As ruínas de Elêusis encontram-se a pouca distância de Atenas num bairro industrial. As ruínas escavadas a partir de 1882 estão dispersas aos pés de uma colina que constituía a Acrópole.

Construído no ano 445 a.C. pelo mesmo arquitecto do Partenón, é um quadrado de 52m de lado, com seis fileiras, de 7 colunas cada. As bancadas para os espectadores estão distribuídas pelos quatro lados do quadrado. À direita situa-se o Anaktoron, lugar onde se conservavam e exibiam os objectos sagrados. Outros monumentos de importância são: os Grandes Propileus, o Templo de Artemisia e de Poséidon e as ruínas que restam da Via-Sacra.

Estamos na Atenas do século XX, a cidade que, contemplada a partir da Europa, parece deslizar para oriente, e vice-versa, dependendo do nosso ponto de vista. A urbe, como algumas das afortunadas entre as megalópoles, que podem com razão, gabar-se do sol, conserva na sua face de pedra e cimento os fragmentos da sua História, falando das suas muitas idades, dos anos transcorridos, da vida e do sedimento material que esta deixou como recordação, como acontece com as rugas no rosto dos homens. Percorramos então a pele da sua experiência para recolher a sua mensagem.

Façamos com que esse seja o nosso destino, voltemos atrás. Tentemos recobrar o espírito destas ruínas, a vida destas pedras talvez não completamente mortas, que tanto nos fascinam com a sua equilibrada beleza. Sintonizemos o relógio da História para nos dirigirmos às épocas de esplendor deste povo.

Viajemos então; não oponhamos resistência, tentemos abandonar-nos nas mãos do Tempo, e que ele nos guie pelos seus caminhos para o ontem. Limpemos a nossa mente de preconceitos. Abramos as portas da percepção para receber nas nossas almas esses homens daquela época que, sob o mesmo céu que agora nos cobre, talvez com outro azul, fizeram a si próprios as perguntas eternamente humanas, eternamente repetidas, que toda a gente mais tarde ou mais cedo se coloca onde, quando ou como quer que exista, às quais deram as suas próprias respostas.

Nesta ocasião dirigiremos a nossa atenção para um importantíssimo acontecimento que durante mais de dois milénios condicionou a vida de Atenas e das cidades helénicas e que traz na sua essência o transcorrer cíclico de todo o criado, o movimento e transformação da Natureza, em que o nascimento e a morte são duas facetas, visível e invisível, da Vida-Una manifestada.

Os Mistérios de Elêusis

Pediremos a Cronos que nos deposite num Setembro de qualquer ano entre 1350 a.C. e 300 d.C. próximo do plenilúnio, precisamente quando os atenienses enviam a toda a Grécia mensageiros das mais nobres famílias, Eumólpides e Kerikes, a proclamar que vai começar o Grande festival, e que, por decreto, devem cessar todas as guerras. Consigo trazem convites pessoais do Hierofante de Elêusis para as autoridades de cada cidade, e estas permitirão aos cidadãos que o desejarem, assistir às cerimónias. Para isso, além de cumprir com certos requisitos, terão de comprar um leitão para o sacrifício ritual, e satisfazer os honorários dos sacerdotes e guias, equivalentes ao soldo de um mês, além de cobrir os gastos da permanência em Atenas. Entretanto, todo o procedimento legal é suspendido até que terminem as celebrações.

Ao mesmo tempo, em Elêusis, prepara-se a recepção dos visitantes, cuida-se com todo o detalhe do conforto dos alojamentos e dispõem-se os guias e o pessoal de serviço necessário para todos os que acudam ao acontecimento. Pouco a pouco, a cidade é equipada com tudo o que é preciso e iniciam-se as reparações necessárias. Entretanto, vão chegando responsáveis de outros Estados com sumptuosas ofertas e oferendas para a Deusa Deméter.

Está prestes a terminar um longo ciclo, iniciado seis meses antes, no mês de Anthesterion, nosso Fevereiro, também conhecido como «mês das flores», com uma série de rituais, prescrições higiénicas e alimentares, normas de vida a observar, instruções e ensinamentos específicos, que integrarão aquilo que Platão chamou «Mistérios Menores».

