Simbolismo e Música

Autor

Nova Acrópole

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O Homem desde que se reconheceu como tal procurou ler na concepção da natureza os desígnios de um poder superior que percebeu como evidente. As pegadas luminosas daquele mistério que habita mais além da noite do tempo foram o seu guia, nos tempos em que o Fogo da Razão apenas começava debilmente a insinuar-se. Estas pegadas, que aprendeu a ler no livro da Natureza interna e externa, foram os primeiros símbolos, ou seja, as expressões ou os recipientes que continham a Vida-Una. O murmúrio do vento, a força electro-espiritual do raio, a ressurreição diária do sol, eram mensagens de um interlocutor espiritual que aprendeu a decifrar.

Mas o Homem, enquanto pensador, não se limitou somente a decifrar os ideogramas complexos de um Mistério que não conseguia definir, mas que no entanto reconhecia com intensidade real. Como digna encarnação do primeiro mistério, o homem tentou aprender e reproduzir a primeira linguagem que tinha as suas raízes no seio das trevas, no seio da escuridão e do silêncio. Assim, nasceram a Dança e a Música, num supremo esforço para reproduzir na Terra, a obra suprema daqueles a quem aprendeu a reconhecer como deuses.

A Música e o Mistério da Criação

Velhas tradições, cujos fragmentos se encontram espalhados nas mitologias de todos os povos, relacionam a Criação do Universo com a aparição da Música. Na Génesis Bíblica “no princípio foi o Verbo “. Do Deus misterioso, inominável, AIN SOPH surge misteriosamente o primeiro impulso criador, a palavra expressada, o primeiro som, veste espiritual do Deus Criador. Nas tradições nórdicas, os Deuses criadores (por exemplo Wotan ou Vainamainen) conhecem os segredos dos signos, palavras mágicas da criação, as Runas. E as mesmas RUNAS não são sinal de alguma forma da essência espiritual das Walkyrias (versão guerreira nórdica semelhante às Musas gregas).

Nas tradições hindus, o primeiro som é o sagrado AUM, simbolicamente representado pela HAMSA branca. O AUM (ou OM) é som e reflecte a criação, manutenção e destruição do universo manifestado. O conhecimento da pronunciação séptupla do AUM sagrado era considerado altamente esotérico e perigoso. O próprio universo foi interpretado como uma complexa “sinfonia”, uma série de variações ilusórias construídas com base em elementos simples (Tattvas), também de raiz musical.

A Música e os Deuses

Mas a música não surge somente ao início e ao fim, no qual tudo se resume ao silêncio primordial. Os Deuses da criação e da manifestação utilizaram-na como a correspondente linguagem divina, pelo menos nos planos em que existe o nascimento, o crescimento e a morte. Assim apareceram primeiro os instrumentos e logo, “os cânones ou hinos sagrados” que permitem ao Homem comunicar com seus progenitores espirituais.

Na Grécia, por exemplo, os Deuses geraram as possibilidades da expressão musical.

APOLO dirige O CORO das MUSAS com a sua lira (Apoio Musageta), que tinha sido um presente de Hermes, o mensageiro dos Deuses. Em troca, APOLO deu a HERMES o seu atributo característico, o Caduceu. A Musa EUTERPE, Deusa padroeira da Música foi representa tocando uma flauta dupla. ATHENA foi reconhecida como a criadora da flauta. No entanto, ao tocá-la desfigurou-se o seu rosto, causando risadas dos outros deuses. Por esta razão, ATHENA amaldiçoou o instrumento arremessando-o sobre a Terra. A flauta foi de imediato recolhida por um pastor Mársias, que com ela conseguiu dominar a natureza material e ousou desafiar o próprio APOLO. Com a ajuda da Deusa HARMONIA, o Deus venceu Mársias, que foi desolado pela sua ousadia. PAN escolheu como instrumento a charamela cujos cinco sons reflectem a raiz pentatónica da Natureza manifestada.

No Oriente, os sinos, tal como o sistro dedicado a Ísis no Egipto, serviram para atrair bons espíritos e afastar aqueles que apenas habitam nos cantos escuros, pois temem a luz do sol. Na América pré-colombiana, a argila serviu para modelar ocarinas de barro em forma de sapo, cujo som lembra as descrições natureza primordial “Húmida”, que encontramos nos velhos livros herméticos.

