TEBAS – O Mistério da Constituição Interna da Natureza e do Homem

Autor

Jorge Angel Livraga

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(extrato do livro Tebas, de Jorge Ángel Livraga)

Todos os povos da antiguidade regeram-se por uma Instrução Esotérica sobre a constituição interna, visível e invisível, do Universo e do Homem.

Se entre as distintas opções que temos para interpretar o porquê da grande semelhança que subjaz em todas essas antigas Civilizações escolhermos um Ensinamento Tradicional que refere uma origem comum da Humanidade e uma Instrução comum a todos os povos, encontramo-nos com o facto de que todos consideraram o Homem como uma parte da Natureza – e por parte não entendemos um fragmento mas sim algo constitutivo que a integra e a explica. Assim podemos pôr um pouco de luz no que, de outra maneira, nos pareceria um absurdo teológico.

Da velha Tebas e do Egipto em geral vamos extrair alguns elementos simples mas esclarecedores.
Primeiramente queremos deixar bem claro que os antigos Mistérios jamais foram do domínio público, antes sim, a sua administração estava a cargo de Confrarias Sacerdotais que tinham compreendido que o homem comum necessita de religiões exotéricas, com fáceis ensinamentos sobre prémios e castigos que recompensam e penalizam as suas acções. Os Ensinamentos Secretos são altamente perigosos se se enca-ram com uma visão simplista; portanto foram “traduzidas” para a compreensão popular segundo as necessidades geopolíticas e espirituais de cada momento da Humanidade.

De modo que, salvo um denominador comum ético-espiritual, são distintas as concepções formais de um grego das de um chinês, as de um maya das de um egípcio. Tão pouco são as mesmas nas religiões que permanecem na actualidade; não são totalmente iguais as recomendações de um hebreu, de um cristão, de um budista ou de um muçulmano. Mas se aprofundarmos vamos encontrar uns Valores Permanentes, poderemos assim chamar, que são iguais em todas elas. Estes não diferem daqueles que possuíam os povos antigos nem dos que, provavelmente, alentarão os povos futuros. O que se re-nova é a apresentação pois, sendo os homens criaturas volúveis que ainda estão numa fase de infância espiritual, necessitam de mudanças periódicas nas formas e nas cores para continuar o jogo da vida.

Mal poderia um Moisés, se quisesse converter uma tribo nómada num foco irradiante de cultural espiritual, dar uma mensagem eclética pois o tribal primava entre os israelitas e necessitavam sentirem-se separados dos outros povos para unirem-se entre si. Se Jesus Cristo quis formar uma nova forma de vida – o que os primitivos Padres da Igreja chamaram um Homem Novo – teve que promover um rechaço ao aumento dos poderes efectivos do Império Romano que, já embriagado de glória, tinha chegado a adorar-se a si mesmo não como meio – à maneira augusta de um “Pelo Império até Deus” que sintetizou no seu próprio apelido de Augusto, até então apenas reservado a Júpiter – mas sim como culto maquinal dos atributos acima do Ser. Assim, os seus seguidores ajudaram à desintegração de um mundo para que nascesse outro. E um Maomé, para terminarmos com os muitos exemplos, teve que infundir no explosivo povo árabe o culto à Guerra Santa, a conquista de um espaço vital como expressão do espiritual, ao mesmo tempo que evitava doenças como a triquinose convencendo-o de que o porco é um animal impuro.

As religiões exotéricas ou populares têm essa dupla virtude: a de elevar espiritualmente o homem para além dos meios empregues e a de obter uma higiene nas suas mentes e nos seus corpos.

O esotérico é diferente, não naqueles mencionados Valores Permanentes, mas sim nas suas preocupações; pois trabalha-se com pequenos grupos de elite naturalmente preparados (quer se aceite a reencarnação ou a simples Graça de Deus) para abordar temas profundos sem que as mentes se desengoncem com a visão e entendimento dos chamados Mistérios.

No Egipto em geral, e em Tebas em especial, existiam os dois extremos: uma religião exotérica para o povo que, sem problematizar, oferecia a felicidade aos bons e a infelicidade ou a destruição aos maus e um Colégio Sacerdotal que se dedicava à Investigação Sagrada. O que é verdadeiramente notável é que no velho Kem conseguiu-se manter durante milénios de maneira aceitável ambos os sistemas sincronizados através de inumeráveis matizes. Salvo a “heresia” de Akhenaton, jamais existiram confrontos importantes, e mesmo esta foi passageira.

