O Renascimento

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

O Renascimento como época consititui o período caracterizado por um ressurgimento do interesse no estudo e valores do mundo clássico imediatamente posterior à Idade Média europeia. Foi precisamente um estudioso renascentista, Flávio Biondo (1392-1463) o primeiro a usar o termo medium aevum para descrever o período compreendido entre a queda do Império Romano no século V e o ressurgimento das artes nos seu tempo.

Para Biondo e os seus contemporâneos a Idade Média representava um milénio de decadência onde todos os avanços e conhecimentos da era precedente haviam sido esquecidos ou simplesmente postos de lado e, consequentemente, ignorados. Uma era de obscurantismo e ignorância.

“Da mestria da linguagem passava-se para a obtenção da eloquência”

Não obstante, há que mencionar que durante a Idade Média existiram tentativas de renovação muito menos felizes como nos tempos de Carlos Magno, coroado Imperador em 800 d.C., em que se autorizou a cópia e a disseminação de textos clássicos, tendo como resultado que o produto dos scriptoria (quartos ou instalações onde se realizavam as cópias) na letra assim chamada minúscula carolíngia, foi considerada depois como o autêntico estilo romano de escrita e consequentemente imitado até aos nossos dias. Os seus logros não passaram, no entanto, da preservação de textos de manuscritos latinos em mosteiros e bibliotecas das catedrais da Europa.

A outra tentativa ocorreu no século XII através do mundo árabe como resultado das cruzadas e do contacto com a civilização islâmica de Espanha e do sul de Itália. Os clérigos e estudiosos da Europa obtiveram cópias de trabalhos científicos e filosóficos da antiga Grécia, de entre os quais Aristóteles, em particular, teve um impacto tremendo, sobretudo através de Alberto Magno (1206-80) e Tomás de Aquino (1125-74) que adaptaram as suas ideias à visão cristã. O mais importante resultado deste movimento foi a fundação de universidades, nomeadamente em Bolonha, Pádua, Paris e Oxford. A lei romana, a poesia latina e a ciência grega, incluíndo quase todo o corpus da obra de Aristóteles que conhecemos, reapareceram. O ênfase dado ao estudo da lógica aristotélica nestas universidades com a exclusão praticamente de tudo o resto daria lugar à reacção dos séculos XIV e XV e ao surgimento do Renascimento.

A ÉPOCA

Se bem que o redescobrimento do mundo e do homem seria o aspecto mais destacado do Renascimento, como é mencionado por Jules Michelet e Jacob Burckhardt, como época constitui um período multifacetado, pleno de convulsões e radicais transformações das certezas do mundo medieval. O fortalecimento da vida urbana, as empresas comerciais de tipo privado, a Banca, a formação dos Estados, a investigação sistemática do mundo físico, os estudos clássicos e a literatura vernucular, são algumas das suas características. As cidades-estado e os Principados regionais e nacionais suplantam a hegemonia do Papado e do Império e destroem muitas jurisdições feudais locais que cobriam a Europa. O desenvolvimento das línguas nacionais é outro importantíssimo factor a considerar.

“O Renascimento como época constitui o período caracterizado por um ressurgimento do interesse no estudo e valores do mundo clássico imediatamente posterior à Idade Média europeia”

Itália, e especialmente a região Norte desta, constitui o coração geográfico do Renascimento. Enquanto no resto da Europa, Inglaterra e França estavam submersos na Guerra dos Cem Anos, para além de períodos de guerra civil, tanto o Sacro Império como as monarquias do Este da Europa também estavam convulsionadas por guerras de todo o tipo. Na Península Ibérica as guerras de reconquista contra os reinos árabes do Sul não o foram menos. Tudo isto fez com que alguns chamassem aos séculos XIV e XV “o período da anarquia feudal”.

O Norte de Itália, pelo seu lado, diferenciava-se do resto da Europa em três aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, o amplo testemunho da civilização clássica constituído pelas ruínas romanas que dominavam a paisagem. Indubitáveis fontes de inspiração como o Panteão em Roma para o domo da catedral de Florença por Brunelleschi (1377-1446), ou os bustos funerários romanos e a estátua equestre de Marco Aurélio em Roma para o Gattamelata (1453) de Donatello, a primeira estátua equestre de bronze desde os tempos romanos.

Em segundo lugar, o Norte de Itália era uma das regiões mais ricas da Europa. Génova e Veneza, ambas com populações de aproximadamente 100 000 habitantes em 1400, controlavam a maior parte do comércio mediterrânico com o Levante; Florença e Milão, com populações de 55 000 e 90 000 respectivamente, eram importantes centros de manufactura e de distribuição. Nestas cidades havia uma grande classe média, enraízada e cada vez mais instruída. Muitos nobres não viam como uma afronta ao seu estatuto o facto de se mudarem para as cidades e fazerem parte da política e da vida urbanas.

