O Mabinogion: por Detrás do Velho Folclore

Autor

Nova Acrópole

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Prólogo

Este trabalho tem uma finalidade dupla: por um lado comunicar o especial encanto da antiga literatura galesa (que tem muitos aspectos em comum com os relatos épico-heróicos de todos os tempos); e, por outro lado, ressaltar, uma vez mais, e utilizando um exemplo concreto, o processo pelo qual as velhas religiões e ainda as verdades esotéricas perdem a sua pureza primitiva para se misturarem com elementos históricos, fantásticos e de toda a índole, para se converterem no que chamamos “contos folclóricos”.

O Mabinogion, uma coleção de contos pouco comum, célebre, e muito tocante, é uma mostra deste processo, e iremos tratar aqui de admirar tanto o véu exterior, como a face oculta que se esconde por trás dele, um trabalho grande e difícil, mas facilitado um pouco pelo conhecimento dos mitos fundamentais da Humanidade.

O que é o Mabinogion?

O Mabinogion, como referimos antes, é uma coleção de contos galeses que tratam das aventuras, façanhas, fortunas e desgraças de uma série de personagens, passado espacio-temporalmente no País de Gales, num ambiente essencialmente celta. Chega-nos a presente coleção por meio de dois manuscritos medievais: o “Livro Vermelho de Hergest” e o “Livro Branco de Rhydderch”, ambos escritos entre os séculos catorze e quinze da nossa Era, mas recompilados de tradições anteriores.

Talvez chame a atenção ao leitor, o estranho nome que tem esta coleção de contos – que significa a palavra Mabinogion? De facto, os estudiosos do tema concordam unanimemente quanto ao seu significado. Mas certo é que a raiz “mab” significa juventude e até infância, pelo que alguns opinam que “mabinogion” quer dizer “contos infantis”, ou melhor, “contos sobre a juventude” (referindo-se à juventude do herói Pryderi).

Mais interessante ainda é a relação que poderia haver com o deus celta Mabon ou Maponos, que foi precisamente um deus jovem, equivalente, entre os celtas, ao deus Apolo. Recordemos que este foi uma divindade solar, figurado como um jovem formoso e relacionado com a imortalidade, a cura, a adivinhação e a música. Sabemos pouco sobre o deus Maponos, porém, se assumisse as mesmas características que Apolo, seria lógico pensar que teria uma forte relação com os Bardos celtas, e que, desta maneira, o título poderia aludir a tal relação. Segundo outro autor, a palavra “mabinogion” referia-se ao curso de aprendizagem que faziam os jovens bardos, músicos por excelência.

Seja como for, o que parece certo e seguro é a raiz da palavra, que se relaciona com a juventude. Mas a que juventude se refere? À do corpo ou à da Alma? Não poderia ser que se referisse a essa eterna juventude da Alma, e que, assim como em tantos outros “contos infantis”, o motivo principal da obra fosse a busca do Homem para encontrar-se a si mesmo, chegando à consciência da própria imortalidade?

As origens da obra

Embora o “Livro Vermelho”, que contém os quatro contos (chamam-se ‘ramos’ como se de uma árvore se tratasse), o qual iremos comentar, tenha sido escrito pela mão de um artista medieval, os contos não têm a sua origem nesta época. O “autor” medieval não fez mais que recompilá-los ao seu estilo, de fontes mais antigas, e não se sabe quantas versões escritas tinham existido antes da que foi efetivamente conservada, no século XIV. No entanto, antes da primeira versão escrita, o Mabinogion, de alguma forma, já existia, e foi transmitido por via oral, seguindo o velho costume dos celtas e de muitos outros povos.

Remontamos, por isso, à época celta e é aí que encontramos a verdadeira origem do Mabinogion, ainda que talvez pudéssemos recuar, ainda mais, à procura das origens dos mitos universais; mas isso não iremos abordar aqui.

Assim, o Mabinogion tem por cenário Gales da época celta e as suas personagens são os príncipes bretões. Mas nele entrecruzam-se muitos elementos variados – nomes de deuses e deusas celtas, pedaços de História confusa, lendas de gigantes, viagens mágicas ao além…, juntamente com influências romanas e sobretudo cristãs (por exemplo, aparece num dos contos, um mago negro disfarçado de bispo medieval), que dificultam enormemente a interpretação do texto. Ora ainda que saibamos que o original é celta e que deve provir da religião e mitologia dos celtas bretões, sabemos muito pouco de como terá sido esse original.

