Os sonhos. Mensageiros do Futuro?

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Autor

Nova Acrópole

Partilhar

Haverá nos nossos sonhos alguma chave oculta que nos permita saber não só como somos agora, mas também como poderemos chegar a ser amanha? É nesse tipo de sonhos e nesse tipo de interpretações que vou centralizar a minha exposição.

Desde a mais remota antiguidade distinguiram-se sonhos de vários tipos. Haviam sonhos ordinários: os quotidianos, os de todas as noites; e Haviam sonhos extraordinários, aos quais se prestava muito mais atenção. Porque é que eram extraordinários? Pela própria pessoa que tinha tido o sonho: quantos maiores eram os valores, ou mais preponderante era uma pessoa dentro do seu meio, mais importância se dava ao que sonhava. Também eram extraordinários pelos símbolos, pelo conteúdo, ou pelo momento especial em que se tinham manifestado. E, em geral, porque nos punham em contacto, quase como uma fórmula divinatória, com o que ia suceder mais adiante, ou mesmo no dia seguinte: quer em linhas gerais, quer com todos os pormenores. Desses sonhos extraordinários podemos falar muito, mas explicar pouco. Ora é precisamente sobre isto que iremos reflectir: porque é que temos tanta dificuldade em explicar os sonhos e, sobretudo, os sonhos extraordinários…?

Na realidade deveríamos saber muito já que, ao longo da história, não encontramos um único povo que não se tenha preocupado com este curioso fenómeno do mundo onírico. É um mundo estranho; pertence-nos porque é diariamente nosso, mas ao mesmo tempo não nos pertence, pois sentimos que nos escapa por entre as mãos, que é muito misterioso. É como se viesse de outra parte. Há, inclusive, alguns autores que relacionam o sonho com a morte, para mostrar-nos a semelhança que existe entre o mistério do sonho e esse outro mistério tão fundamental que sucede connosco quando deixamos a vida. Os gregos explicavam que entre Tanatos, a Morte, e Hipnos, o Sonho, há uma relação de irmandade: um é o irmão maior, e o outro é o irmão menor.

Efectivamente, todos os povos se interessavam pelos sonhos, mas nem todos os interpretaram da mesma maneira. Encontramos aparentemente enormes contradições, estilos bem diferentes no modo de estudar os sonhos, mas, no fundo, não é assim. Para quem considera que o homem é exclusivamente o seu corpo, os sonhos terão um conteúdo, uma explicação de carácter biológico-fisiológico. Para quem o homem é um pouco de consciência e uma enorme quantidade de inconsciência – como o famoso exemplo do icebergue que só deixa ver uma pequena parte –, os sonhos serão interpretados e explicados em função do inconsciente e das motivações do inconsciente. E para outros povos, possivelmente os mais antigos, os sonhos encontram a sua explicação no mundo mágico, simbólico, religioso. No entanto, se nos propuséssemos conjugar todas estas explicações, obteríamos um critério mais completo e mais próximo daquilo que nos interessa saber acerca dos sonhos.

Sem pôr de lado os conhecimentos do século XX, iremos recordar tudo o que as Velhas Escolas ensinavam acerca do que é o homem, os seus sonhos e as suas possibilidades.

É necessário sonhar quando dormimos?

Pensando no pouco que recordamos dos sonhos, diríamos: não deve ser necessário porque eu não recordo nada. No entanto, há estudiosos que afirmam que é absolutamente necessário sonhar; fizeram experiências em alguns indivíduos, impedindo-os de dormir no preciso momento em que começavam a sonhar, e isto durante varias noites. Desta forma, os pacientes chegavam a um estado de grande nervosismo e excitabilidade, o que levou muitos psicólogos a concluírem que os sonhos, embora normalmente inexplicáveis, são absolutamente necessários para nós, quer como descarga, quer como evasão.

Porque é que dormimos?

Para os antigos era sumamente importante o facto de o homem não ser considerado como um ente biológico; o homem é algo mais do que o seu corpo. Concebiam-no constituído por sete planos, ou sete veículos, ou sete formas de expressão. Ora, para se entender melhor os sonhos é indispensável recordar que o homem é, efectivamente, um corpo, sem menosprezar a vitalidade desse corpo, a energia; também dele faz parte o mundo psíquico, mais conhecido como mundo astral, o mundo pelo qual viajamos e nos movemos em sonho; e há ainda o mundo mental. Quatro planos: um Físico, um Energético, um Emocional e um Mental e, por cima destes quatro, reside um Homem Superior, o Eu Superior.

