A Terra ergue-se sobre o horizonte lunar. Dois homens, pela primeira vez nos anais da história, contemplam do outro lado do céu o planeta mãe.
Esta fantástica expedição da epopeia tecnológica abre ao homem moderno as portas do céu, transformando o sonho ancestral da intercomunicação dos mundos numa realidade tangível. E eis o espírito humano a bordo dessas naves espaciais, transportado para um universos que até então fora do domínio exclusivo da metafísica. A atracção lunar é uma obsessão que se perde no tempo. O homem, desde sempre, venerou o luminar nocturno como um segundo sol. A importância das influências lunares na superfície terrestre é, hoje, uma realidade comprovada pelos factos, mas isso ainda não nos revela o porquê dessas estranhas afinidades simpáticas com o nosso planeta. A influência das marés e das cheias, a estreita relação entre o ciclo lunar e o ciclo genético e pré-natal do embrião são ainda inexplicáveis. Ainda hoje, os diversos fenómenos positivos e negativos da fauna e da flora durante certas fases cíclicas da Lua servem para elaborar o calendário agrícola (tais como as vindimas, as sementeiras e as colheitas). A explicação deste fenómeno permanece oculta e, geralmente, vemo-lo como um estranho tabu arcaico ainda não emancipado.

A Lua é a sombra do Sol, ou seja, o seu espelho nocturno. Ela recebe e retransmite as partículas solares segundo um ciclo de 28 dias que permite elaborar um ciclo curto dividido em quatro fases: quarto crescente, lua cheia, quarto minguante e lua nova. Estas fases têm influência no equilíbrio de determinados processos orgânicos do nosso planeta directamente ligados ao elemento «aquático». Assim a Lua torna-se, o agente moderador da actividade solar, agente passivo ou conservador, enquanto o Sol é o agente activo e acelerador. Tal como o Yin-yang chinês, o Sol (yang) exalta a Lua (yin) retém. A harmonia destes opostos contribui para o equilíbrio planetário ao demarcar todos os ciclos de vida e de morte da natureza manifestada, incluindo os quatro ciclos do homem: infância, adolescência, maturidade e velhice.

A Lua é, também, um elemento significativo da evolução psicológica do homem como imagem do inconsciente: está relacionada com a noite da psique, o sonho, a assimilação interna dos factos externos fomentados pelo apelo do astro diurno. O sol, por seu lado, é o símbolo da consciência dispersa que irá reconstituir a sua homogeneidade no seio da obscuridade interna. Renascer como sol da manha significa, na linguagem dos mistérios, renascer de si próprio. Por isso, o mystae (discípulo) devia ocultar a luz exterior para reconstituir a luz interior.

Como espelho do astro brilhante, a Lua intercepta a sua sombra e esconde-a dentro de si. A cosmogonia egípcia relata-nos este facto através do conhecido mito de Osíris: o deus Seth mede a sombra do Sol, Osíris, e encerra-o num sarcófago. Este mito, profundamente alegórico, reflecte os grandes ciclos da evolução humana. Por vezes a luz espiritual é ocultada (ciclo de trevas e ignorância) e outras vezes é manifestada (ciclo de luz e conhecimento). O mito egípcio simboliza, numa outra chave de interpretação, a assimilação da inteligência pelo seu reflector, o ego humano ou razão: a visão racional capta os diversos efeitos da manifestação ilusória (mundo concreto) a fim de extrair a causa inteligível, motor dos factos e dos seus encadeamentos.

O cristianismo refere-se ao mesmo processo místico no seu louvor a Maria como Rainha do Céu (Lunus):
«Tu vestis solem et te sol vestit».

Na sua relação com Maria/Lunus, o Sol é o agente activo da evolução espiritual ou Cristo encarnado no corpo do homem: Jesus. A descida do Espírito na Matéria (Maria, Maya, Matriz Primordial, Lunus) é figurada no crescente lunar ou na barca que veicula a luz solar.
Os orientais viam no astro lunar um elo entre a esfera material e a esfera subliminar que se encontra para além dessa barreira planetária.
Os atributos lunares foram amplamente divulgados na antiguidade pelo que citaremos aqui algumas características do seu bestiário fantástico:

– A coruja é o animal votivo dos gregos que personifica a visão racional e reflecte a inteligência que luta contra a ignorância;
– A gata ou bastet para os egípcios é o símbolo da visão penetrante. O gato está ligado às forças psíquicas e à captação dos fenómenos invisíveis. Os seus olhos dilatam-se à noite e aumentam a sua capacidade de percepção. É o guardião dos poderes para psicológicos.