Agora, durante nove dias cheios de simbolismo, irão decorrer diversos actos, que culminarão, em torno do GRANDE DIA e da GRANDE NOITE, com uma profunda experiência que transformará os participantes de modo radical, de tal forma que, nem eles serão os mesmos, nem nada será igual, e a vida e a morte ganharão um novo significado. Muitos ligar-se-ão pela primeira vez com a sombra do enigma, outros aprofundarão nos Mistérios, mas todos se sentirão profundamente comovidos. São os «Mistérios Maiores», um conjunto de cerimónias, ensinamentos, provas e experiências transmutadoras que confrontam o homem com a verdade do seu próprio Ser, o seu lugar no Cosmos e as leis Naturais.

Platão, no Fédon, fala dos Mistérios Menores e dos Mistérios Maiores, referindo-se a certas visões das noites dos Mistérios como «Phantasmata», aparições fantasmas. Aristóteles sublinha o papel da vivência, emoção e experiência nos Mistérios.

A história da Sagrada Elêusis, pequena cidade próxima de Atenas, perde-se nos tempos míticos:

Homero conta num hino que Zeus, o Deus regente da Era actual, permitiu a Hades, o que reina nos campos dos mortos presidindo o mundo subterrâneo, raptar Perséfone, filha de Deméter, Magna Dea, Grande Senhora da renovação da natureza e da terra fecunda, nas costas da sua mãe, sem que esta o soubesse.

Estava a jovem a colher diversas flores, que crescem na planície de Nisa, em companhia de outras Deusas e ninfas, entre elas as Oceânidas, quando reparou numa flor muito especial, um narciso, e ao pretender arrancá-lo, a Terra, congeminada com Hades, abriu-se, surgindo da brecha Polidegmon, o filho de Cronos, que, a galope nos seus cavalos imortais, lançou-se sobre ela e levou-a sem que fosse possível resistir para o inframundo.

Ninguém ouviu os seus gritos, salvo Hécate, o rosto oculto da Lua, tripla Deusa de corpo mutável, e também, noutro aspecto, misteriosa deidade do mundo da escuridão, e Hélios, o luminoso Senhor solar; até que por fim chegou aos ouvidos da Mãe um longínquo pranto interminável. Sentiu então Deméter uma pontada de angústia no coração e, sem pensar, partiu subitamente por terra e por mar em busca da filha, mas nenhum dos Deuses conhecedores do pacto quis revelar-lhe a verdade.

Nove dias andou a Senhora, cheia de tristeza com uma tocha acesa, deambulando na sua busca incessante pelo rasto de Perséfone e durante esse tempo não comeu, não dormiu, não descansou e não se banhou.

No décimo dia, Hécate, comovida, saiu ao seu encontro, mas pouco lhe pôde informar, pois, certamente ouviu os gritos, mas não viu o raptor. Então as duas Deusas compareceram perante Hélios, o Sol; e Deméter, olhando a sua face resplandecente, perguntou-lhe pela filha, ficando a saber deste modo que Zeus a tinha entregue a Hades, seu irmão, para que este a desposasse, e que tinha sido conduzida por ele às Trevas.

Deméter, cheia de fúria e dor, fugiu para o mundo dos homens, ocultando-se do olhar de todos. Vestiu os véus de anciã e, entre os humanos, ninguém a reconheceu. Deste modo chegou perto do palácio do Rei de Elêusis, e sentou-se aflita na beira de um poço onde as mulheres da cidade iam buscar água. Ali a encontraram as filhas do monarca e, hospitaleiras, sem saber quem ela era realmente, lhe ofereceram trabalho e alojamento.

Algum tempo depois, após uma longa série de acontecimentos, a Deusa revelou a sua identidade tão zelosamente oculta e ordenou:

«– Que todo o povo me construa um templo com um altar ao pé da cidade! Construam todos um alto muro em redor do poço! E Eu vos ensinarei os Mistérios da Vida e da Morte, para que aplaqueis logo o meu ânimo com santos sacrifícios».