Vejamos como se reflectiam estes Mistérios externamente. Tomaremos como exemplo a Constituição Septenária da Natureza e do Homem.

Se aceitarmos o velho princípio de que o Homem é a chave da Natureza, como recolheu acertadamente o aforismo de Protágoras “o homem é a medida de todas as coisas”, vamos começar pela concepção da Escola de Tebas acerca da constituição do Homem.

Do comummente denominado Livro dos Mortos (por ter-  -se encontrado associado às múmias, em pinturas murais, vendas de linho real e papiros) e cujo nome mais correcto seria Livro da Oculta Morada, reproduzimos a versão do Papiro de Ani, afortunadamente depositado e magnificamente exposto no British Museum, numa das suas tardias mas mais claras versões. Aí, a figura central é constituída por uma balança junto à qual o Deus de cabeça de chacal, Anubis, guardião e protector dos mortos dedica-se a pesar o Coração do defunto para comprovar se é tão leve como a Pluma de Maat, a Justiça, que aparece no prato oposto. No extremo direito aparece o Deus Thot, que representa a Lei Universal, a Sabedoria e a Arte de Curar os vivos e os mortos, sob a forma de um homem com cabeça de pássaro íbis; numa tabuinha de cores e com um pincel vulgar anota os pormenores do Juízo. Junto a ele está o Monstro-que-devora-        -corações, uma representação do Caos onde caiem os perversos. À extrema esquerda, uma figura de mulher com o Sistro de Ísis, a Deusa Mãe, acompanha a outra figura que simboliza o próprio Espírito daquele que é julgado e que, na sua prístina Presença, tem o tamanho dos Deuses.

Seguidamente descrevemos as “partes” integrantes do Homem, aqui representadas com pedagógica claridade.

1)      Imediatamente debaixo da barra horizontal da ba-lança vê-se uma pedra quadrilátera, na realidade um cubo achatado, coroada apenas por uma cabeça humana. É o CHAT ou KHAT, a matéria do corpo físico que em vida esteve coroada pela cabeça ou inteligência, com aparência humana. É inerte, um simples troço de matéria, um “tijolo” do Universo ao qual retorna sob essa forma como simples matéria-prima que um dia teve aparência humana. É a Pedra Cúbica cuja descrição chegaria até aos Alquimistas do Renascimento europeu, numa das suas chaves.

2)      Pendendo do extremo esquerdo da vara horizontal da balança, sob as cordas que formam um triângulo ascendente, vê-se uma Tinalha vermelha ou um Coração. É a re-presentação da energia vital que dá movimento ao corpo físico ou simplesmente a vida que o defunto viveu. Entre os seus nomes seleccionamos o de ANKH que se corresponde também com a Chave da Vida, figura esquematizada de um homem com um triângulo invertido por cabeça, que às vezes está pintada de vermelho para reforçar o seu sentido de portal de comunicação entre o visível e o invisível.

3)      Entre o mencionado prato da balança que sustém o Coração e a coluna vertical do instrumento vemos uma figura humana que é o Duplo, o KA, sede dos sentimentos, veículo do Espírito feito à sua imagem e que, por sua vez, deu forma ao corpo físico através da vida. Está em atitude de caminhar porque pode andar, trasladar-se como um fantasma luminoso e pode ainda responder pelo próprio Homem soli-citando justiça. Ele comparece ante os Deuses e também ante os homens quando por suas virtudes não conseguiu os Caminhos do Céu, condenado então a vaguear por um tempo na Terra. Iremos ver que na mumificação tomavam-se medidas para que isto não ocorresse.

4)  e 5)    Um par de figuras humanas femininas que, entre outros, recebem o nome de AB e BA. São as que, no papiro, estão situadas à esquerda do prato da balança que sustém o Coração. Costumam mostrar-se uma despida e a outra vestida ou então uma com um vestido muito simples e o da outra muito recamado. São as duas partes da Mente Humana: uma superior, despida de vaidades e a outra inferior, em íntimo contacto com as pluralidades da manifestação. AB é a parte de complexas estruturas onde surgem as ideias-desejos, sede da astúcia e do egoísmo especulativo. BA é, pelo contrário, a sede das Ideias Puras, as que podem elevar-se por cima das coisas do mundo terreno; recebe a Luz Superior a partir da sua pequenez humana. É o Eu-mental, a consciência da existência individual. Mas a imperfeição humana ainda as mantém unidas, uma próxima da outra, como se fossem irmãs gémeas. BA é o Lugar Escondido, a Câmara a partir de onde se espera a Ressurreição Espiritual.