Estes antigos também diziam que o homem dorme porque os corpos cansam-se uns dos outros. Por exemplo, o corpo físico não se cansa apenas pelas actividades físicas que realizamos; as emoções fortes, os nossos pensamentos, o facto de ter que estudar, concentrar-se, memorizar, recordar coisas, também nos cansa; inclusive, todas estas actividades psicológicas provocam certas alterações químicas nos nossos corpos que não podem ser resolvidas se permanecermos em estado de vigília. Assim, o corpo necessita de dormir para descansar da sua própria actividade, além do cansaço que lhe produzem as emoções e a mente.

“…não há diferença entre o dia e a noite e mesmo entre a vida e a morte, porque morrer seria como um sonho um pouco mais longo.”

 

Quanto ao mundo das emoções, o veículo astral não se cansa muito. Por exemplo, quando sonhamos, enquanto o corpo descansa, as emoções não param; em sonhos continuamos a experimentar todo o tipo de sentimentos. Do ponto de vista astral, estamos activos, sentindo sempre, movendo-nos sempre. O corpo emocional cansa-se é de ter que transmitir constantemente estímulos ao corpo físico, para que o nosso cérebro os receba e os torne compreensíveis. Do mesmo modo, o nosso veículo mental cansa-se, não de pensar – porque enquanto dormimos continuamos a pensar, elaborando ideias –, mas de transmitir essas ideias a um cérebro que nem sempre capta as coisas bem e necessita que lhe sejam repetidas uma e outra vez.

Assim, estes três bons amigos, o corpo, as emoções e a mente, quando chega a hora do sono, separam-se amistosamente e cada qual vai para o seu lado.

Como é que os antigos descrevem este astral que se separa do corpo?

Os videntes, os que tiveram a oportunidade de vislumbrar o que se separa do corpo adormecido, dizem-nos que é uma forma muito parecida à do corpo físico; essa semelhança é lógica, visto que tanto o corpo físico como o astral convivem constantemente e a matéria emocional ou astral é muito subtil e adapta-se ao corpo. Esta forma afasta-se um pouco do corpo e pode-se reconhecer facilmente devido à sua parecença com o corpo ao qual pertence.

Ora bem, nem todos os homens sonham, desdobram-se ou viajam da mesma maneira; isso depende da natureza humana. Baseando-se nas versões tradicionais e antigas, um homem com escassas preocupações, com uma evolução relativa, muito apegado ao seu mundo e às suas pequenas coisas, quando dorme só permite que o seu astral se separe muito pouco. Quase não se atreve a separar-se do corpo, visto que se sente muito atado a esse veículo de sustentação que é o seu único apoio.

Uma pessoa que é mais ousada no mundo astral e que já não está tão afectada pelas preocupações quotidianas, afasta-se um pouco mais do corpo e, ao penetrar nesse mundo, vê-se submergida no meio de uma corrente semelhante a um vento forte. De qualquer modo, está sujeita a uma infinidade de sensações, de sentimentos que proporcionam sonhos muito variáveis, confusos, alguns muito agradáveis, outros muito desagradáveis, geralmente caóticos e em forma de caricaturas, com todos os elementos distorcidos.

Vejamos um caso um pouco mais avançado: alguém que já tem a possibilidade de estar desperto e activo enquanto dorme. Essa pessoa deixa o seu corpo, consciente de que está a sonhar, de que está numa outra dimensão, mas que continua a ser ela própria. E o que é que lhe sucede? Pretenderá alcançar o mundo astral, embora lhe seja difícil conhecer essa dimensão tal qual ela é, porque adormece rodeada das próprias preocupações, dos próprios pensamentos, dos problemas que a afectaram durante o dia, formando com todos eles um escudo ou espelho reflector de todas as coisas que lhe sucederam durante as horas de vigília, repetindo-as e vendo-as de um outro ângulo, mais distorcidas, mais afastadas e misturadas com uma infinidade de outros elementos. Assim, todos esses factores impedem-na de sair do seu próprio mundo, das suas preocupações e interesses particulares.