O Mabinogion, de facto, é um dos poucos restos da mitologia galesa e que nos chegou muito deformado. O “original” terá sido cantado pelos Bardos e constituiu como todos os mitos da literatura sagrada do povo, contendo todas as suas crenças, ética e a sua visão do mundo, sob o véu do mito e da alegoria, com a qual os seus sacerdotes tinham coberto as mais puras verdades.

Desta forma, podemos afirmar que o verdadeiro e “original” Mabinogion foi constituído pela Doutrina dos Druidas, que a entregavam aos seus discípulos – os Bardos, que eram uma subdivisão dos Druidas – para a transmitirem de forma velada ao povo. Podemos ver como com o desaparecimento da fonte de sabedoria celta (ou seja, os druidas) nos tempos do Império Romano, os mitos terão continuado a ser transmitidos por Bardos cada vez menos ilustrados, promovendo assim paulatinamente, a perda de claridade e coerência nos mitos originais.

Seriam narrados uma e outra vez durante a Idade Média por múltiplos trovadores, cada um adaptando-os ao seu próprio estilo (pois nunca se memorizavam palavra a palavra, mas sim o esquema geral), misturando os elementos mais variados, para depois serem recompilados muitas vezes por escribas medievais que talvez não entendessem o que escreviam. Assim encontramo-nos de novo com o nosso texto medieval, sendo verdadeiramente admirável que nos tenha chegado com alguns resquícios de conteúdo original.

O mundo do qual nos fala o Mabinogion é um mundo tipicamente celta. Nele ressalta a visão mágica do mundo, onde o aqui e o mais além se confundem, o tempo para e os mortos voltam à vida. É ao mesmo tempo, um mundo heróico onde primam os valores propriamente humanos, ou seja, cavalheirescos.

É um mundo de amigos leais, de homens dignos, de palavra fiel, de homens valentes que têm sempre um sorriso ou uma graça inocente ao abrir dos lábios, e que levam a vida quase como se fosse um jogo, ainda que ao mesmo tempo, saibam chorar a morte dos seus amigos e dos seus reis, e lutar por defender a honra das suas damas. É um mundo, enfim, que hoje está quase perdido, todavia que todos os homens que querem ser como eles devem ansiar e lutar por fazê-lo voltar.

Os quatro ramos

Vamos agora analisar os quatro primeiros contos do Mabinogion que são aqueles que têm maior relação com o simbolismo celta. Esclarecemos que não pretendemos fazer uma análise exaustiva, pois os mitos têm sempre numerosas chaves de interpretação e não poderemos vê-las a todas. Por isso, vamos dedicarmo-nos um pouco ao simbolismo dos contos, do ponto de vista ou chave humana: dito de outro modo, vamos aqui ver, o que nos dizem os contos sobre os processos e aventuras da alma, sabendo de antemão que ficará muito por explicar, e que o deixaremos à intuição dos nossos estimados leitores.

  1. Pwyll, Senhor de Dyved

Neste conto, vemos como o herói, para reparar uma falta cometida contra o Senhor do Além, tem de ir ao Outro Mundo combater com um gigante. Seguindo as instruções do deus que o adverte a não ouvir as queixas do gigante (tal como na Bhagavad-Gita, ou n’A Voz do Silêncio, o aspirante não deve ter piedade do seu eu inferior); vence-o, e assim regressa vitorioso à sua terra-natal, estabelecendo um pacto com o Rei-do-Além. É o rei pontífice que estabelece a união entre o céu e a terra.

Na segunda parte, Pwyell encontra Rhiannon (forma da deusa Rigantona) e casa-se com ela, simbolizando a união do homem com a sua alma divina. Na noite do casamento aparece um príncipe estrangeiro (outra aparição do eu inferior), que faz uma última tentativa para ficar com a alma. Este príncipe, através de um engano, quase consegue retirar a amada de Pwyll mas, por outro engano, mediante o qual Pwyll aparece na boda do príncipe (Gwawl) com Rhiannon vestido de mendigo, (assim como Ulisses aparece na corte de Penélope para matar os intrusos), consegue recuperar a sua amada (que o ajuda, oferecendo-lhe um saco mágico para apanhar Gwawl, assim como Ariadne ajuda Teseu com o seu filho de ouro a sair do labirinto) e, por fim, casam-se.

Pouco depois nasce-lhes um filho que rapidamente desaparece, ficando Rhiannon acusada (injustamente) do seu assassinato. Tem que passar por uma penitência, que consiste em levar os visitantes à corte sobre as suas costas e contar-lhes o seu crime; por fim é reivindicada pelo seu filho Pryderi, que aparece inesperadamente em casa de um nobre (Teyrnon, forma do deus Tigernonnos) que o educa e, passado pouco tempo, apresenta-o à corte.

