Olha, Hipátia, vocês, na vossa língua chamam Pilões, ou seja, «grande porta» a esta estrutura arquitectónica. E é isso, claro. Mas nós no Egipto chamamos Akhet, que significa «horizonte». Atravessar esta porta é ir mais além do horizonte para penetrar no sagrado. Quem quiser penetrar no oculto e misterioso deve ir mais além do seu próprio horizonte de ideias preconcebidas, mais além do horizonte da sua percepção limitada pelos sentidos físicos, deve penetrar num caminho invisível que só a alma pode percorrer. Por isso, este muro e esta porta separam o aparente do secreto, é um símbolo de que a alma deve despojar-se das suas ilusões e de tudo que se aderiu a ela no seu caminho de vida para penetrar na sua verdadeira dimensão nua, ou revestida somente com a túnica branca da pureza, ou seja, da própria luz que irradia.

“Quem quiser penetrar no oculto e misterioso deve ir mais além do seu próprio horizonte de ideias preconcebidas, mais além do horizonte da sua percepção limitada pelos sentidos físicos, deve penetrar num caminho invisível que só a alma pode percorrer”

O símbolo egípcio, continuou o jovem sacerdote que a acompanhava, deste horizonte que este pilão representa, é um Sol flanqueado por duas montanhas e completa-se com os dois leões que aqui vês, gerando o hieróglifo Akher. São o Ontem e o Amanhã entre os quais se eleva a corrente de luz e de vida do Hoje, do presente, imagem móvel da Eternidade, segundo ensinava o divino Platão. Somente vivenciando intensamente o Hoje se pode penetrar no sagrado. As recordações e esperanças são úteis e necessárias, mas o caminho da Alma atravessa sempre como uma flecha o Hoje se quer entrar no Templo ou dimensão na qual os lótus jamais fecham as suas pétalas e nada é agitado pelos ventos da mudança. Não te agarres nunca ao que cai e morre, pois cairás ou morrerás com isso. Também não queiras sustentar-te suspensa somente por um futuro que ainda não existe pois se os teus pés deixam de se apoiar firmemente na terra a tua alma entrará nos sonhos de mil portas que conduzem a outros tantos labirintos que arrebatarão para sempre a tua sensatez.

Não olhes a tua sombra sob os teus pés , continuou a discursar o sacerdote, o seu mestre nesse momento, caminha sobre ela. Não queiras voar como Ícaro com asas postiças quando ainda não é o momento. Olha o horizonte. Dele, como de um Sol perpétuo, derrama-se a vida infinita sem nome nem forma que assume nomes e formas na medida em que «morre» e cai no passado. A salvação não pode chegar nem desde cima nem desde baixo, só desde o coração.

 

Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”, de José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole