A Teoria do Caos

O segundo princípio da Termodinâmica fala-nos de uma tendência para a desordem no Cosmos. Se observarmos as estruturas ramificadas de certos organismos, o crescimento expansivo dos neurónios, a estrutura dos cristais de gelo ou dos capilares, as formações costeiras ou os relâmpagos, encontramos uma aparência formal de uma espécie de caos. Estas formações apresentam as estruturas matemáticas chamadas de fractais. A teoria do Caos surge como consequência do estudo dos fenómenos meteorológicos por Lorentz, fenómenos francamente difíceis de predizer. Esta aparente desarmonia é na realidade uma dessas marchas e contramarchas da Natureza na expressão do seu potencial criativo.

Existem leis matemáticas internas, que só atualmente começamos a conhecer e a interpretar, pela sua complexidade e pela grande quantidade de variáveis a introduzir nas equações. Os matemáticos falam-nos de uma espécie de atração que geram uma ordem implícita. É como um coração que bombeia sangue, uma força dentro de uma desordem aparente, numa escala que ultrapassa a mente humana. Esta desordem aparente dá lugar à grande plasticidade da Natureza e à flexibilidade das espécies para adaptar-se ao meio.

A Teoria da Auto-organização

Há ramos científicos que já começaram a falar de finalismo. Segundo eles, o Universo parece atuar como se tudo estivesse pensado antecipadamente, em potência, e contudo não estivessem escrito os milhões de caminhos e formas para aceder a essa finalidade cósmica. Isso explicaria, por exemplo, que os dedos dos tetrápodes que povoaram a terra já se tivessem desenvolvido milhões de anos antes de coloniza-la, quando viviam no mar. Ou o caso do feto humano que se “comporta” como se já soubesse tudo inicialmente e depois “esquecesse” grande parte desse conhecimento infundido à medida que cresce (o feto humano repete a evolução das formas da Natureza: primeiro a célula, depois a colónia, de seguida o pólipo, mais tarde peixe – com aberturas branquiais, de seguida reptil – um único tubo digestivo e mistura sangue arterial com venoso, e finalmente mamífero).

Esta complexidade inteligente está claramente presente na forma do olho. Há uma espécie de gene universal que constitui esse órgão, e as células acatam as suas ordens. É o caso do olho do polvo e do olho humano, tão parecidos morfologicamente e funcionalmente e no entanto presentes em duas espécies totalmente distintas.

Se se extrai um gene do olho do rato e se injeta na mosca do vinagre, pode produzir-se a formação de um olho, não já de rato, mas antes de mosca. As células da mosca reconhecem a ordem para formar um olho, mas interpretam nos seus próprios termos. As perguntas surgem quando os biólogos se questionam acerca da origem deste gene que transmite as ordens.
Estamos pondo em causa nada menos que a teoria da seleção natural (a evolução das espécies pela sua adaptação ao meio e pelas mutações do seu código genético), pelo menos como a única forma que permite aos organismos evoluir, que era o que se acreditava até agora.

Se os tratamentos informáticos, com milhões de variáveis, produzem uma ordem espontânea, (por vezes os vírus informáticos chegam a ter “vida” própria) não ocorrerá talvez algo similar na Natureza?

O Relógio molecular

No citocromo, um órgão indispensável para a respiração molecular, há uma cadeia de aminoácidos situados em diferentes lugares, segundo as espécies animais, e que se expressam em percentagens. Observou-se de maneira precisa que essa percentagem caracteriza as espécies animais e diferencia-as umas das outras. Se estudarmos os animais por ordem de divergência, tomando como ponto de partida um invertebrado ou uma bactéria, podemos construir uma espécie de relógio molecular. Há uma grande exatidão neste relógio, e sobre ele atua a seleção natural. Não há correlação estre a troca genética e o tempo decorrido. O relógio molecular, seja qual for o número de gerações e mutações de uma espécie, mantem-se fixo num determinado valor. É como se este mecanismo fosse regido pelo tempo cósmico e fosse independente dos fenómenos biológicos que os pós-darwinistas consideram fundamentais para a evolução (adaptação ao meio, luta pela sobrevivência, especialização). E ainda mais, se classificarmos as espécies segundo este medidor, veremos que desfilam uma a seguir à outra sem qualquer transição, não há elos perdidos.

É como se no reino vegetal ou animal se pusesse em marcha num programa fixado por antecipação que incluísse as alterações que pudessem afetá-lo durante milhões de anos, alterações independentes do meio, ao qual o animal ou vegetal se adapta, melhor ou pior, e só se será afetado de maneira superficial pelas mutações.