Este Pryderi, pela forma como foi encontrado (semelhante à história de Moisés encontrado entre as canas), e por ser educado por um mago, longe da sua família (como foi o jovem rei Artur), apresenta fortes traços de salvador que redime a alma prisioneira (a sua mãe) e assim reina na Terra, em vez do seu pai falecido (tal como Hórus assume o poder de Osíris quando este parte para o Amenti).

  1. Branwen, filha de Llyr (1)

O segundo conto reflecte, em linhas gerais, igual simbolismo ao Bhagavad-Gita hindu ou à Ilíada grega, ou seja, a batalha total apresenta-se como indispensável para o cumprimento do destino humano. Nele vemos a irmã do rei Bran (2), da Ilha-dos-Gigantes (na Bretanha), casada com o rei da Irlanda para conseguir a união das duas ilhas (trata-se da união de espírito e matéria através da alma).

Contudo, Bran tem um irmão que semeia discórdia em todas as oportunidades e, assim, por Branwen ser maltratada na Irlanda (a alma pisada pelo materialismo), Bran vai com os seus fazer a guerra contra os irlandeses. Há outra tentativa de reconciliação, contudo, uma outra vez, o irmão conflituoso (chamado Evnissyen) mata o filho de Branwen e Mallolwch (rei da Irlanda), e assim instala-se uma guerra cruel. Associado ao conto está um caldeirão mágico que faz regressar os mortos à vida; mas vendo que os irlandeses mortos se voltam contra ele, Evnissyan introduz-se no caldeirão e parte-o em pedaços, partindo-se simultaneamente também o seu coração neste acto, tão terrível quanto heróico.

Depois da batalha na qual Bran é ferido e morto, juntamente com todos os irlandeses, apenas sete homens regressam com vida à Ilha-dos-Gigantes. Com eles levam a cabeça do rei morto, a fim de a enterrarem em Londres. Durante a viagem param num palácio “onde cantam os pássaros de Rhiannon” durante cerca de oitenta anos. Para eles, o Tempo deixa de existir, e só conhecem a felicidade. De seguida e, no cumprimento da profecia, um deles abre uma porta e tem de seguir viagem (parece aludir, numa chave de interpretação, ao período de descanso celeste entre uma encarnação e outra). Assim, com o final de um ciclo e o começo de outro, chegam com a cabeça mágica de Bran a Londres, e com isso termina o conto.

  1. Manawydan, filho de Llyr

O terceiro conto tem certa semelhança com o conto de fadas chamado “A Bela Adormecida”, no qual a maldição de uma fada má, ofendida, toma todo o palácio que fica encantado e a vida para até à chegada do príncipe valente que rompe o encantamento.

Neste conto de Manawydan, o encantamento produz-se na sua terra-natal, sem que se saiba inicialmente a sua causa. Assim, com o seu amigo Pryderi, Manawydan parte para Inglaterra, para procurar trabalho – exilado, usando a teminologia da Bíblia, e condenado a ganhar a vida pelo trabalho –.

Os seus artesanatos são tão bons que, em cada cidade por onde passam, são perseguidos por outros artesãos e, assim, voltam a Dyved. Um dia, Pryderi encontra um castelo encantado no meio de um bosque, entra nele e fica encantado, sem possibilidade de se mover ou falar, por ter pegado num maravilhoso caldeirão de oiro. A sua mãe Rhiannon (esposa de Manawydan) vai buscá-lo e fica presa também no encantamento (e aqui outra vez, a simbologia da alma prisioneira?).

Por fim, depois de outra viagem a Inglaterra para trabalhar, e com o mesmo final, Manawydan volta a Dyved e semeia trigo. No entanto, cada vez que quer semeá-lo encontra-o destruído. Por fim, descobre a causa: são centenas de ratos que o comem, e consegue atrair um deles. Quer enforcá-lo pelo seu crime e várias pessoas – um estudioso, um sacerdote, e finalmente um bispo, oferecem-lhe grandes somas para que não o faça.

Pelo seu empenho, o bispo revela que o rato é a sua mulher grávida e que foi ele (na realidade é um mago) que encantou a terra por vingança do que Pwyll (o pai de Pryderi) fez a Gwawl (ver o primeiro conto). Nisto promete retirar a maldição se Manawydan libertar a sua mulher, o que faz, mas sem antes se precaver de possíveis feitiços do mago, evitando cair no mesmo erro de Pwyell (de quem parece ser outra reencarnação, todavia mais sábio) de falar sem pensar o suficiente. Assim, toda a vida volta à normalidade, e Pryderi e Rhiannon reaparecem de novo.