Dito isto, apareceu resplandecente, cheia de glória, juventude e beleza, os cabelos brilhantes da cor das espigas douradas pelo sol.

Deméter ficou escondida no lugar mais profundo do Templo, mas não consentiu à terra que germinasse. Os campos tornaram-se ermos e o mundo converteu-se rápidamente num lugar triste e desolado até que, por fim, Zeus se preocupou pensando que os homens acabariam por morrer de fome, o Hades encher-se-ia e romper-se-ia o equilíbrio entre os diferentes mundos. Por isso decidiu intervir.

O soberano dos Deuses enviou Íris, a mensageira, a Elêusis, para que rogasse a Deméter que abandonasse a sua atitude. Mas a Deusa não fez caso. Depois, também a pedido de Zeus, foram desfilando um a um cada um dos Deuses do Olimpo. Deméter continuou inamovível, sem aceder aos insistentes pedidos e conselhos: disse que não sairia dali até que a sua filha regressasse sã e salva.

Depois de tão reiterada negativa, Zeus mandou Hermes a Erebo para falar com Hades, para que este devolvesse a rapariga. Ela estava sentada ao lado do seu senhor como Rainha dos Mortos. O seu esposo ao inteirar-se da situação, reflectiu, voltou-se para ela e permitiu-lhe ir, mas não sem antes lhe dar a comer de improviso um gomo de romã, o fruto da fecundidade. De seguida montou-a no seu carro e levou-a para o exterior. Acompanhava-os Hermes, o mensageiro.

Por fim, mãe e filha abraçam-se jubilosas e conversam durante muito tempo, relatando o sucedido, até que Deméter, depois de fazer muitas perguntas, dá-se conta do engano. Perséfone comeu alimento no mundo subterrâneo; terá que voltar lá porque assim o ditam as Leis. Estará duas partes do tempo na superfície e um terço nas profundidades da terra, como companheira de Hades. Zeus dá o seu assentimento a uma tal repartição do tempo. E finalmente Deméter, acatando o pacto, devolve ao mundo a sua fertilidade.

Depois, tal como tinha prometido, a Deusa desvelou os seus Mistérios aos homens. Santas Cerimónias que não é lícito descuidar, nem espiar por curiosidade, nem revelar sob pena de morte.

E daí em diante essas cerimónias são celebradas a cada ano, em Elêusis, em honra da Deusa e dos seus ensinamentos, primeiro reservados à família real euleusina, de onde surgiram os primeiros Hierofantes, e depois abertos a todos os que cumprissem determinados requisitos, de modo que inclusive os escravos podiam ser admitidos, e nos tempos modernos, jovens de tenra idade, até que o Cristianismo, que tentaria por todos os meios destruir os cultos milenários e o antigo saber, poria o ponto final a este ciclo tantas vezes centenário. É a Teodósio II, na sua luta contra a idolatria, que corresponde a duvidosa honra de ter precipitado a queda definitiva dos Mistérios.

Nove dias irão durar as celebrações em memória dos dias em que a Deusa andou errante, e cada dia terá um nome e uma cerimónia especial, assim como cada um tem prescrições especiais para os candidatos.

Vamos agora pois acompanhar os expectantes candidatos ao longo destas jornadas.

A 14 de Setembro, primeiro dia do Festival, depois de realizar o primeiro Grande Sacrifício no altar subterrâneo situado à entrada do Santuário de Deméter na cidade de Elêusis, forma-se a Grande Procissão segundo a ordem ritual, na qual participam os sacerdotes da Deusa encabeçados pelo portador do Cofre Sagrado; atrás irá o Hierofante, seguido pelo portador das tochas, depois as autoridades locais e por fim a multidão de fiéis.

Dirigir-se-ão a pé, desde Elêusis a Atenas, embora com o decorrer dos tempos, pouco a pouco, irão integrar-se carroças puxadas por bois, seguirão pela Via Sacra, estrada religiosa que nalguns pontos coincidirá com o caminho tradicional e cujos restos, vinte séculos depois, perderão o seu traçado na zona mais industrializada da Grécia.