Do ponto de vista biológico, a Lua reflecte a natureza instintiva. Para os povos arcaicos, o seu símbolo é a raposa, o lobo, o chacal, todos eles ligados ao seu aspecto negativo (destruidor da matéria). Pelo contrário, o coelho, símbolo de procriação e fertilidade, representa o seu aspecto benéfico.
No campo espiritual, o emblema da Lua (Isis-Hathor para os egípcios) é a barca: a que veicula a inteligência divina, Ra o sol invisível. A Lua, na sua triplicidade, encarna os três princípios da existência: nascimento, vida e morte (Lunus, Artemisa e Hecate). Nada morre, mas tudo se transforma. A compreensão deste tríplice aspecto lunar permite ao homem vencer a ilusão da realidade existencial. Ainda hoje se emprega o adjectivo lunático para personificar tudo o que é instável, inconstante e efémero.

Poder-nos-íamos interrogar sobre a natureza do nosso satélite lunar: estará ele morto ou, pelo contrário, será a sombra de algo que foi e que continuará a ser eternamente?
A Lua plana como um fantasma à volta do «corpo» terrestre, tal uma mãe em redor do seu filho. Esta imagem recorda-nos alguns rituais das terras africanas onde o recém-nascido é exposto ao luminar nocturno em sinal de gratidão e de consagração.
A Lua é a memória ancestral da natureza manifestada, dos seus ciclos de vida e morte. Descobrir, através desta aparência, o eterno devir da existência significa desvelar a face oculta da Lua.
A lua no homem

No homem, a Lua representa a psique ou alma. A alma é o grande centro de reciclagem das energias recebidas do Sol e desgastadas pelo corpo (Terra). Durante o dia, as energias utilizadas pelo homem são o alimento das suas necessidades vitais, psíquicas e mentais. A força anímica desta corrente de energias de vida é conhecida em psicologia como a libido (impulsos ou desejos de vida). Tudo aquilo que não produz consciência é reabsorvido pela psique, a qual, durante a noite, descendo ao inconsciente, vela pela boa reconstituição do organismo através dos sonhos – elementos fundamentais para o equilíbrio do homem. Neste âmbito, a psique pode ser comparada à Lua que vela sobre a terra, reflectindo, como um espelho interior, imagens do Ego superior (supra consciente) e imagens do Ego inferior (infra consciente). O facto de se considerar a alma como um elo entre o Ser (Individuo) e o parecer (personalidade, máscara), permite-nos compreender a razão pela qual o conflito no homem tem sempre um suporte psíquico, uma vez que a memória ancestral da humanidade – no seu todo e no particular – está ainda mais próxima do seu passado animal (mundo instintivo) do que do seu futuro supra humano (mundo racional/intuitivo). Presentemente podemos dizer que o homem é o estado intermédio entre o animal e o anjo e que a sua psique ora reflecte o lado inferior (matéria), ora o lado superior (espírito). O conhecimento interior elabora normas de conduta que orientam o desejo de viver na procura de um bem transcendente que liberte o ego das dependências dos prazeres, pois a experiência mil vezes repetida da dor (ausência) e dos prazeres (saciedade) gravou na memória a consciência daquilo que deverá ser o justo comportamento. Toda a lei moral é um reflexo da lei universal (Dharma, no Oriente; Diké ou Justiça no Ocidente). Tomamos contacto com esta lei através do conhecimento do erro e das suas consequências negativas, sejam elas a nível físico (doença), psíquico (sofrimento), mental (ignorância).

O desejo opta pela satisfação imediata sem pensar nas consequências negativas que ela própria provoca no futuro, ao escolher o particular (egoísmo) em prejuízo do colectivo (altruísmo). Num mundo em que todas as partes estão interligadas, podemos considerar a harmonia como a Lei de Deus e as simpatias e antipatias como reacções ora positivas ora negativas e essa mesma Lei. No Oriente, o Karma, – lei de causa e efeito – é sempre entendido como a lei que restabelece o equilíbrio. Assim, o conteúdo do nosso imaginário lunar (inconsciente) necessita de sair para a luz do dia (tornar-se objectivo), a fim de criar uma nova substancia para futuras experiências. O Sol (Luz ou Espírito) ilumina as imagens matrizes para que as sombras da fantasia se dissipem. A eterna lei da renovação é a lei da Lua. Todos os 28 dias assistimos às suas quatro grandes alterações: lua nova, quarto crescente, lua cheia, quarta minguante e, novamente, lua nova. A Lua zela para que a vida se possa expressar na Terra como uma mãe zela pelos seus filhos. A via solar, o eterno caminho da Luz recorda-nos a importância da autenticidade, de um conhecimento verdadeiro que transcende a actual existência e nos projecta para o limiar do espírito. A via lunar recorda-nos diariamente a necessidade de nos renovarmos para limpar as nossas almas de todos os impulsos primários que degradam o homem. A vida terrestre é a nossa via, o nosso caminho evolutivo que nos conduzirá a um novo amanhecer após ter superado um longo trajecto feito de fracassos e vitórias. Sempre que o homem se vence a si próprio «o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança».
«Lunus est Sol inversus».
Françoise Terseur
Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole