O Mapa de Piri Reis

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Nova Acrópole

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Um dos enigmas mais fascinantes que podemos encontrar é o chamado mapa de Piri Reis. Este é um dos mais de 210 mapas de todos os mares do mundo que o pirata turco Piri Reis recompilou ao longo da sua vida. Aquele que nos interessa foi feito no ano de 1513 e representa o oceano Atlântico, com as costas de Espanha, África e as Américas do Norte e do Sul. Junto com o resto dos seus mapas, recolhidos num livro chamado Kitabi Bahriye, foi oferecido ao Sultão e não saiu à luz até ao ano de 1929, na altura em que se fazia um inventário dos fundos do Palácio de Topkapi de Istambul.

Está feito em couro de gazela e mede cerca 85 por 60 cm. O estudo deste mapa deixou sem palavras mais de um investigador.

“O mapa representa certamente a Antártida, não a capa de gelo que a cobre, mas a massa continental que subjaz debaixo do gelo”

Segundo contava o próprio Piri Reis, tinha-o feito a partir de mapas do Caribe de Cristóvão Colombo e de outros mapas da época de Alexandre Magno, sem especificar os autores.

O estudo realizado por diversos cartógrafos é surpreendente. Utiliza um sistema de coordenadas exactas que demonstram uma correcta medição da longitude. Se bem que a latitude (distância de qualquer ponto da Terra ao Equador) fosse uma magnitude medida com uma exactidão apreciável desde tempos muito antigos (Eratóstenes de Alexandria usou a diferença de latitude entre Alexandria e o Assuão, quer dizer, a diferença entre a longitude das sombras de um mesmo objecto à mesma hora, para calcular o raio da Terra), a longitude não pôde ser medida com a mesma exactidão até ao século XVIII. Foi com o desenvolvimento de relógios precisos que se estabeleceu o sistema de meridianos a partir do meridiano zero, ou de Greenwich, seguindo as diferenças horárias. Para além disso, o mapa reflecte conhecimentos de trigonometria esférica que não se desenvolveram antes do século XVIII.

O professor Sarton, da Universidade de Harvard, estudando as distâncias no mapa, concluiu que a escala usada foi extraída da medição da circunferência terrestre realizada por Eratóstenes de Alexandria no século III A.C. (cujo erro é mínimo), utilizando como unidade de medida o «estádio» grego, equivalente a 186 m. No seu relatório final assegurou que as distâncias do mapa de Piri Reis são exactas.

Tudo isto é inaudito num mapa do século XVI, pois custa-nos muito assumir tanta perfeição nessa época. Mas, o que é realmente chocante começa a aparecer quando descobrimos assinalada no mapa a cordilheira dos Andes, já que Pizarro não chegou ao Peru antes de 1532 e o mapa foi feito quase vinte anos antes.

Sobre a cordilheira aparece, junto à representação de alguns animais fantásticos, uma figura antropomórfica constituída por uma cabeça barbuda da qual saem os braços e as pernas, mas sem corpo. O curioso é que a sua posição coincide com Tiahuanaco e a personagem poderia representar o deus da famosa Porta do Sol.

Interpreta-se que este deus é Viracocha, deus barbado dos incas (os nativos americanos carecem de barba), que está estreitamente relacionado com os mitos andinos do Dilúvio e com uma origem oceânica dos povoadores americanos.

Esta antecipação cronológica da cartografia da cordilheira, poderia fazer-nos pensar que o mapa é uma falsificação posterior, facto que tranquilizaria as nossas consciências sobre a exactidão dos métodos empregados para a sua realização. No entanto, os cartógrafos que o estudaram, concluíram que é autêntico.

E ainda há mais surpresas.

“Outro detalhe: à altura do Equador

aparecem duas ilhas que hoje não existem… “

Ao observar o extremo inferior da América do Sul, vemos que não aparece o Estreito de Magalhães, mas que a América do Sul continua com a Antártida, por certo, totalmente desconhecida até ao século XVIII, já que foi James Cook, em 1774, quem primeiro atravessou o círculo polar.

Um erro provocado pela ignorância? O autor do mapa inventou a terra que aparece ao sul, que não é realmente a Antártida? Não. O mapa representa certamente a Antártida, não a capa de gelo que a cobre, mas a massa continental que subjaz debaixo do gelo (cuja espessura média cifra-se entre 2200 m e 2600 m).

Há também a assinalar que a cartografia da parte continental não pôde realizar-se na actualidade até poder contar com satélites artificiais e as suas técnicas sofisticadas de observação. Por outro lado, existe realmente uma conexão ou «ponte continental» entre a América do Sul e a Antártida, embora isto só se tenha vindo a saber alguns anos depois da descoberta do mapa no Palácio de Topkapi, à custa de sondagens com sonar dos navios oceanográficos, uma ponte continental que devia ter estado emersa durante a época glaciar e o baixo nível do mar.

Em 1960, o especialista em cartografia Harold Z. Ohlmeyer, ao comparar as costas antárcticas do mapa de 1513 com as recém cartografadas plataformas, teve de concluir que a origem do mapa de Piri Reis devia remontar pelo menos a um período entre 8.000 e 10 000 anos. Mas, mesmo assumindo que realmente houve uma civilização com os conhecimentos científicos e geográficos necessários em tal época, como se poderia ter cartografado a base continental da Antártida precisamente durante uma época glaciar?

A costa Antárctica do sul do Atlântico só poderia ter estado livre de gelo se o eixo de rotação terrestre tivesse estado desviado da sua posição actual. Se o Pólo Norte estivesse desviado em direcção à Gronelândia, como a distribuição dos gelos no Hemisfério Norte parece descrever, então o Pólo Sul devia estar desviado para o Pacífico, em direcção à Austrália, e, a zona de que falamos ficaria fora do círculo polar e poderia aparecer livre de gelo. O Estreito de Magalhães ter-se-ia convertido, neste caso, no equivalente ao emerso Estreito de Bering no Hemisfério Norte.

Outro detalhe: à altura do Equador aparecem duas ilhas que hoje não existem…

Existem outros mapas antigos que poderiam ser interpretados como errados ou anacronicamente exactos ao mostrar a Gronelândia sem gelo, com rios, vales e montanhas (mapa de Zeno, 1380), o Oceano Índico e parte da Austrália (mapa de Jorge Reinel, 1510), a Antártida sem gelo, com rios e montanhas (mapa de Orenteus Finaeus, 1531) ou o continente americano completo (mapa de Adji Ahmed, 1559).

Estamos a interpretar com demasiada generosidade uns mapas muito imaginativos e casualmente próximos à realidade? Não será certo que na mítica Biblioteca de Alexandria, cidade fundada por Alexandre Magno, se guardavam documentos realmente muito antigos, vestígios de uma época mais civilizada, na qual o mundo era um lugar conhecido?

Alguma coisa deve ter-se salvo dos incêndios catastróficos que sofreu este museu do conhecimento do mundo antigo. Ainda que a biblioteca já tivesse sofrido um sério incêndio na época de Júlio César, foram os incêndios intencionais causados pelos cristãos no século IV e por muçulmanos no século VII, fruto do fanatismo e da intolerância, que arrasaram e destruíram totalmente aquela que tinha sido a luz do conhecimento para todo o Ocidente durante séculos. Embora, talvez, não se tenha perdido tudo. Que outra explicação se pode atribuir a este fantástico mapa? A não ser, claro está, que tenham sido astronautas extraterrestres a extraviarem os seus mapas.

 

Ana Díaz Sierra | Miguel Artola Molleman

 

 

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