As antigas tradições têm atribuído um carácter sagrado não só aos instrumentos que foram um presente dos Deuses, mas aos cânticos através dos quais o Homem se comunica com eles. Um dos quatro Vedas hindus foi dedicado aos rituais musicais, tal como um dos livros canónicos chineses (Livro das Odes). No Ocidente, o livro dos Salmos de David foi incorporado no Antigo Testamento e inspirou o desenvolvimento de dois milénios de Música sacra judaico-cristã.

Os ideogramas das línguas antigas também têm sido relacionados de forma misteriosa com a Música. Em grego antigo, por exemplo, as letras do alfabeto não serviam só para construir palavras, também cada letra correspondia a um número e a uma nota musical. De tal forma que certas palavras não só tinham um significado semântico convencional mas também constituíam “fórmulas” numéricas e até mesmo “melodias” musicais. Este carácter, segundo parece, não era exclusivo do grego, entre as línguas antigas. É altamente provável que, por exemplo, as Runas germânicas tenham tido uma carácter semelhante. Embora seja arriscado especular, devido à falta de documentação, ou à nossa incapacidade de interpretar velhos testemunhos históricos no seu contexto original, somos confrontados com antiquíssimos sistemas simbólicos, que procuravam correlacionar a semântica dos idiomas com uma expressão musical, que ao mesmo tempo incorporava uma raiz espiritual-numérica dos mesmos.

A Música na Grécia

Pese embora a fragmentação das fontes e o total desconhecimento de como “soava” a música grega, o pouco de que dispomos, permite-nos imaginar a existência de um complexo idioma-musical, com características altamente simbólicas.

A essência formal da construção musical grega, girava em torno de “nomoi”, semelhante à que as estruturas musicais do ocidente se baseiam em “escalas de sequências de semitons”. No seu estudo sobre a Música Grega, Adolfo Salazar expressou-se sobre as “nomoi“ Gregas:

“Em todas as músicas orientais parece já reconhecida a existência de grupos melódicos que são como o germen das formações melódicas mais extensas. Esse tipo de semente melódica tinha na Grécia o nome “nomos” plural de “nomoi” e na mais remota antiguidade, concentrava a força mágica que é a origem da dinâmica de toda a música. Os núcleos “nómicos” nunca foram isolados em fórmulas específicas, mas parecem encontrar-se dissolvidos nas formações melódicas, às quais dão um carácter peculiar, e para os iniciados nelas, inconfundível…

A sua antiguidade era tão grande que, por tradição, se supunha que não haviam sido inventados por ninguém, nem ninguém tinha a possibilidae de inventar novos ”nomos”, já que eram de origem mágica. Na qualidade de padrões-tipo para as formações melódicas, entendeu-se que a palavra “nomos” era equivalente a lei; por assim dizer, o ”nomos” era o que regia a fórmula melódica e o que lhe dava o seu valor expressivo, mais tarde entendido como “ethos”. Numa época posterior e já durante a época histórica, entendeu-se como “nomos” a própria fórmula melódica na qual estava implícito (como força expressiva). Estas fórmulas foram desenvolvidas mais tarde em obras de composição, propriamente dita. Assim, Terpandro já no século VII utilizou para as suas composições “nómicas” as “nomoi” de Filámon, que eram fórmulas melódico-rítmicas nos cânticos sagrados que se dedicavam a Apolo no seu santuário em Delfos. “ (P. 269)

O mesmo autor refere-se a “ethos” nos seguintes termos:

O ”ethos” é a forma com que a força mágica do “nomos” trabalha na sensibilidade do ouvinte. Cada formação melódica baseada em determinado “nomos” estava dotada de uma força expressiva especial, que dependia do “nomos”, mas que se traduzia como um valor estético, exultante nuns casos, deprimente noutros…. O “ethos” é a extensão doutrinária da magia do “nomos”. Se o poder ”nômico” é uma virtude, o “ethos” é uma doutrina cujo fundamento descansa sobre essa virtude (capacidade, caráter, comportamento). O poder mágico do “nomos” e a estrutura melódica e rítmica deste eram fenómenos solidarios, um como forma de o exteriorizar o outro e de torná-lo presente; força sentida por todo o mundo, inerente e indissociável dessa estrutura.…. (Pg. 323-324).

