O Simbolismo da Arte Rupestre

Autor

Nova Acrópole

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“A morte é fecundidade”

Edgar Morin

André Leroi-Gourhan é o pré-historiador contemporâneo que mais marcou a sua geração, particularmente graças aos seus trabalhos sobre a arte pré-histórica. Mas, sabe-se lá porquê, nunca foi além das suas hipóteses iniciais, escudando-se atrás de pretensos valores científicos. Foi ele quem pôs em evidencia a bipolaridade das figurações pré-históricas, com o casal animal macho – animal fêmea. Conhecia as práticas mágicas humanas através dos testemunhos etnográficos e pré-históricos. Mas nunca acreditou que os símbolos pudessem ser intemporais e pertencerem tanto ao homem de há 20.000 anos atrás como ao do século XX.

Actualmente há que ultrapassar a oposição macho-fêmea e restituir na sua totalidade a simbólica da gruta ornamentada. Mesmo se o conjunto das grutas do Sudoeste apenas representa, no tempo e no espaço, alguns pontos num grande vazio, a sua sacralidade é, indiscutivelmente, uma realidade.

A gruta ou a caverna é o lugar esotérico por excelência, aquele onde têm lugar as iniciações (adolescência-fecundidade-chamanismo), onde se desenrolam os ritos ligados ao culto. É também um receptáculo da energia telúrica, um labirinto, uma matriz e o ponto privilegiado da passagem da terra ao céu. Enfim, é um lugar fúnebre, mas não, pelo menos no início, um lugar de sepulturas.

Penetremos na gruta. Algumas têm grandes entradas, outras têm várias, outras só comunicam com o nosso mundo através de passagens estreitas. Os homens pré-históricos percorreram-nas e deixaram nelas a marca da sua passagem.

 

A Pintura na Arte Pré-histórica

As pinturas e gravuras pré-históricas representam animais e signos. O seu agrupamento obedece a leis que foram postas em evidência por A. Leroi-Gourhan. Para além da simbólica própria da gruta, existe a das cores. Só se testemunha a presença de três cores: o preto, o vermelho e o branco. Algumas figuras são pretas, da cor da morte, das trevas primordiais, da passividade, do nada, da renuncia, da involução. Outras são vermelhas, como o sangue, o fogo sagrado e secreto, a vida, a evolução. Enfim, as paredes e algumas representações são brancas, como a pureza, a neutralidade, a culminação.

 

A Simbólica dos Animais

Na entrada da gruta estão representados quer um veado quer uma mão. A mão é a morte: no entanto, ela vê e fala. Se penetramos na gruta é para morrer. Mas o veado é o símbolo do renascimento. A função da caverna é dupla e esse facto é assinalado logo à entrada.

Mais adiante surgem outros animais. Nas zonas periféricas encontram-se, por ordem decrescente, a rena e o veado; a cabra, a corça, e depois o urso e o homem. No centro, a associação bisonte-cavalo ou auroque-cavalo, é o tema dominante. Mas também se vêem mamutes, mãos e diversos signos. A rena, o veado, o cavalo têm um simbolismo próximo: todos eles são animais psicopómpicos encarregados de guiar a alma ou o candidato à iniciação e, desse modo, são auxiliares do chamane. Um dos três ou os três em conjunto estão, alias, presentes em cada passagem para uma nova sala.

A cabra, como mais tarde o bode, é o fogo sacrificial, o animal imolado em sacrifício. Representa o candidato que vai morrer para esta vida e renascer numa outra. A corça é a sabedoria. O urso é o antepassado mítico do homem, presente em algumas grutas, como a de Pech-Merle. Enfim, o homem figurado não é um homem qualquer. Trata-se de figuras “animalizadas” revestidas de uma mascara de urso, ou do próprio chamane. São intercessores, bodes expiatórios. Os antepassados, os espíritos dos antepassados, como o chamane, desempenham o mesmo papel que o cavalo ou o veado.

Quanto ao centro, está ocupado prioritariamente pelo bisonte, a vaca ou o auroque. São os três aspectos do simbolismo feminino ou lunar: a fecundidade do ventre materno. São os suportes do mundo. O cavalo representa aqui as trevas da magia que conduz à iniciação. Quanto ao mamute, sendo uma raça em vias de extinção, estimulou a imaginação dos homens pré-históricos que fizeram dele a imagem da imutabilidade, da eternidade. Por fim, as mãos, símbolos do poder, da manifestação, e os signos masculinos como a flecha ou femininos como o triângulo com a ponta voltada para baixo testemunham que a caverna é simultaneamente o lugar do culto da Terra-Mãe e da fecundidade e também da iniciação.

No fundo da gruta e em certas passagens surge o felino, “o homem-feiticeiro”, o urso e o veado. O leão das cavernas também é um antepassado mítico do homem. Faz parte dos intercessores que conduzem ao renascimento, à energia cósmica, ao dia. É o único animal diurno representado e se está bem lá no fundo é porque o termo da caverna simboliza a saída para a vida, para o dia, após a iniciação. O dia devora a noite e a noite devora o dia. Após um ciclo vem um novo ciclo.

Há outros animais presentes, mas mais raros. É o caso do javali, animal primordial portador da ciência sagrada; o peixe, símbolo do nascimento e da fecundidade; o rinoceronte, ligado à virilidade; o pássaro, que é um intermediário entre a terra e o céu (como o chamane) e que representa também os estados superiores do Ser, “a alma” dos homens. Enfim, a serpente é um dos arquétipos mais difíceis de interpretar. É um ponto, uma linha ou uma circunferência, o velho deus, o ancião do mundo, mas também as fauces, a vulva.

Nalgumas grutas a mulher está representada sob a forma de “mulher-bisonte”, associada ao culto da fecundidade. Há que recordar ainda as “Vénus” pré-históricas, algumas das quais estão representadas com uma mão sobre a púbis e a outra segurando um corno (cornucópia) de bisonte. Também há os “fantasmas”, espécies de homens com cabeça de pássaro que são as almas dos antepassados.

A Simbólica dos Signos

Passemos agora aos signos e às outras representações simbólicas. Temos a mão de que já falamos; árvores, eixos do mundo, permitindo a comunicação entre os três mundos, subterrâneo, terrestre e cósmico; a escada que também constitui um laço entre a terra e o céu, uma imagem de valorização e de ascensão. A flecha representa a penetração, a abertura, o masculino, mas também a superação das condições normais; o seu contrário, em forma de forquilha, é passivo e feminino. O ternário, criação e multiplicação está presente no triangulo, cuja ponta voltada para baixo é feminina, e voltada para cima é masculina. Os signos em forma de flecha e de forquilha têm o mesmo valor simbólico. Ao quadrado corresponde o universo criado, os elementos, o espaço-tempo. O pentagrama é a dimensão humana, a manifestação, a morte, a realização. O sete significa o retorno à unidade.

Os círculos, que estão entre as mais antigas figurações, evocam a ausência de distinção, a “matéria-prima”, mas também um limite mágico. Enfim, a espiral tem a ver com os ciclos de involução-evolução.

Ao fundo está o chamane, com o seu bastão feito de um fragmento de haste de cervídeo. Representa o eixo do mundo, o poder, a clarividência, a magia. Toca tambor para despertar a vibração primordial que fará nascer a vida. Usa uma vestimenta feita de pele de cavalo e uma mascara com galhos de cervídeo. Tem serpentes à volta do corpo e está protegido por um amuleto redondo. Debate-se com o bisonte da fecundidade.

Não é o chamane quem quer. Não se sai impune do labirinto da caverna, do ventre da mãe, para viver na luz.

 

Myriam Philibert

In revista Nova Acrópole nº 61

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