6)      Esta Ressurreição Espiritual representa-se por um Pássaro – nas figuras tebanas mistura de andorinha e de falcão – e com cabeça humana. Em Mênfis era representada pelo Fénix ou Pássaro da Ressurreição. Um dos seus nomes, em Tebas, é AKHU ou CHEYBI e simboliza a Intuição das Coisas Sagradas. Numa chave é a Alma, a parte Espiritual Luminosa que origina a Magia Branca, a dos Prodígios, a das Santidades. Tem a propriedade de poder pousar, tal como a vemos no papiro, sobre o topo das coisas concretas e também, pela sua condição de pássaro, de deslocar-se e voar até às alturas da Outra Terra, o Quadrado Mágico alumiado por Amon ou a Luz Espiritual. Essa Outra Terra é a Mansão dos Bem-Aventurados, o Amen-Ti, literalmente A Terra de Amon, ou melhor, O País de Amon ou A Grande Casa de Amon que é perfeita e estável.

7)      Finalmente está a grande figura da esquerda, à frente da representação isíaca, a Grande Mãe: é o Espírito Osirificado, ATMU ou SAHU. É o Homem com possibilidade de recuperar a sua perdida estatura de Deus, de ser Osíris-Ani, o Deus-Homem. É o Máximo Mistério, a Causa Espiritual do próprio Homem. É o que permanece invariável através das reencarnações e das diferentes formas que a Magia Natural obriga o Homem a ter ao longo do seu cami-nho humano e cósmico.

No plano superior aparecem vários Deuses sentados nos seus Cubos Perfeitos, com os seus atributos, todos eles providos do WAS ou bastão para andar no Invisível, que para os humanos é a “obscuridade”. Este bastão é um atributo relacionado com Anubis e está rematado com uma esquematização da sua cabeça; a sua base abre-se em duas partes que re-presentam as patas do Ganso, as que podem caminhar sobre a lama, vencer o barro do caos, os Inimigos, a Necessidade de Alimento.

Em Tebas, como em todo o Egipto, estes Sete Princípios estavam também representados nas características gerais dos Templos. E visto que os Templos eram simultaneamente as mansões dos Deuses e dos homens que queriam chegar novamente a ser Deuses, o esquema é semelhante. Os Templos cumpriam outra função nas suas secções mais externas; eram lugares de reunião dos paroquianos e, segundo as festividades, variava a participação do povo.

Tentaremos deixar claro – ou pelo menos dar a nossa versão recolhida de fontes antigas e sem mais interpretações – que no Egipto, ao contrário do que hoje se crê, os Sacerdotes, fossem de grau que fossem e descontando as falhas humanas que sempre existiram, existem e existirão até ao final do tempo, não eram pais-opressores do povo mas sim Pais no verdadeiro sentido da palavra e no seu aspecto espiritual. A chamada “luta de classes” é uma invenção intelectualizada dos séculos XVIII-XIX e que no XX converteu-se num dogma.

Não existem as “classes”, existem as diferenças como as que há entre uma criança, um ancião, um homem, uma mulher. E de uma forma, que por ser humana há-de ser sempre imperfeita, existem o Amor e a Religiosidade, a Mística Viva que os relaciona a todos potenciando-os entre si. Para o Egipto, o Mundo não estava imóvel mas sim em movimento e procurava-se que essa movimento fosse adiante, para cima, oferecendo a todos uma maior capacidade de cada um perceber o seu próprio Eu e fazendo com que todos participassem da melhor maneira nesta aventura maravilhosa e tragicómica que é a vida na Terra.
Quando um homem se ajoelhava ante um Sacerdote ou punha a fronte no pó diante de um Faraó não o fazia como pessoas poderosas mas sim àquilo que representavam… ulteriormente Deus, a Coroa Sagrada dos mesmos que se ajoelhavam ou prostravam. Em tudo isso existia coisas que hoje já quase se esqueceram: Devoção, Humildade, Bondade, Amor.

Como entre os incas e tantos outros povos do passado, no Egipto “histórico” tudo o que se produzia dividia-se em três partes: uma para o próprio produtor, a outra para o Estado-Faraó e uma terceira para o Estado-Sacerdócio. O que nos impacta primeiro é o facto de alguém poder viver com um terço do que produz… mas nos anos em que isto se escreve não teria que espantar ninguém pois há milhões de homens que vivem comodamente sem produzir nada. Por outro lado não é justo inventar pobrezas ao povo egípcio pois possuíam tudo o que fosse basicamente necessário, coisa que hoje não podem dizer cerca de mil milhões de pessoas.