A Via está almofadada com flores e frutos e os doentes colocam-se nas bermas, abrindo espaço como podem entre uma multidão cada vez mais numerosa para suplicar a ajuda e a bênção da Mãe, e assim aliviar as suas doenças e confortar os seus espíritos.

Quando chegam ao lago de Rheltoi (nos tempos modernos o lago Comoundouros) reúnem-se à Guarda de Honra, guardiã oficial da Deusa, composta por jovens atenienses vestidos de negro e armados com lanças e escudos, que irão escoltar os caminhantes durante o resto do percurso.

Por último, dirige-se ao Eleusinión de Astey, em Atenas, templo similar ao Santuário de Elêusis, onde se depositam os Objectos Sagrados. Aqui, o sacerdote de mais baixo nível de Eleusis anunciará oficialmente aos sacerdotes de Atena a chegada de Deméter à cidade.

Com isto, finalizam os actos públicos da jornada e os observadores dispersam-se rumo aos seus alojamentos.

A 15 de Setembro, denominado «Agrymos», segundo dia das celebrações, o Arconte-Rei (supremo funcionário civil), juntamente com os máximos funcionários religiosos (o Hierofante ou Sumo Sacerdote e o Arauto Sagrado, com a Guarda Sagrada em seu redor) dirigem-se à Ágora de Atenas. Então o Arauto chamará o povo para que se reúna. É uma proclamação oficial, um convite aos cidadãos, porque os candidatos já foram seleccionados.

A palavra «enteogénicos», que quer dizer «Deus connosco», foi utilizada para descrever o uso de fungos em rituais religiosos, para os diferenciar de qualquer outro tipo de experimentação profana com outros fins

Pouco a pouco, o lugar vai-se enchendo de fiéis e curiosos, que lutam por entrever as autoridades. Num dos lados, afastados da massa e vestidos com túnicas brancas, estão os aspirantes aos Mistérios, e quando se obtém um respeitoso silêncio, começa a proclamação oficial da abertura das festividades, que serão inauguradas pelo Hierofante em pessoa; este reitera novamente o convite a todos aqueles que queiram participar, excepto àqueles que sejam culpados de assassínio, profanação, ou que não

falem grego. Depois, em nome de Deméter, distribui a bênção, e os candidatos, do seu lugar, inclinam a cabeça comovidos por receber a luz da Deusa. Deste modo termina o dia numa atmosfera de espera e antecipação.

O dia 16, terceiro das festas, também chamado «Elasis» ou «Halade Mystai» (da descida ao mar) começa com o chamado dos arautos, que rompem o silêncio da cidade, ao percorrer as suas ruas, instando os candidatos para que se reúnam aos seus guias, e acudam imediatamente ao mar a fim de realizar o baptismo purificatório por imersão, para deixar que a água banhe os seus corpos e limpe a sua alma de impurezas.

Assim, pouco depois, todos os convidados descem à praia, cada um levando um leitão – presente também noutros festivais dedicados a Deméter – que será lavado e sacrificado, pensando que conforme jorra o sangue inocente do animal, ir-se-ão dissolvendo no seu interior o ódio e a maldade e poderão aproximar-se livres de mancha da experiência espiritual suprema nos próximos dias. Como o leitão é também uma boa oferenda para o Senhor do mundo subterrâneo, enterrarão depois o pequeno cadáver num buraco profundo, devolvendo assim a vítima propiciatória ao seio da terra.

No dia seguinte, o quarto, conhecido como o do «sacrifício das vítimas» em 17 de Setembro, o Arconte-rei, juntamente com os vigilantes dos Mistérios, realiza um sacrifício no Eleusinion de Astey.

