Os Caminhos Secretos da Memória

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“O Corpo é o Instrumento Salvação da Alma”

A Psique é a síntese de todos os movimentos da Consciência, ela envolve os sentimentos, as emoções, as sensações, os nossos pensamentos e todos juntos constituem a nossa vivência ou experiência individual. No entanto, a Psique é uma expressão superficial e temporária do Ego, ela é o seu instrumento inferior, um espelho onde se reflecte os mil rostos do nosso Eu. A consciência de vigília corresponde à capacidade do nosso cérebro de entrar em ressonância com outras dimensões, em geral ele não consegue recordar certos estados onde a consciência actua durante a dimensão onírica ou alterada. O cérebro é como um posto emissor e receptor de vibrações electromagnéticas, e as impressões e sensações que ele recebe são sinais que ele coordena e analisa para depois traduzir em imagens inteligíveis para o EU. Alguns centros essenciais para a manifestação das mais altas faculdades da inteligência como a glândula pineal estão ainda paralisadas, enquanto os neurónios que asseguram a vida vegetativa, tais como o pensamento mecânico e as acções reflexas monopolizam uma grande parte da energia do nosso cérebro. A higiene mental que provêm do exame da consciência, visa a purificação do pensamento. A vigilância assídua dos processos mentais, a prática da introspecção e da meditação despertam os centros de comunicação com o nosso Ego e prepara a continuidade da intervenção da nossa consciência em todos os planos da existência. 

O Ser humano é uma Alma em evolução que procura desabrochar e descobrir a raiz do seu Ser, o corpo é o seu instrumento temporário mas é também o seu meio de libertação. A consciência é o campo de percepção da realidade, um raio de luz do Espírito que pode conhecer e diferenciar aquilo que os sentidos captam do entorno. A memória é o registo desta gravação de factos diversificados e que ocorrem na vida de cada indivíduo. Esta memória composta de imagens fragmentadas, adquiriu uma forma de coesão na mente que selecciona aquilo que a experiência transmitiu: o agradável e desagradável, as alegrias e dores, o fácil e o difícil, etc. A memória da alma é uma memória psicológica que em si constitui a forma e a substância da alma e que difere na sua evolução em cada indivíduo. Em conformidade com o grau de consciência de cada um, a alma é como um tecido de registos vivenciais que constituem uma identidade separada e um campo de acção limitado. A memória da alma é a história da vida que o Ego conseguiu fixar e experimentar no decorrer das suas várias encarnações. O esforço de cada Ego reside na necessidade de transformar esta energia de vida em luz da consciência. A extinção deste processo é assinalada com a retirada da consciência do corpo, pela reabsorção e compreensão das causas produtores dos fenómenos. No Oriente este último momento é chamado a iluminação do campo ou o Nirvana. Quando a Alma deixa de se ver a si própria como uma parte do Todo (Maya ou a ilusão da separatividade), desaparece a consciência do eu observador e pensador. A Luz que permite a presença do Eu no plano da matéria esvanece-se e alcança o limite da sua expansão no espaço. Deste modo acaba o tempo que determina as mudanças de estado que oscila entre o passado, o presente e o futuro. A Alma constitui então a expressão temporária da vida e a memória é o fio condutor que liga os passos que a consciência alcançou no decorrer da sua peregrinação entre várias existências.

A memória é fidelidade, é ela que fala e influencia o pensador quando ele necessita de recordar. Deste modo ela permite que não esqueçamos aquilo que já experimentamos, evitando a repetição daquilo que já vivenciamos. A reminiscência é a consciência do Eu lembrança, uma visão panorâmica do saber actualizado no decorrer das nossas várias vidas anteriores. A memória física é um registo mecânico que retém a informação, ela é como uma biblioteca classificada por ordem temática mais ou menos ordenada em conformidade com a capacidade de actualização dos dados introduzidos. Podemos possuir muitos livros mas isto não quer dizer que fomos capaz de os ler e analisar para extrair o seu conteúdo e assim poder o utilizar quando é necessário.

Uma coisa é ser-se um bibliotecário e outra é ser-se um leitor atento e selectivo. Nestas estantes da memória existem livros que só servem para entreter a mente, fazem-nos pensar que o tempo é feito de novelas sem conexão umas com as outras. Sabe-se que passamos um terço da nossa vida a dormir, num estado de inconsciência voluntário, e o outro terço é passado a repetir hábitos mecânicos, o restante que raramente alcança a intensidade desejada, reduz-se a poucos momentos de verdadeira evolução.

A memória serve então para tornar presente as lições do passado e por isso apresenta-se através de quatro funções: receber, reter, reconhecer e recordar. Estas quatros etapas permitem construir uma base de dados que utilizamos para construir a nossa identidade temporal (linguagem – cultura – crença valores – técnica). A memória contribui para a nossa evolução, todo o esquecimento é responsável pelas dores e erros mil vez repetidos. Mas também necessitamos de aprender a esquecer sobretudo aquelas situações onde as feridas e o sofrimento por elas causados podem provocar retornos de medos inconscientes. As recordações que não foram bem assimiladas pela consciência voltam à superfície e continuam a devastar o presente, a nossa memória afectiva é muitas vezes condicionada pelas lembranças que a marcaram e tenta projectar de forma automática certas respostas de defesa condicionando a acção presente, por exemplo o remorso é uma memória dolorosa que é originada pela omissão de um bem passado, o rancor é um mal sofrido e que não conseguimos esquecer. Estes exemplos de pontos negros que ferem a Alma devem ser eliminados e superados, pois eles impedem a renovação do presente. O perdão e a redenção propiciam à purificação da nossa memória psicológica e libertam a Alma dos velhos pesos que a prendem ao passado.

O poder da imaginação dá asas à Alma e traz novos ventos primaveris para seguir em frente para cima das nuvens. A imaginação ajuda a renovar a memória egoíca e projecta novas imagens, novos modelos para a nossa evolução, Shakespeare dizia que “a memória é a sentinela do Espírito” e Alethea é a palavra grega para expressar o poder da memória ou a ausência de esquecimento. Neste caminho de reencontro com Deus, a memória é a luz da verdade que recolhemos das nossas muitas peregrinações ao redor da terra dos nossos sonhos, ela é a saudade de algo já vivido e que nos faz falta, a reminiscência do eterno presente.

Françoise Terseur
Pintora, Investigadora e Formadora da Nova Acrópole

Bibliografia :
Dossier sur la mémoire de la revue Nouvelle Acropole France
Le souvenir des expériences de l’Ego de  W. Q. Judge

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