Mas quando chegavam os anos de seca ou as guerras de fronteira impediam os homens de semear ou colher a tempo… então, como por arte mágica, conectavam-se enormes receptáculos de água ao Nilo, ou repartia-se o acumulado no Celeiros de Amon.

Assim, a anterior dádiva tinha-se convertido numa forma de aforro, salvo as riquezas empregues em obras públicas ou na manutenção dos mecanismos do Estado, coisa que tão pouco deve espantar demasiado os que vivem nos finais do século XX. Ao reafirmar que no Antigo Egipto não existiam escravos queremos dar uma imagem mais aproximada da realidade do que a fantasia, mais ou menos “cinematográfica”, que se tornou popular sobre a exploração feita por uma minoritária elite que aproveitava a superstição e ignorância de um povo que obedecia rangendo os dentes e sonhando reivindicações sociais. Lamentamos se estes esclarecimentos atingem as crenças de alguns leitores… mas é lógico que algum dia se diga às crianças que não nasceram de um repolho.

As mentiras, às vezes necessárias, têm como todas as coisas um tempo limitado de vida.

Não podemos usar em concreto um Templo para explicar o simbolismo das suas partes, pois as ampliações e as reparações que sofreram essas colossais obras através dos milénios tornam-nas confusas para a simples observação que agora pretendemos, pelo que exemplificamos com um tem- plo-tipo de Tebas, simplificando as suas estruturas ao essencial e original.

O Templo, imagem do Universo nesta e noutras crenças, tinha deste modo sete partes fundamentais.

1)       O Caminho de acesso, que às vezes é uma avenida ornada de esfinges e outras de carneiros solares ou de simples monólitos. Representam o físico, as coisas imóveis mas atentas que sugerem com a sua atitude o caminho que conduz ao Templo propriamente dito.

2)      O ou os Pilões: representam os pórticos que, ao mesmo tempo, unem e separam o mundo humano do mundo divino. É o acesso ao Sacro, com os seus grandes planos que reflectem vitalmente a Luz Solar e os seus extensíssimos ga-lhardetes que flamejam no alto, em postes adossados aos muros exteriores, como as línguas do Verbo que exprimem a vida e o movimento incessante.

3)      O Pátio aberto ao ar livre rodeado por numerosas colunas que contêm nas suas talhas e cores as diferentes cenas da vida com as suas emoções, os seus triunfos e as suas derrotas.

4)      A Sala Hipóstila, geralmente pequena e recolhida, com jogos de luz e sombras que exprimem a duplicidade de uma ponte entre o exterior e o interior. Ao fundo é fechada por um muro com uma porta comparativamente estreita. Para além está o Mundo do Mistério.

5)      A Sala da Barca, onde efectivamente se guardava uma barca ritual, às vezes dentro de um templete brilhante de pedras muito polidas. É o veículo para a mudança de dimensão pois já não aparecem as pesadas e volumosas grandezas da vida manifestada. Decorada com figuras de Deuses, permite navegar no Nilo Azul do Céu Estrelado. Estava frequentemente velada por cortinas semi-transparentes e em seu redor ardiam incenso e resinas várias nos piveteiros para dar a sensação de águas voláteis impregnadas de magia e mistério. Na realidade, num lugar subterrâneo do Templo guardava-se outra barca, mas por agora não é ocasião de falar sobre ela.

6)      Aquele que poderíamos chamar Santuário, lugar posterior, escondido, como uma cripta iniciática banhada pela Luz Solar. É o Lugar Santo onde se realizavam os Recônditos Ritos. Como complemento, ao fundo e lateralmente tinha capelas relacionadas com diferentes cerimónias, com a sacra- lização dos objectos consagrados e com os compromissos de Servir a Deus. A partir daí, a Alma mesmo que estivesse encerrada num corpo, ou melhor, nele aprisionada, elevava-se livre e poderosa na plenitude da sua imortalidade consciente.

7)      As Aberturas no tecto, geralmente tronco-cónicas negativas, deixavam passar os raios do Sol em determinados momentos e tinham o poder, dado a sua colocação, de iluminar em distintas horas as imagens de diferentes Deuses ou lugares específicos no solo, tal como os trabalhos que milénios mais tarde se fariam nos vitrais das catedrais góticas para iluminar signos escondidos nos pisos.