“Queira Deus que o exemplo deste excepcional momento histórico nos sirva de inspiração para sermos capazes de encontrar e criar bases de um novo Renascimento para o bem da Humanidade”

Em terceiro lugar, o Norte de Itália diferia do resto da Europa numa forma única e fundamental, estava dividido em cidades-estado. Estas cidades tinham muito em comum com as cidades da Grécia e Roma antigas, não só as populações eram de número semelhante – entre 25 000 e 100 000 – mas também partilhavam o orgulho cívico e o sentido de identidade que os italianos renascentistas chamavam campanilismo, o amor pelo sino da torre da Igreja do seu lugar de nascimento (campanile). A agitação e as atribulações da vida da cidade descrita pelo escritor romano Juvenal, aplicavam-se perfeitamente aos italianos dos séculos XIV e XV, assim como a convição de que viver numa cidade era a forma mais civilizada de existência.

AS HUMANIDADES

Francesco Petrarca foi o primeiro a desenvolver um programa de estudos com orientações clássicas. O seu foco foi a linguagem, para entender a antiguidade clássica nos seus próprios termos devia estudar-se as línguas da antiguidade como os antigos as usaram e não para transmitir conceitos modernos. Daí que a gramática, que incluía a leitura e a imitação rigorosa dos autores antigos desde o ponto de vista linguístico, fosse a base do seu programa.

Da mestria da linguagem passava-se para a obtenção da eloquência. Para Petraca, como para Cícero, a eloquência não era simplesmente a posse de um estilo elegante, o poder de persuasão, mas sim a união da elegância e do poder com a virtude. Portanto, não pode haver verdadeira eloquência sem sabedoria que a sustente.

Esta união feita por Petrarca da retórica com a filosofia, modelada no ideal clássico de eloquência, ditou aos humanistas uma dignidade intelectual e um ethos moral de que careciam os ditadores e classicistas medievais. Também conduziu a um programa de estudos – studia humanitatis – através do qual se poderia alcançar este ideal. Insistiu-se no estudo dos autores clássicos em versão original, rejeitando os livros de textos medievais, assim como os compêndios das suas escolas.

O HUMANISMO

O Humanismo como corrente tinha importantes características. Em primeiro lugar, adoptou a natureza humana, com as suas diversas manifestações e alcances, como sujeito de estudo. Em segundo lugar, enfatizou a unidade e compatibilidade da verdade que se encontra em toda a escola filosófica e teológica, através do sincretismo. Em terceiro lugar, deu grande importância à dignidade humana. No lugar do ideal medieval de uma vida de penitência como a mais alta e nobre forma de actividade humana, os humanistas puseram o ênfase na luta da criação e no controle da natureza. Finalmente o Humanismo buscava recuperar o espírito e a sabedoria humanos; nessa tentativa de recuperação os humanistas ajudaram na criação da nova visão espiritual e intelectual, assim como no desenvolvimento de um novo conjunto de conhecimentos.

O seu efeito foi ajudar o homem a libertar-se dos entraves mentais da ortodoxia religiosa e inspirar uma nova confiança nas possibilidades da criação e do pensamento humanos.

Os humanistas buscaram e copiaram trabalhos dos autores da antiguidade, traduziram do latim e do grego e escreveram comentários que reflectiam a amplitude da sua aprendizagem e os novos paradigmas dos seus pontos de vista. A autoridade de Aristóteles permaneceu proeminente, especialmente na lógica e física, mas os humanistas tiveram um papel fundamental na reaparecimento de cientistas e de escolas filosóficas gregas como o Estoicismo, o Cepticismo, o Neoplatonismo e mesmo a filosofia Hermética e doutrinas Gnósticas das escolas de Alexandria.

No entanto, apesar da diversidade dos seus esforços intelectuais e escolásticos os humanistas preferiam, como os antigos romanos, a Filosofia Moral e a Metafísica. A sua fé nos benefícios morais da poesia e da retórica inspirou gerações de académicos e educadores.

“Adoptou a natureza humana, com as suas diversas manifestações e alcances, como sujeito de estudo”

Os humanistas foram seculares no sentido em que o seu interesse ultrapassava os “temas sagrados” estando na linguagem, literatura, política e história. Foram acusados de arruinar a moral e fé cristãs, do que se defendiam afirmando que uma sólida base nos clássicos era a melhor preparação para a vida cristã.

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

A visão medieval do Cosmos era de uma série de esferas concêntricas em movimento, as mais distantes levavam as estrelas no seu curso diário. No centro encontrava-se a Terra, pesada e estática. O movimento era perfeitamente circular, como nos céus, ou irregular e naturalmente de queda, como na Terra.

A Terra tinha três grandes partes – Europa, Ásia e África – e as zonas do Sul eram desconhecidas e inabitáveis.