Os antigos dizem-nos que o caso perfeito é o daquela pessoa que quando dorme sabe que está no mundo dos sonhos, está consciente, activa e conseguiu libertar-se dessa casca de preocupações pessoais. O que é que sucede com essa pessoa? Maneja o corpo astral ainda melhor que o próprio corpo físico; ao não ter matéria, é mais ligeiro, mais livre, não tem calor nem frio; além disso, pode deslocar-se a toda a velocidade aos mais variados lugares, tomar contacto com pessoas, encarnadas ou desencarnadas, desde que estejam nesse mesmo mundo astral.

Achei muita graça ao ler num livro que no mundo astral até se podem dar conferencias e ouvi-las; e se podem aprender muitas coisas novas, visto que é possível entrar em relação com seres que sabem muito mais do que nós; inclusive, há maior facilidade em resolver determinados problemas que não se vêem com tanta claridade quando estamos acordados. Também é possível ajudar outros seres que estão desesperados, angustiados ou necessitados. Enfim, são muitas as coisas que se podem fazer, já que há uma liberdade infinita de espaço e de tempo. Além disso, no mundo astral, no mundo de emoções, os sentimentos são muito mais fortes e, claro está, as alegrias são mais intensas e as penas também.

No entanto, há uma vantagem: a Vontade e a Mente actuam com mais força sobre os sentimentos e se a pessoa se propuser moderar um sentimento que a ultrapassa, é bastante mais fácil consegui-lo do que quando está sujeita apenas às leis do corpo físico.

Assim, o domínio da mente, o domínio da consciência no mundo dos sonhos proporciona algo de extraordinário em que quase não há diferença entre o dia e a noite e mesmo entre a vida e a morte, porque morrer seria como um sonho um pouco mais longo; somos sempre os mesmos e podemos habitar noutros planos com a nossa própria consciência e as nossas próprias possibilidades.

 

Porque é que não dominamos o mundo dos sonhos?

A pergunta que seria lógico colocar é: se tudo isto existe, porque é que eu não o posso fazer, não o posso aplicar, não o posso viver? A resposta é-nos dada de uma maneira bastante simples. Entre o mundo dos sonhos – o mundo astral – e o mundo físico é necessário uma ponte e essa ponte nem sempre está devidamente construída e solidificada, pois são precisos bastantes anos de prática, dedicação e trabalho para que seja activa e efectiva. Os orientais falam de uns Chakras, rodas ou órgãos vitais, etéricos, semelhantes aos órgãos físicos, mas que pertencem, no entanto, a um plano mais subtil da matéria: são precisamente os que serviriam de ponte se funcionassem em pleno.

Por outro lado, estamos muito mal habituados a que o nosso mundo de sentimentos reaja através do corpo, e não sabemos, ou não podemos sentir a facilidade ou possibilidade que o nosso mundo astral tem de actuar livremente por si próprio, graças à nossa determinação e vontade.

 

Quais técnicas poderíamos utilizar?

Existem técnicas para poder manejar melhor os nossos veículos e ser um pouco mais conscientes. Uma delas, que não é exactamente uma técnica, consiste em esperar pacientemente a própria evolução do homem. É o caminho mais lento, porém o mais seguro.

Outra técnica é o trabalho perseverante sobre si próprio, o estudo, a disciplina contínua, a auto-investigação, o esforço em conhecer-se cada vez melhor, em dissipar as dúvidas internas.

Uma outra técnica, aliás nada recomendável, é utilizar praticas ou exercícios extraídos de alguns livros e que dizem: “Se fizeres tal coisa, dissipar-se-ão para ti os véus do mundo astral”. Então a pessoa repete o exercício durante vários dias, e como não entende muito bem o que faz nem porque o faz, constata que a primeira experiência que terá de suportar é o terror de encontrar-se frente a algo que não sabe manejar.

Os antigos falam-nos de uma outra forma de despertar, tão maravilhosa, tão extraordinária e tão distante, que até nos faz sorrir ao lê-la. É estar acompanhado por um bom Mestre que, de fora, com muito carinho e muita paciência, quando estamos a dormir, sabe dirigir os nossos pensamentos e levá-los para uma dimensão superior que nos permite a obtenção de uma consciência desperta e o reconhecimento de nós próprios.

Existem categorias de sonhos?