Segundo estas teorias recentes havia na realidade dois programas evolutivos: o da hélice da cadeia de ADN, a curto prazo, que reage perante as mudanças quotidianas, e outro a muito longo prazo, situado no citoplasma, do qual advém a autêntica evolução das espécies.

O registo fóssil da terra tem oferecido aos paleontólogos valiosas pistas sobre a evolução das espécies. Nos estratos geológicos do Câmbrico (há mais de 500 milhões de anos) aparecem representantes dos organismos desta era que apresentam as suas formas diferenciadas já desde a sua aparição inicial. Para além disso, estão tão diferenciados que nenhum se pode considerar intermediário em relação a outros grupos. O problema agrava-se quando se observa que nos estratos precedentes não há nada. Poderíamos pensar que é um problema que afeta os invertebrados, mas o mesmo ocorre com as plantas que aparecem bruscamente no Cretácico, não havendo elos nos estratos anteriores. No Paleozoico os invertebrados aparecem diferenciados na quase totalidade dos grupos maiores que conhecemos hoje: cefalópodes, bivalves, gasterópodes. É como se as espécies quando aparecem trouxessem uma memória sintética das qualidades a desenvolver com o tempo para a evolução.

Bioformação e evolução a saltos

Os últimos avanços já não contemplam a possibilidade de uma evolução linear, de uma única célula que possa ser considerada como o antepassado comum, senão um conglomerado de células primitivas que evoluíram em uníssono, repletas de ligações entre elas, e que deram lugar a três linhas de descendência, que são as bactérias, as arqueobactérias e os organismos eucariontes (células com núcleo). Rejeita-se uma continuidade nas espécies regidas pelas mutações que respondem à seleção natural, ou adaptação ao meio (esta considera-se efetiva a curto prazo, mas não a longo prazo). Apoia-se nos registos fósseis como os do lago Turkana no Quénia, onde estratos perfeitos mostram mudanças drásticas de uma espécie para outra de moluscos sem a existência de elos intermédios.

Alegam para isso uma série de incógnitas: onde está a forma representativa que mostre as mudanças ósseas e musculares na cintura pélvica e que conduzem ao bipedismo e à marcha vertical? Porque é que o Homo erectus foi deposto pelo sapiens? Onde está esse elo se chegaram a conviver no tempo?

Pelos anos 50 difundiu-se a ideia de um caldo primordial como a origem biológica da vida sobre a Terra. Stanley Miller simulou, faz já 50 anos, uma possível versão da infância do planeta. Miller misturou as moléculas que pensava estarem na origem (amoníaco, metano e hidrogénio), submeteu-as a descargas elétricas que simulavam o aparato dos raios e relâmpagos dos primeiros milénios da terra, e fê-las atravessar por um balão com água. O resultado foi a formação de aminoácidos, os tijolos que constituem as proteínas. Mas, hoje parece demonstrado que o hidrogénio não era tão abundante, e que havia CO2, o que reduziria consideravelmente a obtenção de aminoácidos. Além de que, como disse recentemente o próprio Stanley Miller: “ Passaram 40 anos e não há maneira de criar vida, ou seja proteínas, nem há forma de associar os aminoácidos mediante enzimas, pois não aparecem as enzimas”.

A atual maquete de formação de moléculas de vida provavelmente não corresponde com a realidade, porque quem sabe realmente como era a Terra naqueles tempos? Alguns falam de um mundo gelado, outros da invasão de micro-organismos vindos do exterior. Há quem tente criar vida a partir do ARN (o executor das ordens do ADN), que se crê que flutuava no mar, multiplicava-se e mutava-se. Relaciona-se também a origem da vida vegetal e animal com o reino mineral, onde se diz que se camuflaram esses princípios ativos básicos na forma de organismos muito primitivos, como as arqueobactérias, os primeiros colonizadores do planeta Terra. Mas o certo é que não se sintetizou nenhuma enzima em laboratório. Se ainda não conseguimos sintetizar nenhuma proteína em laboratório, como fazê-lo com as mais de 200.000 proteínas distintas das nossas células? A probabilidade matemática de que se crie aleatoriamente é um número praticamente inimaginável, algo assim como tirar 50 000 seis seguidos com um dado não viciado.

Qual é a finalidade da Vida, o Plano secreto da Natureza? Uma grande pergunta que terá evidentemente uma grande resposta. Talvez tenhamos que ir descobrindo-a no Universo em que vivemos, porque possivelmente existem tantas respostas como habitantes. O curioso é que a Vida atua como uma grande energia dinâmica que impulsiona a Natureza toda a evoluir. O ser humano forma parte da Natureza e portanto vê-se imerso nessa corrente. É mais fácil nadar a favor das ondas da Vida que enfrentá-las. Tentemos aprender esta bela lição.

 

José Escorihuela

In revista Esfinge,n.º21, Fevereiro 2002