Quando cai o mundo clássico na Europa, um dos muitos pilares que se aprofunda é o do conhecimento científico. E o modo de enfrentar este recurso do homem não voltou a ser o mesmo por parte da comunidade científica. Perdido o subtil equilíbrio entre a conceção intangível da realidade e o aspeto material da mesma, no Renascimento começa um caminho de construção e reedição da interpretação científica da Natureza, que a diferencia do momento de esplendor anterior (não só grego, mas também egípcio e mesopotâmico em épocas ainda mais antigas), vai-se entrelaçando desde uma visão materialista e fenoménica da realidade.

Surge um modo de ciência que estuda o fenómeno, que analisa e aprofunda os elementos materiais da realidade, que estabelece relações que podem constatar-se mediante uma medida, e que podem refletir-se numa formulação matemática. Uma das grandes diferenças com o modelo científico anterior (que o houve) escrevia precisamente na maneira de descrever as relações entre os elementos de qualquer sistema natural, seja um sistema ecológico, um sistema físico ou um sistema biológico. A maneira e as circunstâncias em que se relacionam os dois ou mais elementos servem para explicar a realidade e o fenómeno que acompanha a dita relação.

No mundo clássico, e mesmo no anterior, a relação entre a parte A e a parte B podia ser material, constatável mediante uma verificação física (a parte A une-se com a parte B por tal ponto), mas também considerava-se a possibilidade de outro tipo de relação ou vínculo que não podia comprovar-se fisicamente (intangível) e que podia influenciar decisivamente no fenómeno. Neste caso, a correspondência destacava-se utilizando a analogia.

O modelo científico reducionista

Com a separação científica que se levou a cabo depois do Renascimento, o objeto de estudo reduz-se ao âmbito material. Toda a maravilhosa perfeição com a que está configurado o Universo, incluindo o homem e o resto dos seres vivos, pretende-se explicar mediante o estudo dos elementos materiais que se unem e relacionam. A influência do racionalismo cartesiano, o desenvolvimento da matemática e a sua aplicação à física, criam e consolidam a ideia de que tudo funciona com se de uma máquina se tratasse. O devir e a sua direcção são cegos, sem a aportação subjetiva de nenhum deus. Tudo está sujeito à aplicação de leis físicas, que podem formular-se matematicamente. Se não se conhecem na sua plenitude, é só uma questão de tempo. O mundo e o seu conteúdo biológico ou inerte não são fruto da vontade de nenhum deus. Tudo surgiu e funciona segundo um critério mecanicista. Tudo funciona como uma máquina, cega, sem fim algum, salvo o cumprimento dos princípios físicos.

Desta maneira, o impulso científico posterior ao Renascimento dá andamento a uma interpretação redutora da Natureza e do Cosmos. Só há um princípio, e esse princípio é material, sujeito às leis da física, que podem formular-se, e portanto, conhecer-se e prever-se. Esta conceção é, além de redutora, determinista, uma vez que tudo seria factível de ser determinado, sem possibilidade de uma livre eleição. E se não se pode conhecer o resultado de qualquer fenómeno é porque faltam dados, falta um desenvolvimento matemático adequado. Mas desde a teoria desta forma de considerar o Universo, não seria inviável determinar qualquer situação, pois inclusivamente, o azar pode abordar-se desde o ponto de vista da estatística e do cálculo das probabilidades.

A mais imediata consequência desta ciência reducionista e determinista é o afastamento de qualquer postura teísta ou simplesmente metafísica, que pode interferir nos processos físicos. Em segundo lugar, a aplicação científica deriva para a engenharia e a fabricação de máquinas que ajudam a obter os recursos naturais, reafirmando a ideia de uma Natureza ao serviço do homem, e por analogia, a nível social, uma Humanidade ao serviço do Ocidente, que possua essa tecnologia e a orientação de como usar a dita técnica.

Na antiguidade, a aplicação científica derivava para uma técnica, mas também para um conhecimento da ordem natural que também tinha a sua aplicação direta na vida quotidiana. Este conhecimento da ordem natural conjugava-se com a religião e a filosofia, inclusivamente com a arte, e dependendo do nível ético, servia para manter oligarquias político-religiosas, ou para facilitar um objetivo moral ao ser humano, de acordo com o funcionamento do Cosmos.

