e, claro, para com Roma.

O altar faz lembrar que o modelo de qualquer acção é a acção sagrada por excelência, aquela que é tornada sagrada, feita sagrada (sacer facere), ou seja, etimológicamente, o sacrificio. Estando em conformidade com a ordem cósmica (o rta indo-europeu; o ritus latino) ela é a acção ritual. A acção sagrada, em conformidade com as leis, é a mediação activa que mantém em permanência a paz com os deuses e portanto entre os homens.

A paz segundo o ponto de vista romano é de origem celeste. Nasce de um pacto harmonioso entre os deuses e os homens, duma relação de continuidade entre as leis invisíveis do universo e a sua observação na terra. A pax romana é uma pax deorum, um pacto com os deuses, uma paz interior antes de ser uma paz exterior. A paz é, pois, tornada possível pela obediência às leis invisíveis da natureza expressas nas intervenções dos deuses no mundo.

Vigilância, virtude de Marte

O registo historiado do recinto exterior apresenta seis quadros com temas escolhidos por Augusto evocando as origens míticas e históricas de Roma e da família julio-claudiana: (1) Roma de capacete; (2) Eneias oferencendo sacrifícios aos Lares ; (3) A terra, Tellus, como fonte de abundância ; (4) Rómulo e Rémulo ; (5) e (6) Duas procissões religiosas evocando a família de Augusto e os colégios de sacerdotes.

O significado desta ornamentação esclarece-se com o estudo de duas qualidades que são as virtudes de referência em Roma , a vigilância e a piedade.

A primeira, a vigilância é a qualidade marcial por excelência, como exprime o primeiro quadro representando Roma de capacete. A vigilância é considerada em Roma como o resultado de um domínio de si mesmo resultante do treino militar, e acima de tudo fruto de um combate interior. Chegamos assim ao paradoxo, típicamente romano, mas seguramente universal, de que a paz não se ganha senão à custa de um estado de guerra interior, paradoxo expresso pelo Si vis pacem para bellum (se queres a paz, prepara a guerra). Profundo tema de meditação para todos aqueles que aspiram verdadeiramente à paz. A edificação do altar da paz no exato lugar onde os guerreiros romanos faziam os seus treinos, o Campo de Marte, adquire então todo o sentido.

Pietas

A necessidade da segunda virtude, a pietas ou a piedade romana, essa disponibilidade interior, é sublinhada de forma clara pela existência de um altar vizinho, o Ara Pietatis, e pela presença na fachada do Ara Pacis do segundo relevo, o de Eneias ofereçendo sacrifícios aos Lares que simbolisa aos olhos dos romanos a verdadeira piedade. Essa disponibilidade atenta dirigida aos deuses, aos antepassados, aos parentes, pressupõe não estar cheio de si. Representa esse espaço vazio mas delimitado que está pronto a acolher a voz dos deuses.

Para desenvolver essas virtudes, a educação romana privilegiava desde a infância as noções do colectivo em relação à aspiração individual, que devia ser-lhe subordinada. Ensinava-se o nome escondido de Roma, Amor, de facto o, amor fati o respeito amoroso do destino histórico de Roma que atribuía um lugar a Roma no universo ao mesmo tempo que a abria ao universal. Esta noção está presente através da representação simbólica de Roma com capacete e dos gémeos Rómulo e Rémulo com a loba sobre o Ara Pacis.

O Romano, possuindo sólidas qualidades terrenas, não procura uma paz teórica, mas sim efeitos práticos, que a população sinta: numa palavra, a paz traduz-se pela abundância. A natureza rica e viva que alimenta os homens com o seu seio: este é o sentido da alegoria que constitui o terceiro painel com Tellus – abundância. Se a paz exterior é abundância, aquele que traz essa abundância é etimológicamente aquele que aumenta as riquezas, augustus, nome mesmo escolhido por Octávio quando acedeu ao principado.

Se esta obra exalta igualmente Augusto e a sua família como está patente nos dois últimos painéis, não se desliga porém dum significado universal. Lembra-nos que sem memória colectiva não existe futuro individual, sem imaginário construído não há acção colectiva duradoira sem estado de guerra interior não existe paz exterior e que, finalmente, a abundância é consequência da paz e não o seu preâmbulo.

 

JEAN-MARC BACHÉ