O dia 18, quinto dia do festival, é conhecido também como «Epi­dau­reia» ou «Asclépeia». Embora o nome tenha talvez relação com Esculápio, o Sanador, que conhecia os enigmas da vida e da morte, Pausânias diria que este dia se chama assim porque nos tempos do Deus, este saiu do seu santuário para ser também iniciado nos Mistérios, mas chegou tarde, por isso, perdeu o princípio das cerimónias iniciáticas. Mas sendo uma Deidade, foi-lhe concedida uma permissão especial para participar e pode assim integrar-se.

O sexto dia, 19 de Setembro ou de «Laccos», é um dos dias mais importantes e intensos do festival. É a antecâmara das experiências culminantes.

No Eleusinion de Astey forma-se novamente a procissão em que se integram todos os candidatos, e pela mesma ordem da chegada, transportando desta vez uma imagem de madeira de Lacco, inicia-se o caminho de regresso a Elêusis, no meio de entusiásticas aclamações generalizadas das pessoas.

A comitiva segue a sua marcha através da cordilheira que limita a Ática por ocidente. Todos vestem túnicas cerimoniais, vão coroados de mirto e trazem uma vara de madeira torcida, «baccus» ou báculo, símbolo dos Mistérios, que séculos mais tarde, quando as ruínas forem portadoras de velhas recordações, aparecerá nalguns relevos e representações pictóricas.

De Laccos diz-se que é ao mesmo tempo filho de Deméter e de Perséfone, talvez apontando para um simbolismo duplo da Deusa, e considera–se guia dos aspirantes aos Mistérios Maiores. É ele que conduz os aspirantes diante da visão da Vida Eterna.

A Lacco, com o epíteto de «Zagreo», também se chama «o grande caçador», e parece que deste nome deriva «Zagre», que significa «armadilha para caçar feras».

Lacco, como Zagrei, pode ser considerado como uma forma de Dionísio, Deus cujo significado tem diversas chaves de interpretação, numa delas tem a haver com a Natureza, a vegetação e os seus frutos, e os seus Mistérios também se relacionam com a vida e a morte.

Em breve a procissão fará a primeira paragem do percurso no Santuário de Apolo em Daphne, rodeado de loureiros consagrados ao Deus, e alguns peregrinos aproveitam a pausa para descansar no pequeno bosque que evoca o mito da donzela que perdeu a sua condição humana ao fugir do Senhor do Saber Luminoso, convertendo-se em árvore.

O Santuário nos tempos primitivos era um pequeno anexo de um templo dedicado a Afrodite, depois foi dedicado quase por completo ao culto do Vencedor da serpente piton, e nos séculos futuros, quando o cristianismo se ergueu ocultando os velhos deuses, o lugar foi ocupado por um mosteiro ortodoxo entre pinheiros, nos quais se celebrava o tradicional festival anual do vinho de Daphne.

Depois, o cortejo irá parando nos santuários existentes ao longo da Via-Sacra, enquanto os participantes cantam hinos semelhantes às modernas litanias. Depois de passar pela planície Rariana, onde segundo a tradição foram cultivadas pela primeira vez as gramíneas, diante dos produtos da terra selvagem não domesticada, farão a última paragem antes de chegar ao lugar sagrado, num lago dedicado a Deméter e Perséfone, cuja pesca, especialmente a das enguias, só pode ser consumida pelos sacerdotes de Elêusis.

No Rheltoi estão agora os representantes da velha família Croconides à espera, e conforme vão chegando os participantes, atam-lhes com um fio de intensa cor amarela o pé esquerdo e a mão direita. É a primeira tentativa de travar a marcha. Entretanto, a noite vai caindo e as tochas marcam um caminho luminoso até à ponte que separa dois mundos e duas realidades.

Um dos aspectos mais importantes da jornada consiste em atravessar a ponte física e o umbral psicológico que lhes permitirá o acesso à vivência culminante.