O autor continua, dizendo que “o poder do “nomos” e o próprio “nomos” são a mesma e única coisa” confundindo a expressão ou temperamento (ethos) com a essência (nomos). Não concordamos com esta interpretação, com base na Teoria do Conhecimento de Platão, em que as Ideias são distintas das suas Sombras. Em nossa opinião, o “nomos” reflete claramente a ideia de um “modelo” ou “arquétipo”, enquanto o “ethos” ou “temperamento ” é já uma expressão num plano inferior da realidade.

A Doutrina Musical Pitagórica-Platónica

Os pitagóricos traduziram em termos filosóficos o antigo sistema musical simbólico a que fizemos referência. É evidente que não desenvolveram somente um sistema imaginado especulativo, mas também traduziram em termos racionais o conhecimento das chaves de uma harmonia inerente à natureza. Embora as fontes originais Pitagóricas sejam muito escassas, a compilação posterior das mesmas por Platão e outros filósofos gregos permite-nos compreender, pelo menos, alguns elementos dessa doutrina.

  1. A Harmonia é inerente ao universo, que é reconhecido como um “Cosmos” (sistema harmónico e por isso belo), um grande ser vivo que tem “Alma e Corpo”. A Harmonia Universal expressa-se de várias maneiras. Na numerologia simbólica, esta harmonia expressa-se através de “proporções simples” ou de números inteiros. Na música, essas proporções simples determinam os intervalos fundamentais: 2:1 oitava; 4:3 quarta; 3:2 quinta; 9:8 segunda. No Timeu, Platão faz referência a uma série numérico-musical (1, 2, 3, 4, 9, 8, 27) que corresponde a essas proporções fundamentais (Timeu, 35 b). Estas proporções foram usadas pelo Criador (Demiurgos, interpretado como “Ostes Criadoras”, por HP Blavatsky) para misturar “o uno com o outro”, e regem as relações da Alma com o Corpo (tanto a nível individual como universal, ou seja, as mesmas leis tanto regem o Microcosmo como o Macrocosmos).
  1. Numa chave de interpretação moral, os Pitagóricos ensinam que o homem deve aprender a descobrir as leis da Harmonia Universal e restabelece-las no seu próprio Ser. Por outras palavras, se considerarmos o Indivíduo como um composto harmónico de alma e corpo (ou mais precisamente várias faculdades da alma expressando-se através de várias corpos), a chave da perfeição moral consiste em respeitar estas proporções. O Individuo é como um instrumento delicado, com várias cordas, que devem ser sempre “afinadas” para colaborar activamente no grande concerto interpretado pela orquestra da natureza. Se o Homem não afina primeiro o seu próprio instrumento não poderá interpretar música alguma. Não importa quão bela seja a música ou até mesmo quão geniais sejam os seus intérpretes; sem instrumentos afinados não pode expressar-se a Harmonia, aquela Deusa que estabeleceu a supremacia de Apolo sobre Mársias.
  1. Já na teoria educacional de Platão, a Música desempenha um papel fundamental na formação da Alma do educando (República: Música e Ginástica). A Música reaparece no ciclo do estudo das “Ciências Propedêuticas”, verdadeira análise de Cosmologia a partir das suas raízes mais abstractas. A Aritmética fala-nos das relações entre os Deuses. A Geometria descreve as figuras geométricas ou várias combinações das três primeiras forças da Natureza (Timeu: Triângulos da Criação). A Estereometria estuda os corpos geométricos regulares, ou seja, os arquétipos geométricos dos planos da Natureza manifestada (Timeu: poliedros regulares).

Finalmente, Platão menciona a necessidade de estudar Astrologia e Música. Numa enigmática passagem da sua República, menciona que os Pitagóricos relacionavam a Astrologia com a Vista e a Música com o Ouvido. Esta passagem, que nos pode parecer fútil, tem implicações subtis. Velhas tradições falam de um desenvolvimento progressivo dos sentidos no Homem. Cada novo sentido permitiria ao ser humano a descoberta de novos ângulos do complexo espectro da criação.

