Quando estudamos as Antigas Civilizações, seja nas suas indeléveis marcas na pedra, nas enigmáticas e ciclópicas construções que desafiam séculos e milénios, nos seus textos escritos, reproduzidos uma e outra vez para perpetuar a memória; nas tradições orais, em versos e canções, etc …; ou inclusive nas festas populares, onde aparecem, como congeladas, as mais antigas concepções da humanidade; o homem sempre registou os seus conhecimentos e vivências por meio de símbolos.

Porque a linguagem dos símbolos é a linguagem da natureza; e é a linguagem primitiva da humanidade. Num símbolo estão contidas uma série de ideias, tal como arremaçar uma pedra à água, num local fechado, produz uma série de ondas concêntricas, ad infinitum.

Os sábios mais excelsos do passado quiseram a imagem da natureza, cristalizar em símbolos os conhecimentos mais profundos sobre o Homem, a Natureza, a Realidade Permanente, os distintos aspectos dinâmicos do Ser, etc … Sabiam que o símbolo adquire uma vida própria na imaginação do estudante, é como uma semente mágica que cresce no seu mundo interior e frutifica em novos conhecimentos, em novos achados, em novas vivências. Sabiam que não há possibilidade de conhecimento sem o símbolo. Mas não ignoram que estes símbolos não eram simples imagens arbitrárias para reter uma ideia. Mais além de forma misteriosa e quase incompreensível para a nossa mentalidade materialista, cada símbolo era o corpo vivo de uma ideia, alma do mesmo. Quer dizer, que as ideias revestem-se dos símbolos que lhes são próprios, como os homens se revestem de corpo para somar experiências na sua peregrinação sem limites até ao desconhecido. Sabiam que o símbolo é, portanto, uma janela até um mundo ignoto, uma porta que o estudante pode fazer abrir ao mundo sempre vivo das ideias, que Platão chama de Arquétipos.

E apesar destas imagens, os símbolos milenares, aparecem como cascas vazias face ao nosso conhecimento actual; símbolos foram, são e serão as imagens geométricas (os primeiros símbolos e os mais perfeitos) as espécies e comportamentos do mundo animal, vegetal e mineral. O mesmo percurso aparente dos astros no céu, os distintos brilhos, tons e posições das estrelas falavam à alma desperta uma linguagem simbólica.

Símbolos como as Águas Primordiais, como o Lótus, o Ovo, a Árvore, a Montanha, a Cruz (nas suas múltiplas formas), a Serpente, etc …, são imagens permanentes nas manifestações culturais da humanidade. Qualquer que seja a cultura que estudemos, aí estão, com a sua mesma forma – com ligeiras variações – e significado. Símbolos foram e são números (símbolo de Ideias vivas, e não simples expressão de quantidades) os primitivos alfabetos (tão relacionados com os números-ideias), as estruturas rítmicas nas poesias e canções antigas, as posições e atributos com que se nos mostram as estátuas dos deuses do passado….

Ignorar a linguagem dos símbolos é permanecer cego perante o universo sem limites que os significados mostram.

Só através da ciência dos símbolos podemos penetrar na alma e verdadeiros ensinamentos das antigas civilizações.

Quem sabe se esta ciência dos símbolos foi património de toda a humanidade, apesar de cada cultura ter feito uso deles segundo um particular enfoque. Tal como expressa a genial e incompreendida H.P. Blavatsky: A simbologia deve ser estudada em cada um de seus aspectos, pois cada nação tem o seu método peculiar de expressão; numa palavra, nenhum papiro egípcio, nenhuma panela indiana, nenhum ladrilho assírio, nem nenhum manuscrito hebreu pode interpretar-se literalmente” e “cada um dos símbolos em papiros e panelas é um diamante de muitas faces; cada uma das quais, não só encerra várias interpretações, como que se relaciona igualmente com várias ciências”.

Isto é, cada símbolo oferece várias e harmónicas interpretações que se relacionam com feitos históricos, metafísicos, psicológicos, astronómicos, etc…

E um destes símbolos fundamentais, usado inequivocamente pelas distintas civilizações, é o da SERPENTE. “Na Serpente estava toda a filosofia do universo” disse H.P. Blavatsky, em Ísis sem Véu. Portanto, um símbolo de profundas concepções cosmogónicas, teogónicas e inclusive morais; e é preciso entender que um mesmo símbolo expressa distintos e inclusive contraditórios significados. Pelo contexto, ou pelos detalhes em que aparece o símbolo, podemos saber a qual destes significados se refere concretamente. É, também, possível que se refira simultaneamente a vários significados e que possamos obter assim, várias leituras ao mesmo tempo. Em todo caso em todas as “leituras” de um símbolo, sempre predomina uma “ideia” da que o símbolo é a vestimenta.

Portanto, aprendemos que na antiguidade a serpente foi símbolo de:

1. Sabedoria, da perfeição e dinamismo do Real; representa também a regeneração psíquica e a imortalidade.

2. É a imagem da alma que reencarna e se “reveste de nova pele”. Refere-se também, ao primeiro raio de luz emanado do Divino Mistério.

3. O símbolo de Eternidade, daquele que sem interrupção se cria a si mesmo.

4. Também, completando o significado anterior, o símbolo do Tempo e os seus ciclos.

5. É, como quase todos os símbolos primeiros, um símbolo duplo: é a luz, tanto a física como a espiritual; mas é também símbolo da sua sombra, da obscuridade da matéria, do mal, da substância espiralada que prende a alma no seu vórtice.

6. A serpente é símbolo do Sol Espiritual (o Sol Central das tradições ocultistas) e do seu “corpo”, o Sol visível; símbolo, portanto, do Logos Criador como da Inteligência deslizando na Eternidade. Mas também, se relacionarmos astronomicamente os eclipses, com uma serpente que quer devorar o Sol, por exemplo, Apap no Egipto.

7. Com várias cabeças em movimentos espasmódicos é símbolo das paixões humanas, e também dos poderes psíquicos.

8. É símbolo da grande Vida-Una, o Jiva-Prana dos hindus, e seu movimento, que chama aos mundos a existência.

9. Mas também da morte e da guia que acompanha os defuntos, no reino invisível.

10. Refere-se aos sábios, aos sempre–vivos, mas também às almas desencarnadas.

11. A serpente é símbolo da energia sexual, a dos corpos, tratando de perpetuar as suas formas, e a das almas procurando perpetuar-se nas suas imarcescíveis essências.

12. É símbolo da Terra, das suas energias e das suas potencialidades, a “mãe de tudo quanto se move” dos textos sagrados hindus.

Finalmente, esta lista não deve aturdir o leitor, pois todos eles estão evidenciados num único aspecto, em todos se está a fazer referência a uma mesma “ideia” que é a que expressa o símbolo da serpente. É um mesmo arquétipo que brilha com um e outro fulgor em todos eles. Pois todo o símbolo sagrado faz referência a um só aspecto do Real, “o símbolo diz de uma qualidade abstracta da divindade” (H.P. Blavatsky, Isis sem Véu), e este, da serpente, sempre teve o poder de agitar a consciência humana. Chateaubriand, recorda-nos H.P.B.; dizia:

Objeto de horror ou de adoração, os homens têm à serpente um ódio implacável, ou se prostram ante o seu génio. A Mentira a chama, a Prudência a reclama, a Inveja a leva em seu coração, e a Eloquência em seu caduceu, no Inferno arma o chicote das Fúrias; no Céu a Eternidade faz dela seu símbolo.

 

José Carlos Fernández

Director Nacional da Nova Acrópole