A mudança e a perda de autoridade de Aristóteles nesta matéria foi gradual e muito lenta. O Humanismo contribuiu com originais e traduções de trabalhos científicos da antiga Grécia, que para além de apresentarem teorias alternativas às de Ptolomeu e Aristóteles, incrementaram grandemente o fundo de conhecimentos na física, astronomia, medicina, botânica e outras disciplinas.

Antigos ensinamentos filosóficos de diferentes escolas contribuiram para enriquecer as formas com que os cientistas concebiam os fenómenos. O Pitagorismo por exemplo, com a sua visão de um universo geometricamente harmonioso ajudou a formar as ideias de Copérnico. Filósofos renascentistas, como por exemplo Jacopo Zabarella, analisaram e formularam as regras dos métodos dedutivos e indutivos com que os cientistas trabalhavam.

Nas matemáticas é talvez onde o Renascimento dá o seu maior contributo ao advento da ciência moderna. Os humanistas incluiram aritmética e geometria no curriculum das artes liberais. Alguns artistas levaram adiante a geometrização do espaço no seu trabalho sobre a perspectiva. Leonardo da Vinci percebeu, por sua vez, que o mundo estava regido pelo “número”. O interesse pela álgebra chegou realmente a ser grande nas univesidades renascentistas, e produziu teóricos matemáticos de primeira linha como Niccolo Tartaglia e Girolamo Cardano. No entanto, para alguns autores, a maior contribuição dos académicos renascentistas para as matemáticas foi a tradução e publicação de trabalhos previamente desconhecidos de Arquimedes.

No campo da tecnologia o avanço mais importante foi, sem dúvida, o aparecimento da imprensa de tipos móveis de metal, na Alemanha, em meados do século XV.

Os antecedentes a este surgimento foi a chegada ao Ocidente da impressão em blocos de madeira a partir da China, entre 1250 e 1350, o fabrico de papel, também desde a China através dos árabes em Espanha do século XII, assim como a técnica flamenca de pintura a óleo foi a origem da tinta utilizada na imprensa.

Johannes Gutenberg e os seus contemporâneos Johann Fust e Peter Schoffer deram os passos finais moldando tipos metálicos e usando-os numa prensa de madeira.

O invento expandiu-se rapidamente, chegando a Itália em 1467, à Hungria e Polónia pouco depois de 1470 e à Escandinávia em 1483. Em 1500 as imprensas da Europa haviam produzido uns seis milhões de livros o que nos dá uma ideia do seu impacto e importância.

“No campo da tecnologia o avanço mais importante foi, sem dúvida, o aparecimento da imprensa de tipos móveis de metal, na Alemanha, em meados do século XV”

As guerras, pelo seu lado, constituiram um catalizador importante para as mudanças práticas e estimularam novas perguntas teóricas. Com a generalização do uso da artilharia, por exemplo, perguntas sobre o movimento dos corpos no espaço tornaram-se insistentes, e o seu cálculo matemático tomou uma importância crítica.

A manufactura de armas estimulou a metalurgia e a fortificação. A reforma das unidades de medida, assim como o planeamento urbano relacionaram-se por sua vez com problemas de geometria.

O uso de óleo na pintura foi, por sua vez, introduzido no Norte de Itália por Antonello da Messina e adoptado rapidamente pelos pintores venezianos que não podiam utilizar o fresco devido à humidade do seu clima.

CONCLUSÃO

O Renascimento como o período histórico unificado termina com a queda e saque de Roma em 1527 pelas tropas imperiais, mas continua como fenómeno bastante depois desta data. A imagem mais forte que temos, e que provavelmente teremos sempre do Renascimento, estará relacionada com a sua arte cuja dimensão e vastíssima produção escapa ao alcance deste trabalho. Diremos somente que o período assim chamado de Alto Renascimento artístico, dura 35 anos de 1490 a 1527, e gira em torno de três figuras fundamentais. Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564) e Rafael Sanzio (1483-1520). Cada um dos três representa um importante aspecto do período: Leonardo constituiu a quinta-essência do homem do Renascimento, o génio solitário a quem nenhum ramo do saber era alheio; Michelangelo emanou poder criativo, concebendo vastos projectos que tomaram inspiração no corpo humano como veículo fundamental da expressão emocional; Rafael por ser lado criou trabalhos que expressaram perfeitamente o espírito clássico, formoso, harmonioso e sereno.

Queira Deus que o exemplo deste excepcional momento histórico nos sirva de inspiração para sermos capazes de encontrar e criar bases de um novo Renascimento para o bem da Humanidade.

 

Alfredo Aguilar

Não há plugins para instalar ou ativar. <a href=" %1$s"title="Voltar para o Painel">Voltar para o Painel</a>

Go to Top