Por outras palavras, o desenvolvimento do ouvido e a compreensão intuitiva das leis da Música relacionam-se com a evolução psicológica do Homem. Esta interpretação não parece ser apenas nossa. Na sua República, Platão refere directamente a influência que a música exerce sobre a Alma. Por isso, certos “modos musicais” decadentes que afetam negativamente as estruturas subtis da Alma, devem ser proibidos. Essas ideias que pareciam estranhas num passado recente reapareceram hoje sob nomes diferentes. Hoje fala-se sobre “manipulação psicológica” ou o efeito que sobre a psique exerce, por exemplo, a “música satânica” (uma forma de “rock pesado”, em que se misturam ritmos, sons, imagens e mensagens verbais subliminares).

São alguns exemplos de uma velha tradição filosófico-musical no mundo grego. Infelizmente, os estudiosos interpretaram esta tradição simplesmente como uma forma de especulação filosófica (ou seja, uma opinião entre muitas outras), e não como uma verdadeira Ciência, independente das opiniões e preconceitos de seus intérpretes. Devido à falta de fontes originais escritas (por exemplo, os tratados musicais dos pitagóricos), acreditamos que o estudo dessas formas de arte podem revelar algumas das chaves perdidas. Como exemplo, podemos mencionar os estudos geométricos sobre o Pártenon que revelaram um avançado conhecimento de óptica psicológica e o extenso uso de ideias geométricas como o Número Áureo e o Pentágono; também os estudos sobre as proporções da Cerâmica clássica grega (Jay Hambidge).

Outra importante fonte são os vestígios arqueológicos da Cultura Egípcia, onde os gregos provavelmente aprenderam as Matemáticas e a Música. (como referência mencionemos os estudos geométricos da arquitetura egípcia de Schwaller de Lubicz)

Conclusão:

Para finalizar este breve artigo, queremos mencionar possíveis enfoques para um estudo do simbolismo musical na Antiguidade. Para isso, seguimos o guia de vários autores clássicos e alguns comentaristas modernos.

 

A Música e os Elementos

Toda a antiguidade do Oriente e do Ocidente fez referência a um número finito de Elementos ou Princípios da Natureza. A tradição oriental colocou ênfase na ideia de Cinco Elementos e a tradição ocidental em Quatro (Terra, Água, Ar e Fogo). Portanto, poderíamos classificar diferentes tipos de música de acordo com estes elementos primordiais. Isto não é arbitrário. Por exemplo, sabemos dos alaúdes árabes, em que as diferentes cordas se relacionavam com diversas cores, Elementos e inclusive humores (os quatro humores são uma forma de aplicação médica da Teoria dos 4 Elementos).

Música de Terra: ruídos (predomínio do elemento caótico)

Música de Água: música da Natureza (por exemplo, rios, vento.)

Música de Ar: música emocional ou “humana”

Música de fogo: o poder mágico do som (por exemplo, mantras.)

 

Música e Astrologia

Por extensão poderíamos relacionar a Música com os signos da Astrologia (que contêm em si os 4 Elementos). Os signos relacionam-se com cores, planetas, símbolos animais e vegetais e outras múltiplas expressões naturais e simbólicas. Como exemplo desta abordagem, podem-se mencionar os estudos de Marius Schneider.

 

Arquivo Nova Acrópole


Bibliografia:

Platão, Obras Completas (especialmente “Timeu” e “A Republica”

Curt Sachs, La Musica en la Antiguedad, Editora Labor. Barcelona: 1927

Marius Schneider, El Origen Musical de los Animales-Símbolos en la Mitología y la Escultura Antiguas . Monografias: Consejo Superior de Investigaciones . Cientificas. Instituto Espanhol de Musicologia . Barcelona: 1946

Adolfo Salazar, La Musica en la Cultura Griega, El Colegio de Mexico. Mexico: 1954

Elisa Maillard, Les Cahiers du Nombre d’Or: Le Parthenon. Tournon & Cie, Paris 1968

Ernest McClain The Pythagorean Plato. Nicolas-Hays, Inc. . York Beach, Maine: 1978

 

Nota: Todos estes textos fazem parte da biblioteca da Nova Acrópole de Boston

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