«Tão certo como a representação visível age mais poderosamente que a letra morta e a fria narração, também o teatro age mais funda e duradouramente que a moral e a lei.»

Schiller, in Teoria da Tragédia

«A tragédia é uma mimesis da acção, elevada e completa, dotada de extensão, numa linguagem temperada, com formas diferentes em cada parte, que se serve da acção e não da narração, e que, por meio da comiseração e do temor, provoca a katharsis de tais paixões.»

Aristóteles, in Poética

Teatro grego, com origem no séc. VI a. C. e apoteose no séc. V de Péricles, surgiu como uma exoterização de uma parte das representações dramáticas e da sabedoria dos mistérios. Começou indissociavelmente ligado a Elêusis e aos ritos dionisíacos. Esta faceta litúrgico-estética do Teatro como veículo transmissor da sabedoria mítico-esotérica de modo supra-racional é praticamente comum a todas as civilizações de cariz iniciático. Na Índia, há referências a um teatro hindu no 2.º milénio a. C. e no Egipto, que tanta influência exerceu sobre a Grécia, o arqueólogo francês Drioton encontrou textos dramáticos de grande beleza relacionados com o mito de Hórus que remontam ao séc. XXV a. C.. Na evolução do teatro helénico surgiram a tragédia, o drama e a comédia, géneros teatrais que, de alguma forma, se relacionam com três dimensões a que o estado de consciência do ser humano pode aceder: a vivência mistérico espiritual (tragédia), o drama humano e a comédia do efémero. Daremos destaque à tragédia, através da qual se expressaram os três grandes génios do Teatro grego Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.

«A essência da Tragédia grega é o provocar a vivência interior no espectador.»

Jorge Angel Livraga, na sua obra A Tragédia Grega, sintetizou a sua emergência: «A Tragédia, cuja denominação provém dos mistérios eleusinos (de tragos «bode» e ode «canto»), surge espontaneamente de narrações épicas relacionadas com Dionísio-Baco. Téspis, contemporâneo de Sólon [séc. VI a. C] foi, pelo que sabemos (e ignoramos) quem deu acção aos factos relacionados com um hino, estabelecendo um diálogo entre um actor e o coro em geral, que bailava, cantava e às vezes se detinha frente a um altar. Pouco a pouco acção foi-se complicando, o número de actores aumentou e adoptaram-se velhas máscaras mistéricas providas de uma buzina que mudava e potenciava a sonoridade da voz humana. Apareceram trajes especiais, enchimentos, coturnos ou tamancos altos, tablados e aparelhos cénicos, que deram ao conjunto a natureza de uma representação apta para o público culto. Frínico, Prátinas e Querilo aperfeiçoaram estas artes até que Ésquilo (…) deu à luz a verdadeira Tragédia como género teatral. Ésquilo viveu, aproximadamente entre 525 e 456 a. C. As suas concepções foram grandiosas e, em alguns aspectos, francamente insuperáveis. Seguiram-se-lhe Sófocles (498-406) e Eurípedes (480-406) completando o melhor da tragédia grega».

A essência da Tragédia grega é o provocar a vivência interior no espectador (que assim se torna também num partícipe nesta «cerimónia iniciática», porque transformadora) em que, mais do que a razão, são o sentimento, a intuição e a percepção simbólica que se põem em movimento numa experiência que desperta a consciência para a mecânica profunda da Natureza invisível, a Ordem Cósmica que rege o Universo. Abre-se perante a consciência a visão do funcionamento da Diké (lei de justiça e compensação, lembra os conceitos de Dharma e Karma dos hindus) e das consequências da hybris (os «excessos» que conduzem à até, a cegueira mental).

Ésquilo, através das suas técnicas dramáticas, da dança, música, e de uma série de efeitos especiais (criava-se o barulho dos trovões, abriam-se portas silenciosamente, «deuses» desciam por cordas invisíveis, etc.) conseguia provocar uma espécie de «terapia de grupo» na assistência, uma catarse (katharsis: purificação) colectiva com poder alquímico, transmutador.

A essência artística da Tragédia grega inspirou muitos dos futuros génios do Ocidente tais como Shakespeare e Wagner, cujas obras mantêm o mesmo po­der da transmissão da tradição mítico-esotérica.

«Prometeu Agrilhoado»

O Prometeu Agrilhoado de Esquilo é provavelmente a tragédia grega de conteúdo mistérico mais profundo. Foi a única peça que se conservou duma trilogia que incluía o Prometeu Liberto e Prometeu Portador do Fogo.

Os seus simbolismos foram analisados por Jorge Angel Livraga na obra supracitada: «A tradução literal da palavra Prometeu é ‘aquele que prevê’, ao contrário de seu irmão Epimeteu, ‘aquele que pensa depois’. (…) Blavatsky relaciona Prometeu com os Pitris Agniswatas ou ‘Pais do Fogo’, pois, segundo a antiga tradição por ela compilada, Prometeu representa uma onda de seres divinos que, apiedados pela condição humana desprovida de uma mente que lhe possibilitasse o acesso aos planos superiores da consciência, ‘rebelaram-se’ (como num outro mito, o bíblico, o faz Lúcifer, o ‘Portador da Luz’ e, por isso, foi precipitado nos abismos e é reconhecido como o ‘Anjo Caído’) contra o Destino que só havia dotado a humanidade com o que, na verdade, lhe correspondia na escala evolutiva: a mente concreta (o kama-manas hindu), e ‘roubaram’ para ela a ‘centelha’ da Mente. (…)

O Mito de Prometeu – que insistimos, não se entenderá se não for relacionado com o de Pandora, a sua caixa e a abertura que dela fez Epimeteu –, é o mito da descida da Mente superior no homem e pertencia aos mistérios. Nunca tinha saído para o exterior, senão como imagem piedosa popular. Esquilo divulgou-a por inteiro, através duma tragédia, a todo aquele que quisesse conhecer.»

 

Paulo Alexandre Loução