Este esquema básico complementava-se com diferentes capelas e templetes. O Faraó e os seus dignitários não entravam no Templo pela porta de pilones mas sim pelo lado esquerdo do Templo, directamente na Sala ou Pátio para receber a devoção e carinho do seu povo sumido em reverente silêncio.

Também existiam os subterrâneos e outros templetes nos terraços da parte posterior do Templo.

O Templo, geralmente, quando estava em harmonia com esta disposição tipicamente tebana, apresentava os seus tectos cada vez mais baixos à medida que se avançava, à seme-lhança da Caverna Primordial. Salvo os Sumos Sacerdotes que viviam nos subterrâneos, os Sacerdotes faziam-no em construções próximas do Templo, em habitações semelhantes a celas. Lagos sagrados, jardins encantados e obeliscos cobertos no topo com “capas” de oricalco (electrum chamaram os gregos a esta liga que hoje nos parece impossível pelas suas proporções entre o ouro e a prata com mais algum metal ultra-pesado) que deixavam ver mais abaixo do piramidon certos hieróglifos, completavam o conjunto.

Os Templos, como as pessoas, viviam em famílias. Assim, estavam unidos uns aos outros por avenidas, como no caso do Templo de Karnak com o chamado de Luxor, ou por “caminhos” na água do Nilo. Também existiam passadiços subterrâneos dos quais quase nenhum se conservou pois foram em grande parte tapados pelos últimos Sacerdotes, e os restantes permaneceram sepultados entre os escombros ou sob as areias e aluviões de cascalho.

Visto que as casas eram de um só piso e excepcionalmente de dois e não tinham mais ornamentos exteriores, estes colossos arquitectónicos poderiam ser vistos de muito longe, com as suas pedras tão polidas e coloridas, os seus galhardetes e as suas portas de madeiras e materiais preciosos.
Está em projecto uma interpretação geodésica das loca-lizações das famílias de Templos egípcios tal como já se fez com as dos mayas.

Outro elemento a referir são as Bibliotecas que também se encontravam nos Templos e nas suas dependências. Aí, em pedras, tabuinhas e papiros guardavam-se não só histórias mas também meticulosos registos de todos os fenómenos naturais. Os mesmos muros e tectos dos Templos costumam guardar enormes quantidades de dados astronómicos, históricos, teológicos, mágicos, etc.

Os papiros são relativamente tardios. Fabricavam-se artesanalmente a partir do talo de secção triangular de uma planta, seleccionadas as suas fibras, macerando-as e entrecruzando-as até transformar o conjunto numa espécie de papel muito forte e rugoso, óptimo para a escrita e o desenho a pincel fino. Ainda hoje, nos arredores do Cairo, mostra-se a quem queira vê-lo como se fabrica um papiro, no entanto os modernos não competem em qualidade com os antigos, alguns dos quais, inclusive, estavam tratados com cera de abelhas e pó de talco finíssimo.

Os papiros mais importantes guardavam-se, inclusive em épocas da Biblioteca de Alexandria – como se comprovou no primeiro incêndio – sob cobertores de um material incombustível que poderia ser fibra de pedra de asbesto. A própria Cleópatra chegou a queixar-se de que os seus antepassados (referia-se na realidade aos egípcios e não aos gregos) não tinham protegido todos os papiros com essas capas pois se o tivessem feito o incêndio não os teria afectado… Um segredo mais que o Egipto levou consigo pois não chegaram até nós ou não sabemos hoje reconhecer esses formidáveis protectores. E dos papiros ficaram milhares de fragmentos apesar de muito poucos inteiros ou que não tivessem sido reutilizados em tempos muito tardios para as tarefas quotidianas de contabilidade e correspondência.

Julgamos necessário dizer que, relativamente aos antigos papiros importantes que se guardavam nos Templos, não servem para a sua leitura unicamente os variados tipos de hieróglifos (muitos dos quais não se podem ler) mas sim também as cores em que estão pintados. Também existiam numerosas chaves baseadas nas leituras de grupos salteados ou de progressão inversa. Mesmo nos simples selos dos escaravelhos existem frases e ensinamentos secretos com que se torturam, geralmente em vão, os especialistas.

Jorge Angel Livraga
Fundador da Nova Acrópole

Extracto do Livro TEBAS – A Outra História do Egipto

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