Os sonhos não são todos iguais, razão pela qual estão classificados em diferentes categorias.

Não me agradam pessoalmente as classificações sistemáticas de sonhos que nos levam a dizer. “Se sonhaste com água é que te vai acontecer tal coisa; se um gato preto se atravessou no teu caminho, nem sabes o que te espera…” Talvez tivessem algum sentido na antiguidade, mas, à força de usá-las, de repeti-las e de perder de vista algumas considerações relativas à pessoa que sonhava e à sua situação, já nada significam hoje.

Na Grécia, por exemplo, haviam muitos oráculos para interpretar os sonhos. Porém, não se pense que quem tinha um sonho ia logo a correr pela manhã ao Oráculo e dizia ao Sacerdote: “Sonhei tal coisa, que significa?”

Aquele que queria uma interpretação dos seus sonhos chegava ao Oráculo, submetia-se durante um dia ou dois a certas purificações, a um tipo especial de comida, a um ritmo de vida e, após ter realizado cerimonias e estar sob investigação de algum deus ou deusa, tinha de dormir num local determinado que lhe era indicado pelos sacerdotes. Era esse o sonho que depois ia ser interpretado; não era um sonho qualquer, mas o sonho induzido por umas circunstâncias provocadas para ver o que é que emergia dessa pessoa, quais eram os símbolos que se davam a conhecer.

No antigo Oriente usavam os sonhos sob uma outra chave de interpretação para decidir, através do que a pessoa contava, qual era a doença que a afectava, visto que os sonhos serviam em muitas ocasiões para determinar se havia algo que não funcionava no homem; e não se referiam apenas a doenças físicas, pois acreditavam que um homem enfermo podia ter disfunções em diferentes partes da sua natureza: o corpo, a psique, a mente, ou todo o conjunto.

Actualmente, as teorias mais modernas falam de sonhos de natureza fisiológica, ou seja, sonhos que se desencadeiam por um factor externo, ou por um factor fisiológico interno. Por exemplo, se nos caírem os cobertores durante a noite, começamos a sentir frio e com isso tecemos uma novela incrível. Ou, pelo contrário, se o factor é interno, algo que nos dói, uma digestão pesada e logo a novela é tecida à volta deste elemento orgânico determinante do argumento do sonho.

Estes autores também nos falam de outro tipo de sonhos: os eminentemente psicológicos ou inconscientes, e é curioso comprovar que para toda a psicologia moderna o inconsciente coincide sempre com os planos subtis dos antigos esoteristas. O inconsciente é semelhante ao astral; é a parte da mente que não dominamos, e estes sonhos inconscientes são variadíssimos. Alguns são simbólicos, outros são de aviso ou de solução de algo que nos preocupa. Por vezes deitamo-nos obcecados por algo que não sabemos como resolver e, a meio da noite, vemos tudo perfeitamente claro; pela manhã, ao despertar, damo-nos conta de que temos a solução, embora não recordemos exactamente como é que foi o sonho.

Porque é que não recordamos os sonhos?

Actuar no mundo astral, estar conscientes enquanto sonhamos nesse plano, não significa necessariamente que, quando despertamos, recordemos tudo. E a razão é que falta precisamente essa ponte de que falava antes.

Não nos lembramos, mas, no entanto, muitas vezes despertamos com a sensação de termos sonhado algo muito importante, algo fundamental para nós que nos revelou factores desconhecidos da nossa personalidade. Em contrapartida, outras vezes despertamos com a imagem nítida do sonho que acabamos de ter. Dizem que o que melhor se recorda é o último da noite, embora sonhemos três, quatro ou mesmo cinco vezes. A imagem está viva, recordamo-la perfeitamente, meia hora depois começa a apagar-se, retornando para o seu próprio mundo, apesar dos nossos esforços em retê-la.

Segundo nos indicam, se fossemos capazes de nos mover tranquilamente no nosso mundo dos sonhos, poderíamos ocupar as nossas noites maravilhosamente. Bastaria que antes de dormir tivéssemos o seguinte propósito: estudarei algo que tenho pendente, ocupar-me-ei de um problema que ficou por resolver durante o dia, procurarei reunir-me com alguém que saiba mais do que eu, tentarei ajudar alguém, viajarei, apreciarei coisas bonitas, estarei no meio de uma paisagem extraordinária, ouvirei musica, dançarei ou pintarei. Mas o mais importante é isto: “O que é que me proponho fazer esta noite quando adormecer”. Esta é uma das melhores técnicas para que paulatinamente possamos dominar os nossos sonhos.

