Em primeiro lugar, o que nos chama a atenção neste quadro é o esquema da pirâmide invertida. O vazio que ocupa o centro. Um vazio escuro, mitigado pela luminosidade que emana das personagens que ocupam os cantos: a Guerra e a Sabedoria. Em cima, um escudo protege-os. E quase no vértice da pirâmide invertida, a mão de Platão faz de contraponto, assim como a do guerreiro. A mão que enfatiza as palavras sábias face à quietude inanimada do escudo.

À esquerda, o guerreiro ouve o sábio. O gesto sério. Não abandona as suas armas: apoia-se naquilo que pode ser o seu próprio escudo, porque vemos o umbo; agarra a lança, mostra a espada e sujeita-a, e cobre-se com o capacete. Está preparado para a luta, mas também escuta atentamente Platão, o sábio, que do canto oposto lhe fala. E que leva na mão a sua própria arma, a sabedoria escrita.

As mãos dos dois também se contrapõem: a lança numa, o rolo escrito na outra; a que agarra a espada, a que se abre em diálogo.

Também se opõem as cores dos mantos: o vermelho da guerra e o azul celeste da paz.

Sobre o sábio, ditando-lhe as suas palavras, a Inspiração, alada, coroada com o loureiro da vitória, porque será a vitória para aquele que transmite a paz.

Como em todos os quadros, há algo de enganador: o capacete do guerreiro. Polido, reluzente, reflecte um ponto de luz que nos atrai o olhar. Porquê? Porque a parafernália da guerra, dos guerreiros, tem algo que nos subjuga, que é belo e que nos faz esquecer de que traz consigo sangue e dor. Por isso olhamos primeiro para ele, infalivelmente, o herói das batalhas clássicas.

O sábio, por seu lado, aparece num plano mais baixo, sem nada que o destaque, que atraia o nosso olhar.

Porque a sabedoria está geralmente mais oculta, há que buscá-la, não chama a atenção dos sentidos. Há que deter-se para ver a mão que nos chama. Que é precisamente o centro da composição.

A mensagem está clara.

 

M.ª Ángeles Fernández

Em Esfinge, Abril 2014