Ainda que há pouco tempo se tenha chegado a pensar que o átomo era a parte mais pequena da matéria a que poderíamos aceder, os últimos anos tem sido, para as ciências físicas, um contínuo baptizar de novas partículas que se movem na esfera subatómica.

Hoje não vou falar nem da simplicidade de um sorriso, nem do olhar enternecedor de um cão, nem tão pouco daquelas frases de uma aguardada missiva que se relê e rememora. Nem do vapor adormecido nos cristais dos dias outonais, nem do ronronar de um gato, nem do bálsamo da ternura, nem do olhar paciente do verdadeiro mestre. Tão pouco vou falar da pujança de uma grama de erva, nem da flexível silhueta do junco, nem mesmo dos dourados campos de girassóis, ainda que de alguma maneira o mundo e a vida estejam cheios de incontáveis pequenas coisas que roçam com a sua beleza, o mundo do indescritível e do fantasioso.

Vou falar de algo não menos belo, da simplicidade e formosura do infinitesimal, daquilo que sendo pequeno é por sua vez infinito e sem limites, dos abismos do átomo, das leves partículas presas nas mesmas leis que movem os espaços siderais; vou falar da beleza e serenidade que se escondem entre as suas diminutas pregas.

Uma vez que o mundo está conformado com base em leis simples e harmónicas, que guardam sempre uma simetria velada, no nosso infinito universo, o imensamente pequeno rivaliza em beleza e profundidade com o imensamente grande.

Se descemos desde as dimensões habituais em que o homem se move até o mundo do minúsculo, cortando a realidade em pequenos tomos com um suposto bisturi capaz dos mais delicados cortes, chegaremos ao mundo do infinitesimal.

Na nossa viajem, acumulámos já muitos sucessos: deixámos para trás os segundos-luz e as unidades astronómicas; dividimos o meridiano terrestre até alcançar a décima milionésima parte do mesmo, a que chamamos metro; dividimos por mil vezes o metro até alcançar o tamanho da cabeça de um alfinete, e até mesmo a cabeça de um alfinete, que mede apenas um milímetro, é um mundo imensamente grande dependendo com o que se compare.

Assim, a centésima parte de um milímetro levar-nos-ia aos domínios da célula vermelha do nosso sangue, e a centésima parte do tamanho de tais células levar-nos-ia aos domínios de um vírus. Dividamos esta magnitude por mil e alcançaremos a medida do raio de um átomo qualquer.

Desde a antiguidade, o homem acreditou que dividindo a matéria de modo sucessivo se alcançaria um momento em que se chegaria a algo indivisível, ao qual, então se chamou átomo, palavra que etimologicamente significa sem partes.

Na Antiguidade, já os gregos, apesar de o expressarem de outro modo, pensavam que a matéria procedia de distintos elementos ou partículas como componentes. Para Empédocles (Séc. V a.C.) a origem de todas as substâncias determinadas são os quatro elementos que permanecem inalteráveis: terra, agua, ar e fogo. Mas o significado destes elementos é mais profundo do que hoje em dia lhe damos. Adoptam o mesmo significado que os termos alquimistas; por isso, a ciência actual, despreza-os, por não os entender, e atreveria-me a traduzi-lo, dizendo que se refere a que tudo na natureza está conformado como reunião dos elementos físicos, energéticos, emocionais e mentais, que se conjugam para conformar aos seres vivos e ao homem.

Também Anaxágoras (s. V a.C.) dizia que todas as coisas provinham de um princípio primeiro que as podia conter, e que era o resultado da combinação das “sementes”, ou seja, de certas entidades ilimitadamente pequenas, que eram inalteráveis e inertes. Estas sementes foram posteriormente chamadas “homeomerias” por Aristóteles (Séc. IV a.C.), considerando igualmente que segundo a proporção em que intervinham em cada ente, davam lugar às suas características específicas.

Também os atomistas Leucipo e Demócrito expressaram que todo o ente, os diversos seres e coisas, procedem de uns átomos, cheios, compactos, indivisíveis, infinitos no seu número, iguais qualitativamente mas de características diferentes, capazes de movimento pelo vazio existente, e tendentes à agrupação ou separação. Segundo explicam, movem-se por necessidade, ainda que “colidam e alguns sejam expulsos mediante sacudidas à sorte em qualquer direcção, enquanto outros, entrelaçando-se mutuamente em consonância com a congruência das suas figuras, tamanhos, posições e ordenamentos, mantem-se unidos e assim originam o nascimento dos corpos compostos”.

Mas hoje em dia pensamos que o que concebiam na Antiguidade como átomos é diferente do que nós concebemos. Será talvez porque conseguimos dividir aquilo que parecia indivisível? Esquecemos que tudo, com o passar do tempo, também será novamente divisível, e outras novas concepções também ridicularizarão as que hoje mantemos com orgulho.