Os sonhos mais simples

São, indiscutivelmente, os de carácter fisiológico, que dependem do nosso cérebro físico e dos impulsos que lhe são enviados pelo nosso corpo, o qual, quando está a dormir tem pouco controlo sobre si próprio, e a menor influencia externa é suficiente para enviar ao cérebro imagens pictóricas que se convertem em sonhos.A nossa consciência física é muito simples, geralmente automática. Além disso, o corpo por si só não pode captar ideias abstractas, recordações; transforma em imagens tudo o que recebe e estas, por sua vez, podem chegar a ser perfeitamente disparatadas.

A consciência física não tem nenhuma capacidade de decidir se as imagens que temos são reais, se têm valor, se estão relacionadas umas com as outras, se podem ser submetidas a um juízo de autenticidade. Para a consciência física, quanto mais absurdo for o sonho, melhor; assim diverte-se mais durante a noite. Além disso, qualquer revelação espacial converte-se para o corpo numa imagem de uma viagem; por exemplo, sonho com um amigo que está em Cádis, e ali estou eu, em Cádis. A consciência física trabalha por associação de ideias, colocando uma ao lado da outra, sem se importar se estão relacionadas entre si. Daí que muitas vezes unimos coisas que nos aconteceram, sem que haja qualquer relação entre elas, embora no sonho estejam absurdamente relacionadas.

Por outro lado, a consciência física vê-se afectada por tudo o que sucede à sua volta: um ruído, um odor, uma mudança de temperatura; não só é afectada como tem uma enorme capacidade de fantasiar. Um ruído pode transformar-se, durante o sono, num bombardeamento; um perfume agradável pode transportar-nos para uma tenda de essências onde um sultão está a tentar vender-nos a produção do seu palácio. Há uma grande capacidade de fantasiar todas as coisas.

 

“Na realidade … não encontramos um único povo que não se tenha preocupado por (com) este curioso fenómeno do mundo onírico.”

 

Mas estes não são os sonhos que mais nos interessam; nem tão-pouco esses sonhos que obedecem simplesmente a uma mente descontrolada e caótica que se deixa arrastar por uma enorme quantidade de corrente, de pensamentos que nem sempre são nossos e que muitas vezes não passam de pedaços, recolhidos aqui e além, daquilo que pensam uns e outros. Além disso, numa época tão difícil como esta, deixar que a mente fique sujeita a essas ondas equivale a expô-la às situações mais horrorosas. Se não houver um controlo de nossa parte, a mente apanhará tudo o que há no ambiente que a rodeia.

Por isso, os antigos atribuíam muita importância ao local onde se dormia e recomendava aos seus discípulos que escolhessem para dormir um sítio limpo, puro e agradável. Sabiam que o último pensamento da noite influencia os nossos sonhos. Esta é a razão pela qual algumas pessoas ainda têm na mesa-de-cabeceira o seu livro preferido ou a música de que mais gostam, que lêem ou ouvem antes de adormecerem.

Os sonhos que mais nos interessam são os que têm a ver com a melhor parte de nós próprios, com o Eu Superior.

Podemos controlar os nossos sonhos?

Uma vez li que, no Egipto, ensinava-se aos discípulos dos templos a manejar os seus sonhos, a controlá-los, a interrompê-los se fosse necessário e a despertarem sempre que tivessem um sonho indesejado. Pareceu-me extraordinário o facto de se poder ter essa força sobre o próprio inconsciente ou sobre o próprio astral, que permitia que cada qual se dominasse mesmo quando o corpo estava o dormir. Como é isso possível? Através de um cada vez melhor conhecimento de si próprio e de um esforço contínuo em superar os próprios defeitos.

Vou dar um exemplo, daquele que decide deixar de fumar. E fá-lo realmente. Mas ao dormir vê-se rodeado de cigarros por todo o lado… Não tem nada de especial, é lógico; no entanto, faltou que a vontade e a mente também trabalhassem enquanto estava a dormir; faltou o último pensamento antes de adormecer: “Cuidado! Como deixaste de fumar, é possível que continues a ter um forte desejo de fumar”. Muitos destes impulsos manifestam-se precisamente quando deixamos de exercer o nosso controlo sobre eles.

