Vês, Hipátia, como os Artistas Iniciados da nossa pátria amada realizaram incrustações metálicas em ouro, prata, estanho e chumbo na imagem em madeira do Deus Serápis que, como bem sabes, são a destilação alquímica dos raios do Sol, da Lua, de Júpiter e de Saturno respectivamente. Olha também como usaram as pedras preciosas: a hematite representa Marte; a esmeralda, Vénus; e o topázio, Mercúrio. A safira evoca a infinidade do céu estrelado. Todos estes metais e pedras, misturados nas proporções adequadas, tecem o manto do Deus Serápis com uma cor azul escura com irisações púrpuras. Também sabes que os símbolos, que sempre evocam e atraem as qualidades internas da alma da Natureza, têm várias interpretações.

Serápis numa chave é o Sol interior e central do Cosmos, o poder espiritual que o governa, Senhor dos 7 Raios Espirituais cujos corpos são, no «nosso» cosmos, os 7 planetas errantes na noite, que regem todas as operações, visíveis e ocultas, desta mesma natureza. Mas noutra chave Serápis é o «nosso Deus», o nosso «Pai-que-está-nos-Céus», o grande Espírito que rege a alma e a vida da nossa Casa, a Terra, que os Filósofos Iniciados da nossa terra amada identificaram com a cor verde e com o tom musical que governa a nossa natureza e cujo símbolo mais perfeito é a Pirâmide.

Na Grande Pirâmide, na meseta de Gizé, ouve-se sempre este tom fundamental da Natureza no interior, mas também o ouvirás nas ondas do mar, na brisa que agita as árvores e mesmo no murmúrio longínquo das pessoas. Pois do mesmo modo que esta música nos rodeia e forma o «fundo» do qual surge toda a nossa natureza, o Deus que representa, como muito bem disse o apóstolo dos cristãos Paulo de Tarso, está dentro, a nossa alma respira-o, nele caminhamos, é a nossa matriz invisível, faz bater o nosso coração de terra e água, e também o espiritual de ar e fogo que mar­ca os nossos passos na Senda Iniciática.

Serápis é, também, noutra chave, a estrela cujo olhar jamais se afasta da nossa Terra, guiando-a na Eternidade, como o seu Deus, e que somente os Iniciados sabem o seu nome e lugar no céu. É também o Deus que rege o Egipto, o Nilo celeste cujas águas abençoam esta terra, é Osíris e é Ápis, a Grande Vítima, um raio do deus Ptah no limo do Nilo, a harmonia dos opostos, do Fogo e da Água, do Espírito e da Matéria, da alma e do corpo, das nossas sendas na terra e no céu.

Os sete metais e pedras que formam a sua túnica são, pois, os múltiplos sons da Natureza que Ele conjuga numa só voz, esta que nos chama no mais profundo do coração. Porque sabe, oh Hipátia, que onde realmente vive este Deus é no coração de todos os seres humanos, pois é o Espírito de amor e verdade, de justiça e sabedoria, de bondade e poder, não importa os nomes e formas que lhe deram as diferentes culturas. Pois este Deus em nós há-de ser o nosso verdadeiro e constante amor, a nossa única confiança, a nossa única fé, que firme como uma rocha nos serve de apoio, a nossa única esperança, que nunca nos enganará embora tudo pereça e o único objectivo a que aspiremos com a nossa paciência, esperando gozosamente, até esgotar a nossa má Fortuna, que a presença do divino Redentor se revele na nossa alma. Ele é este divino Redentor.

Em relação ao seu atributo característico, o calathos ou cesta sagrada que leva na sua cabeça, os nossos filósofos proclamaram ao povo que representava a fertilidade e o «peso da estrela», a Terra, que ele leva até ao seu Destino e sustenta. O que é, como tudo aquilo que sai fora do Templo, somente «parte da verdade». É a mesma cesta dos Mistérios de Elêusis onde se guardavam os Objectos Sagrados de Dionísio, ou seja, os modelos espirituais ou arquétipos que reinam sobre o nosso mundo.

Também se referem a esta cesta como uma unidade de medida e é, de facto, A Unidade de Medida, ou o som fundamental da nossa Natureza, a que origina todas as restantes medidas. Uma cesta para conter grão, sendo cada semente uma unidade viva, uma mónada, utilizando a linguagem do Mestre Pitágoras. Serápis é o portador, com a sua Vida, de todas as Almas-Semente que estão a evoluir na Terra, tanto no reino mineral, como no vegetal, no animal e no humano e mesmo no angelical dos espíritos da Natureza e outros que por serem incompreensíveis não podemos mencionar.

José Carlos Fernández
Excerto de “Viagem Iniciática de Hipátia”