Dissecando a realidade

E certamente, passado o tempo desde as concepções gregas, comprovou-se que o átomo era divisível, e que estava conformado por um núcleo central e uns eletrões que orbitam em seu redor. Mais tarde, o núcleo desvendou os seus segredos, e reconheceu-se os protões e os neutrões, que eram mil milhões de vezes mais pequenos que o tamanho médio de um átomo. E a seguir descobrem-se outras partículas ou grupos de partículas como os fermiões, os bosões, os mesões, os piões, os muões, os neutrinos, etc. Inclusive, recentemente constatou-se para cada partícula a existência de uma antipartícula, tal como o “antiprotão” ou o positrão (“anti-electrão”), os quais, por serem de igual massa e carga contrária, ao encontrarem-se com as suas partículas contrárias fundem-se e desaparecem em apenas uma décima milionésima de segundo.

O número de partículas actualmente conhecidas é cada vez mais elevado, pois são centenas, que por sua vez se desintegram umas dando lugar a outras, enquanto as suas dimensões se tornam mais finas. Mas todas elas parecem estar conformadas por umas partículas de nível inferior, como tijolos componentes da matéria a que se chama “quarks”, unidos mediante a argamassa de uma nova partícula, o gluão.

Não obstante, a aparência do átomo é a de um espaço vazio. É conhecido o exemplo que nos diz que se o átomo fosse tão grande como um estádio olímpico, o núcleo seria como uma pequena laranja no seu centro, tanto que um electrão seria tão pequeno como um mosquito nas bancadas.

Portanto, há mais no átomo de vazio do que matéria densa. E apesar do já dito, os átomos combinam-se em moléculas, e são causa da textura e solidez do material, e da composição das coisas.

Sabemos também pelas experiencias de Bell e de Aspect (1975) que quando as partículas entrelaçadas são lançadas contra uma densa placa em que é deixada uma abertura, se uma delas consegue passar por ela, a outra nunca o faz. Como é dado o aviso? O que é este estranho comportamento para pequenas partículas distantes que reagem como uma entidade?

Estas partículas são algo que roça o etéreo, o nível mais ínfimo da matéria? São por sua vez, independentes ou são aspectos de uma única partícula ainda por descobrir? Seguramente poderemos ir mais longe com tempo, mas tão pouco sabemos se há lugares para onde ir. Conseguimos dividir o átomo e chegar por agora até aos quarks, mas o que impede de acreditar que as partículas indivisíveis e sem partes que sempre citaram os textos clássicos não sejam os quarks?

Ainda há muitas perguntas a resolver, pois não sabemos se as ferramentas utilizadas são imperfeitas ou existe algum limite natural que o homem não poderá exceder.

No seu princípio de indeterminação, Heisenberg demostrou que quando queremos prender uma partícula, no próprio interesse de a medir alteramo-la. Há, portanto, uma incerteza na hora de conhecer perfeitamente a sua posição, e se chegamos a conhece-la, ao mesmo tempo fazemos variar as suas magnitudes ou características de massa e velocidade.

É clássico o exemplo que nos indica que quando queremos apanhar uma moeda que caiu por uma ranhura num sofá, ao pretender alcança-la com a mão provocamos que a dita abertura se torne maior e cada vez seja mais difícil ter êxito.

Talvez, então, por esta perspectiva, o que conseguiremos descobrir, alterará o objecto e este não se corresponda com o que queríamos descobrir.

Mas, até onde poderemos continuar a dividir a matéria? Dependente da finura do bisturi que utilizemos ou o universo amplia-se também em intermináveis pregas até ao profundo e insondável?

E assim, permitiram os ditos avanços compreender psicológica e humanamente melhor aos seres humanos ou somente será uma descoberta física? Esperamos ainda construir uma torre de babel que chegue de novo até ao céu ou queremos aumentar também em compreensão humana?

Seguramente poderemos continuar a dividir a matéria muito mais, e com o passar dos séculos vindouros outros tantos novos exploradores alcançarão desertos salgados, paisagens áridas em continentes inóspitos, ou disfrutarão de encostas férteis jamais trilhadas por olhos procurando através de um microscópio. Texturas mínimas esquecidas, ainda escondidas nas ínfimas dimensões de outras tantas agulhas de materiais ainda desconhecidos no indolente presente, mostrarão debaixo da lupa de milhares de aumentos jacentes vulcões desenhados nos olhos da ferrugem.

Para uma lâmina de um novo óxido, o homem sempre esteve disposto a alcançar a lua; por um pouco de ouro ou uma gota de petróleo, o homem esteve sempre disposto a empreender uma guerra; mas também é certo que o homem – feito de um e de outro –, por uma gota de âmbar com uma doce libélula adormecida no seu regaço sempre esteve disposto a esquecer-se dos seus próprios interesses.

Recordando aquela velha máxima que ensina que “ciência sem consciência é a ruína da alma”, convém ter presente que por detrás das dimensões do infinitamente pequeno dormem em partes iguais o interesse e o próprio afã da superação, a infalível soberba do homem e a descoberta das chaves e leis que o devolverão à humildade que precisa.

Escrito por Raysan