Os melhores sonhos

Ao referirmo-nos aos melhores sonhos, àqueles que podem significar algo para nós, não devemos esquecer essa capacidade tão especial que o homem tem no seu mundo astral de romper com o tempo e o espaço, de em poucos segundos passarem muitas coisas com todos os pormenores, porque já não vivemos nesta dimensão física. Somos muito mais livres na medida em que se abriu um campo completamente diferente para nós. Não esqueçamos a possibilidade que existe no mundo dos sonhos de trabalhar com símbolos porque, efectivamente, o nosso Eu superior expressa-se através deles. Mas não me refiro apenas a esses símbolos oníricos tornados tão famosos pela psicanálise de Freud; a esses símbolos que representam sempre uma censura do nosso consciente ao que passa no inconsciente. Falo de outro tipo de símbolos: dessas ideias tão ricas que basta apenas uma delas para poder explicar uma grande quantidade de coisas e que, no entanto, quando estamos acordados, necessitamos de muitas palavras para expressá-las, e cada vez nos enredamos mais, sendo muito difícil reflectir aquilo que antes era uma imagem, uma ideia, um símbolo perfeitamente compreensível.

Talvez seja essa possibilidade que temos no mundo dos sonhos a que mais contribui, se estamos conscientes, para o desenvolvimento de uma mente lúcida, de uma mente clara que nos permite penetrar em todos os símbolos que constantemente a vida nos oferece. E não esqueçamos essa capacidade que tem o nosso mundo astral de descobrir algo do futuro, de prever coisas que não vemos quando estamos despertos. É verdade que em muitos sonhos aparecem situações que logo se reproduzem na realidade. Premonições, previsões, antecipações assentes em elementos que, unidos inteligentemente, deram esse resultado. Isto acontece muitas vezes e não é preciso nenhum especialista que nos diga quando temos algum desses sonhos, pois somos nós próprios que, ao acordar, sabemos que entramos em contacto com algo. Se for bom, há que potenciá-lo e preparar todas as coisas para que o nosso sonho possa acontecer na realidade. Se for mau, procuremos ver como é que podemos actuar para eliminar esse perigo que aparentemente roda sobre as nossas cabeças.

Ao falar destes sonhos e da sua relação com o futuro, o que me parece mais importante é ter em conta que se desenvolvermos todas as faculdades humanas que estão, não adormecidas, mas simplesmente inutilizadas, como o nosso mundo de sentimentos, a mente, a vontade, é provável que abramos também uma porta para o futuro e que muitas coisas que estamos acostumados a considerar como pertencentes ao amanhã, passem a fazer parte do nosso presente; como o tão ansiado “conhecer-se e dominar-se a si mesmo”. É esse o futuro que eu vejo mais apetecível através do caminho dos sonhos; tornar presentes e reais estas possibilidades, não só quando estamos a dormir, mas sempre e principalmente quando estamos despertos.

Parece-me interessante que desta análise, desta penetração nesse mundo, obscuro por um lado, mas luminoso por outro, possamos extrair certos elementos que nos permitam imaginar um futuro melhor: que esses veículos, hoje entregues ao seu próprio critério quando dormimos, sejam algum dia os nossos melhores aliados e as nossas armas mais poderosas para evoluirmos na vida.

À falta de sonhos premonitórios, o que nos resta é sonhar o futuro. Sonhar um futuro com a plena consciência de que esse mundo vindouro, esses sonhos extraordinários, serão realidade graças ao esforço que nós, como homens conscientes, soubermos fazer hoje.

Sonhamos apenas quando dormimos? Não. Eu sonho desperta com esse mundo diferente e melhor que surge diante dos meus olhos como uma imagem promissora. Se é certo que também em sonhos podemos encontrar-nos com aqueles que partilham as nossas preocupações e os nossos anseios, seria bom que a partir de agora, todos os que sonhamos com um mundo novo e melhor nos encontremos em sonhos. E se nos encontrarmos acordados, ainda melhor.

 

Delia S. Guzmán

Directora Internacional da Nova Acrópole

In revista Nueva Acropolis Nº 323 de Dezembro de 1994

Go to Top