Por ali passam sem nenhum problema os sacerdotes e os objectos sagrados e ali esperam expectantes as gentes de Elêusis. Quando os candidatos se aproximam, sem que tenham tempo para reagir, vêem-se envoltos em lençóis que os impedem de ver e lhes dificultam ainda mais os movimentos. São obrigados a ir em fila e a atravessar individualmente. Além disso, chovem injúrias de todo o tipo, insultos, imprecações, troças, abusos, ameaças, golpes e fortes empurrões, caem sobre os incautos sem nenhum tipo de contemplações. E estes têm que fazer um grande esforço não apenas para não perder o equilíbrio, rolar pelo chão e lastimar-se ou cair à água, mas simplesmente para respirar. Cada um resiste como pode aos maus tratos, com a tensão suprema de aguentar a dor, o aturdimento, o sufoco e a comoção emocional para poder vencer na luta. É um jogo de forças, as que impulsionam o avanço e as que o travam.

Um a um são instados com veemência a desistir e a abandonar o empenho. Cada um é obrigado a escutar a verdade nua sobre si próprio, gritam-lhes os seus próprios defeitos com palavras que nunca voltarão a escutar, atados, cambaleando na escuridão às cegas sem poderem falar, e evidentemente sem se poderem rebelar nem dar nenhum tipo de resposta violenta. Depois, os peregrinos dirigem-se aos propileus do Templo. Perto do poço sagrado, no lugar em que, segundo o mito, Deméter refrescou os seus lábios gretados depois da sua angustiosa busca, as donzelas de Elêusis iniciam uma dança para honrar as duas Deusas e Dionísio. Aqui, alguns viajantes bailam sobre as estrelas até ao amanhecer, enquanto os escolhidos atravessam as portas do enigma, cruzando o umbral físico do Templo para a «Grande Experiência».

As noites de 20 e 21 de Setembro, correspondentes aos dias sétimo e oitavo do festival, são as Noites dos Mistérios, as Noites Sagradas, o fim do caminho.

Já se realizou o último Grande Sacrifício pelo Arconte-rei, como chefe de Estado, em representação de Atenas, e depois o Sacrifício do Touro por um jovem membro da Guarda de Honra da Deusa. O animal, simboliza a força da Terra, a energia vivificante da Natureza e o seu potencial de fecundidade, costuma aparecer associado ao culto das Deusas geradoras, neste caso relacionado com Deméter e Dionísio. Efectuam-se as oferendas do «Pelanos», oferta dos Eumolpides. Trata-se de uma torta feita de farinha de trigo e cevada, decorada com desenhos como aqueles pães que ainda hoje se oferecem à Virgem nalgumas festividades populares.

Entretanto, reparte-se entre os participantes, como comunhão, uma bebida à base de cevada dissolvida em água e aromatizada com menta, como aquela que Deméter aceitou no palácio de Elêusis.

Com o grito de «Para trás profanos» que é lançado pelo Arauto, começam as Cerimónias Secretas por detrás dos muros do Telestérion, que continuarão na noite seguinte, desta vez reservada só para os «Epoptai», aqueles que foram recebidos no Templo em anos anteriores

Com o grito de «Para trás profanos» que é lançado pelo Arauto, começam as Cerimónias Secretas por detrás dos muros do Telestérion, que continuarão na noite seguinte, desta vez reservada só para os «Epoptai», aqueles que foram recebidos no Templo em anos anteriores.

Nada se sabe com exactidão acerca do conteúdo concreto e da natureza última das experiências que têm lugar no interior do recinto, salvo que fundamentalmente os escolhidos presenciam ou vivenciam algo que os religa com o transcendente e produz uma intensa comoção em todo o seu ser. Algo relacionado com os Ciclos da Natureza, com aquilo que os humanos chamam «Vida» e «Morte», experimentados aqui como duas facetas de uma única Realidade que aparece e submerge ao nosso olhar dependendo do ponto de observação, como fazem os golfinhos na sua deslocação através das águas luminosas do próximo Egeu.

No dia seguinte, o nono ou «Plymochoai» (22 do mês Boedromion), os iniciados, depois de terem participado na cerimónia que encerra o ciclo dos Mistérios recordando a morte, tomaram uma bebida doce de composição desconhecida, num recipiente especial, depois de ter derramado parcialmente o conteúdo, primeiro para leste e depois para oeste, e cantam alvoroçados.

Saem com o rosto cheio de luz. Muitos dedicaram as suas túnicas brancas à Deusa e outros levam-nas consigo para fazerem trajes para si ou para os seus filhos, pois consideram-nas santificadas e portanto protectoras do seu portador. No próximo dia, «Epistrophe» ou «do regresso», iniciados e não iniciados voltam às suas casas. Alguns ficarão algum tempo em Elêusis e outros regressarão a Atenas em grupos. Em breve começará a reunião do Conselho dos Quinhentos, decretada por uma das Leis de Sólon, para julgar todos os delitos e actos impróprios que tenham tido lugar durante o desenvolvimento das Festividades. Atenas volta finalmente ao seu ritmo normal depois deste parêntesis, e a nós só nos resta navegar outra vez pelo curso dos séculos.

Sobre o conteúdo oculto da Noite dos Mistérios

No longo milénio durante o qual, ano após ano, se celebravam os Mistérios, variadíssimos dados acabaram por escapar ao juramento de silêncio, mas nenhum dos momentos de esplendor. O pouco que sabemos para além dos actos públicos, corresponde aos tempos mais modernos e muitos são comentários que por sua vez se referem a outros autores.

Clemente de Alexandria indica que «o mito de Deméter e Coré converteu-se num drama para iniciados, Elêusis celebra com tochas a sua peregrinação, o seu rapto e a sua aflição». Se bem que, por um lado, tudo no Festival Anual de Elêusis, tanto a forma das celebrações como o seu conteúdo, tem uma leitura simbólica, podendo assim ser também interpretado, por outro lado, ao que parece, em certos momentos dos Mistérios Menores se fizeram dramatizações de tais conteúdos e do Mito da Deusa, parece no entanto muito pouco provável que na Noite dos Mistérios se tenha realizado alguma representação dramática, tal como Clemente indica, e, citando-o, tantos investigadores e comentaristas posteriores. Se se tivesse realizado alguma teatralização no Telestérion de Elêusis, teriam que se ter encontrado registos de contas gastos de actores e cenografia, e não foi assim. Além disso, o Telestérion, de configuração quadrangular englobava uma câmara muito mais pequena, também rectangular, o anaktoron ou «morada do senhor». Esta posição foi mantida intacta nas sucessivas reconstruções. Além disso, a disposição do Telestérion, ao pé de cujos muros se sentavam os candidatos, velados, em degraus cobertos de pele de cordeiro, impedia a visão a partir de muitos ângulos. São Hipólito declara que «a verdadeira essência dos Mistérios consiste em mostrar uma espiga de cereal». Se bem que não seja impróprio que, como parte do rito, as espigas tenham um papel simbólico destacado na alusão à ceifa e a Deméter, sua Senhora, pretender que consistam na «verdadeira essência dos Mistérios» é bastante ridículo. Além disso, sabe-se que dentro do Telestérion os candidatos sofriam uma profunda comoção e uma profunda vivência, e por mais que o conjunto ritual facilitasse a expressão de determinados sentimentos, isso não parece explicação suficiente. Por outro lado, dentro da gama de emoções entrava a ansiedade e o medo, e parece estranho que alguém pudesse assustar-se com uma espiga.

Santo Agostinho cita Marco Terêncio Varrão, que interpreta o conjunto dos Mistérios Eleusinos em relação ao grão. «A própria Proserpina», diz, «simboliza a fecundidade das sementes, e quando num certo momento fracassou, ocasionando que a terra ficasse estéril, e por essa razão desse origem à opinião de que a filha de Ceres, a fecundidade, tinha sido raptada por Plutão, e retida no mundo de baixo. E quando a carestia foi publicamente lamentada, e a fecundidade voltou, houve júbilo pelo regresso de Proserpina, e em consequência instituíram-se os Ritos solenes». E «depois», continua Santo Agostinho, citando Varrão, «ensinaram-se muitas coisas nos seus Mistérios que não têm relação com mais do que a descoberta do grão».

