Como se agitam no imenso universo, como se amontoam e se procuram essas inúmeras almas que brotam da grande Alma do mundo! Elas vão de um planeta a outro e choram no abismo da pátria perdida… São as tuas lágrimas, Dionísio!… Oh, Grande Espírito!… Oh, Libertador!…. Faz que as tuas filhas regressem para o teu Seio de Luz

Fragmento órfico

Num período indefinido – situado pela historiografia académica ao redor do séc. VIII a. C. e por certas tradições esotéricas no 3º milénio a. C. – aparece Orfeu, o cantor místico, filho, segundo a mitologia grega, da musa Calíope. Do mesmo modo que, antes, Zoroastro, Hermes Trismegisto e Vyasa, e depois, Buda e o próprio Cristo, Orfeu é considerado um avatar, quer dizer, uma «encarnação divina», um dos grandes mestres e renovadores da alma humana, à volta dos quais os discípulos edificam religiões inspiradas na mensagem destes filhos do Céu.
Diz a lenda que nasceu numa Grécia, na qual, tanto os grupos étnicos protogregos de origem atlante como as migrações asiáticas tinha sido destruídas e estavam em degradação chegando a um estado semi-selvagem. Era um tempo obscuro, caótico, de culto à força física e aos gênio inferiores da Natureza, um tempo sem moral, no qual a sedução sexual estava convertida no único impulso de vida. Como escreveu Jorge Angel Livraga:

«A feitiçaria e os cultos femininos impuseram-se paulatinamente e os últimos defensores da pureza e do altruísmo foram exterminados.

É neste quadro que aparece Orfeu, resplandecente de beleza física e moral, canalizando a energia da sabedoria e do verdadeiro amor. O misticismo era a sua característica e o amor sua radiante vestimenta.
Foi relacionado, miticamente, com Eurídice, a amada precipitada aos infernos do abismo. Tal como a Innana suméria e a Perséfone da Grécia clássica, era a representação da alma humana caída nas cavernas da matéria e dos esforços da consciência para unir-se misticamente a ela, resgatando-a para o mundo luminoso que lhe é natural. Orfeu, ao fim de mil peripécias, nas quais, como todo o Homem-Deus baixa por três vezes ao Submundo, morrendo no final despedaçado pelo povo que o rejeita. Logo, ascende ao céu onde aguarda pela divina Eurídice.

Misticamente, a sua mensagem chegou-nos de uma forma indirecta mas estranhamente poderosa, pois devido a uma espécie de ‘ensaio para o futuro’ – efectuado na Grécia antiga por quem impulsiona a evolução do Homem – que foi potenciado através das escolas artísticas e filosóficas que influenciaram a humanidade nos últimos cinco milénios, onde aconteceram mudanças fundamentais para a Humanidade. A, hoje denominada mitologia grega, na sua totalidade, não é mais do que um monte de ruínas da religião órfica.

Esta ensinou ao mundo que existia uma deidade trina: um Pai Celeste, uma Mão Celeste e um Filho de ambos, simbolizado pelo sol visível, e entre Eles e os humanos deu a conhecer uma imensa genealogia de deuses, semi-deuses e heróis. Na sua faceta esotérica, Orfeu foi o Grande Mestre, o fundador dos mistérios órficos, que como uma continuação mágica dos egípcios, ganharam em beleza e flexibilidade, ainda que jamais alcançando o conhecimento destes.

Os fiéis imaginaram o Mestre como um belíssimo jovem tocando a lira das sete cordas de ouro – símbolo do Espírito fazendo música com as suas sete vestimentas purificadas – emitindo música, imagem humana da Harmonia Universal Absoluta.»

Em Elêusis, célebre pelos seus mistérios, cantava-se este hino órfico, através do qual, podemos constatar a «consciência monoteísta» que todos os iniciados da Antiguidade possuíam: «Contempla a natureza divina, ilumina o teu entendimento, domina o coração, caminha pelas vias da justiça. Tem sempre perante a tua visão o Deus do Céu. Ele é o Único. Existe por si mesmo e todos os outros seres derivam d’Ele e por Ele estão sustidos. Nenhum mortal jamais o viu, mas Ele tudo vê.»

HINO ÓRFICO A ZEUS

Zeus foi o primeiro e o último, o princípio e o meio. D’Ele provêm todas as coisas. Zeus foi homem e virgem imortal. Zeus é chama de fogo, a fonte do mar. Zeus é o Sol e a Lua. Zeus é Rei. Ele, só, criou todas as coisas. É uma força, um deus, grande princípio de tudo. Um único corpo excelente que abraça todos os seres, fogo, água, terra, éter, noite, dia e Métis, a primeira criadora e o corpo sedutor. Todos estes seres estão contidos no imenso corpo de Zeus.

HINO ÓRFICO À NATUREZA

Natureza, mãe divina universal, de tantas formas mãe, celeste, venerável, espírito multicriador, rainha que indomada tudo dominas, tudo governas, brilhas em todo o lugar, omnipotente, venerada eternamente, divindade superior a todas, indestrutível, primogénita, antiquíssima… comum a todos, solitário e incomunicável, pai de ti própria sem pai, que com força varonil produzes tudo, tudo sabes, tudo ofertas, ama de leite e rainha de tudo, fecunda produtora de tudo quanto cresce, dissolvedora de tudo quanto madura, verdadeiro pai e mãe, ama de leite e sustentação de todas as coisas.

José Carlos Fernández
Director Nacional da Nova Acrópole