Outra vez, neste conto, vemos o problema da alma prisioneira do mundo encantado (Maya) e a dificuldade que supõe encontrar a causa do encantamento, a dor. Manawydan consegue-o, actuando com muita sabedoria (quiçá daí a raiz Mana do seu nome; é interessante notar que o nome Pwyll significa precisamente juízo, inteligência), sem dar escuta às lamentações, nem se deixar prender pelas tentações. É o homem que encontra o Sendeiro, que atravessa o bosque de Maya e não para de andar com pé firme e seguro até chegar ao seu centro, ao que o Budismo chama, a Causa da Dor. É a história do Paraíso perdido e recuperado.

  1. Math, filho de Mathonwy

Neste conto vê-se a morte do herói Pryderi, filho de Pwll. É morto por Gwydion, por razões demasiado complicadas para detalhar aqui, bastando dizer que este seu assassino arrepende-se muito do seu gesto e, numa tentativa de reparar o mal, empenha-se em educar um novo herói, uma forma de divindade solar chamada Lleu, que significa “luminoso” e é equivalente ao deus irlandês Lug Gwydion, uma antiga divindade celta, deus do artesanato e grande mago.

Assim, outra vez, tal como no primeiro conto de Pwyll, vemos como o futuro herói aparece de maneira mágica e misteriosa e é educado por um mago que lhe procura um nome, armas e uma mulher chamada “Filha-das-Flores” (semelhante a Pandora grega pelo dano que provoca, o inconsciente que representa). Esta irá enganá-lo e com o seu amante planeia a sua morte, pois, como Aquiles, Lleu é quase imortal (sendo semi-divino, filho de uma deusa lunar, Arianrhod), no entanto chega-se a uma circunstância em que é possível matá-lo. O amante da sua mulher mata-o e, ao ser perfurado por uma lança, Lleu converte-se numa águia, e com um grito estremecido, desaparece.

Mais tarde, Gwdion encontra-o numa árvore de onde cai a sua carne putrefacta (uma forte reminiscência do Nigredo da Alquimia). Por meio de três invocações mágicas que demonstram que Gwydion o reconhece, Lleu desce da árvore e converte-se outra vez em homem, ostentando somente pele e ossos. Rapidamente se recompõe e vai vingar-se do seu assassino, matando-o da mesma maneira que este o havia morto, reinando depois com justiça durante muitos anos. O tema explícito que vemos, nesta última parte do conto, é o da morte e ressurreição do Candidato.

 

Epílogo

Esta descrição comentada dos quatro primeiros contos do Mabinogion deixa por si naturalmente muito por dizer pelas limitações de espaço, os nossos escassos conhecimentos e por uma corrupção do texto. Apenas pudemos dar um esboço das suas linhas gerais e algumas noções do seu simbolismo na chave psicológico-espiritual. Por força deixámos de lado a análise de outros aspectos – como sejam a dos deuses siderais ou dos ciclos biológicos da natureza que se manifestam nas estações do ano, e ainda numa chave propriamente humana poderia dar frutos muito interessantes uma análise mais detalhada.

A nível literário, e do que nos dizem os contos, acerca do estilo de vida e da moral dos velhos celtas também não pudemos transmitir ao leitor todo o sentido belo, nobre e humano da obra, deixando esse prazer para aquando da sua leitura.

Apesar de tudo, pensamos que o comentado é suficiente para o propósito deste trabalho pois cremos que com ele fica demonstrado o fundo simbólico e profundo dessa obra que nos vem do longínquo tempo, desses homens misteriosos que foram os druidas. Uma vez mais, tal como no caso dos “contos-de-fadas”, dos mitos, das lendas e das tradições populares, vimos a sombra enigmática e atraente dessa sabedoria iniciática que nos fala do porquê da vida em todos os seus aspectos.

Também, pudemos observar como as verdades primitivas foram revestidas, uma e outra vez, por grossas roupagens do tempo e da fantasia, e como, quase por milagre, têm perdurado através dos séculos, por detrás do véu, para continuar a brilhar na sua prístina pureza, neste caso, tão particular, o Mabinogion.

São, na verdade, “contos para a juventude”.

Julian Scott

 

(1) Llyr = Mar

(2) Bran = Corvo

 

Bibliografia:

The text of the Mabinogion and other Welsh Tales from the Red Book of Hergest. – Edited by John Rhys and J. Gwenogvryn Evans.

The Religion of the Ancient Celts – J. A. MacCullough.

Celtic Mythology – Proinsias MacCana.

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