Uma interpretação semelhante foi recolhida das investigações que se fizeram no século XIX, a partir do auge dos colonialismos, os estudos geográficos e antropológicos, que facilitaram o interesse pelas simbologias e pelas religiões comparadas. Parece que numa certa chave, em culturas agrárias, o simbolismo teológico possui uma evidente relação com os ciclos naturais de renascimento e declínio. Deste modo se aparentaram os Mistérios de Elêusis com os rituais mesopotâmicos que evocam os mistérios da Grande Mãe Natureza e do «filho-esposo» que se despedaça, morre e ressuscita periodicamente. De facto, especulando sobre a origem do mito e dos mistérios eleusinos, alguns autores fazem-no provir da Ásia Menor, se bem que é verdade que outros apontam para o Egipto, ou Creta, o que parece ser possível pelos elementos comuns que podemos encontrar, se rastrearmos entre o simbolismo minóico da Grande Mãe, seus atributos e certos elementos presentes no mito de Deméter. Outras interpretações na mesma linha apontam para que, sobre a primitiva rememoração do nascimento e da morte das colheitas, se tenham associado os elementos gerais do morrer e renascer, acrescentando-se posteriormente a esta base uma abstracção geral sobre o renascimento e a permanência «post-mortem» humana.

Segundo Plutarco, Alcibíades mostrou em sua casa alguns elementos dos Mistérios, representando em mímica uma cena, pelo que foi acusado de impiedade. Alguns comentaristas crêem que o grego se está a referir aos «Hiera», «objectos sagrados», mas apesar das muitas versões, não se sabe com exactidão se se referia a uma visão ou a um objecto.

Platão, no Fédon, fala dos Mistérios Menores e dos Mistérios Maiores, referindo-se a certas visões das noites dos Mistérios como «Phantasmata», aparições fantasmas.

Aristóteles sublinha o papel da vivência, emoção e experiência nos Mistérios.

Eurípedes põe na boca de Hércules que, «na noite dos Mistérios», se via a aparição de Deméter surgindo dos Infernos.

Outra linha de investigação moderna indica que é muito possível que nos Mistérios de Elêusis se tenham utilizado fungos «enteogénicos», ou seja, que depois de uma preparação psicofísica muito cuidadosa, certas doses deste tipo de fungos num ambiente especial facultariam a vivência mística. E em seu apoio citam os dados provenientes de múltiplas culturas onde se utilizava a ajuda de substâncias semelhantes.

A palavra «enteogénicos», que quer dizer «Deus connosco», foi utilizada para descrever o uso de fungos em rituais religiosos, para os diferenciar de qualquer outro tipo de experimentação profana com outros fins. Estes investigadores sugerem que é possível que, oculto na tradição Eleusina, subjaza o uso de alguns derivados da cravagem do centeio. Assim, dizem que os fungos eram considerados um fermento da terra, um símbolo do renascer da vida a partir do frio reino da putrefacção que era o bolorento Além.

Os mesmos autores, procurando provas da sua tese, assinalam que os fungos eram conhecidos na Grécia, que estavam também associados a rituais extáticos de Dionísio, e que se misturavam no vinho, indicando que esta bebida não continha apenas álcool, mas que geralmente era uma infusão variada de diferentes vegetais num líquido vinhoso. Acrescentam proas do perigo de tal vinho que poderia provocar a loucura se se abusava dele. Afirmavam que o vinho de Dionísio era o meio essencial pelo qual os gregos da época clássica continuaram a participar no vetusto êxtase que residia em todas as formas vegetativas que eram o filho da Terra.

Os seguidores desta corrente afirmam que nas noites em que culminavam os Mistérios se distribuía algo mais do que água e cevada para que os participantes bebessem.

Mas a cortina do segredo não pára de se abrir. Dados, alusões mais ou menos veladas, suposições… Algo tão importante que levou o poeta exclamar:

«Feliz é o homem que viu os Mistérios, mas aquele que não tomou parte neles não pode ter a mesma fortuna que aqueles que descem aoreino de Hades com os Iniciados».

 

Arquivo da Nova Acrópole