A primeira ciência com um marcador de carácter mecanicista foi a física. Começa-se a desenvolver uma física explicativa da dinâmica, movimentos, forças, etc. E a aplicação imediata, o desenvolvimento de máquinas eficazes, constata que se vai pelo bom caminho. Desta maneira, para todo o Universo busca-se a explicação mecanicista.

Posteriormente, a química segue os passos da física, com a descoberta das moléculas como unidades materiais que sustentam os fenómenos químicos, e com a aplicação dos princípios da física (cinética, termodinâmica) que explicam o desenvolvimento dos ditos fenómenos.

Continuaram com este processo de mecanicismo, reducionista e determinista, as antigamente chamadas ciências naturais, a geologia e a biologia (zoologia, botânica, microbiologia, genética, etc). As ciências naturais foram o último bastião onde batalharam (e ainda seguem) os que se negaram a tirar protagonismo a um princípio teísta, origem e motor de tudo, com um fim concreto e não claramente determinado.

A geologia começa a explicar como a orografia* pode entender-se por processos naturais que seguem leis físicas que podem formular-se matematicamente, definem-se com clareza os diferentes sistemas cristalográficos, que por sua vez tornam compreensível o porquê de uns minerais e rochas serem diferentes uns dos outros. E o que é mais revolucionário, constata-se que existiram diferentes eras geológicas, com um planeta Terra muito diferente do actual.

E a biologia em geral, que começa com a elaboração de um catálogo de espécies animais e vegetais, também acaba adoptando o esquema mecanicista da física. Descobre-se que cada organismo está composto por órgãos e células, que mantêm uma fisiologia graças às mesmas leis físicas que fazem funcionar as máquinas. O corpo humano é uma máquina. A zoologia e a botânica comparadas, tornam possível estender todos os descobrimentos da fisiologia.

Com esta mesma lógica reducionista, classificam-se as espécies, estabelecem-se relações de parentesco, e a raiz do descobrimento de fósseis, e a constatação da existência de outras eras geológicas com uma fauna e flora diferentes e extintas, começa-se a explicar a evolução como propriedade dos seres vivos, tão cega e sujeita à física, como o está a fisiologia. Um pouco mais tarde descobre-se a herança de caracteres, nasce a genética e descobre-se que existem genes em todo o organismo que se encontra codificado. Parece que tudo encaixa.

Deus já não está na origem e no aperfeiçoamento da vida, mas sim da aplicação das cegas leis da Natureza. A criação não se interpreta desde os livros sagrados das religiões, mas sim desde os tratados científicos. E o homem? Afinal, o último baluarte dos teístas também cai. Se toda a Natureza e o Cosmos podem explicar-se segundo os princípios físicos (e químicos) que por sua vez podem formular-se matematicamente (ou seja, repetem o mesmo padrão), o homem não pode ser uma excepção, e também está sujeito na origem e no desenvolvimento, aos mesmos cegos princípios. O homem não surge como consequência da vontade divina, mas sim como resposta aos mesmos princípios físicos que regem tudo.

Tudo tem uma explicação mecanicista.

A renovação da física

Uma série de experiências e feitos físicos, levados a cabo no mundo das partículas atómicas, tornam necessário criar um novo tipo de física, que escapa aos limites da mecânica convencional. Surge a mecânica quântica, em que a energia cobra uma nova dimensão, ao descobrir nela uma realidade concreta, com «limites», que albergam a quantidade mínima que pode transmitir-se (ou «quantum»), por baixo da qual não surte efeito nenhuma alteração no sistema. A realidade que evidencia esta física quântica difere basicamente da física tradicional, em que se redescobre um segundo componente do que se encontra manifestado, a energia, tão tangível como o material, uma vez que pode «contar-se», pode individualizar-se em «quantum», de igual maneira que a matéria em átomos. Até esse momento, não é que não se tivesse noção da existência da energia, mas sim que esta considerava-se como uma corrente contínua, indiferenciada.

“Outra característica fundamental de mecânica quântica é que não é determinista.”

Outra característica fundamental de mecânica quântica é que não é determinista. Segundo a concepção mecanicista, tudo pode ser determinado com precisão, criando as equações corretas e alimentando-as com dados certos. Mas desde o ponto da mecânica quântica, isto não é certo, pois que não é possível conhecer velocidade e posição de uma partícula para um instante preciso.

Este desenvolvimento da mecânica quântica supôs um potente revulsivo para a física geral e a sua concepção da realidade material. Teve o seu maior desenvolvimento teórico no primeiro terço do século XX, por parte de numerosos físicos, muitos dos quais elevados com o Nobel da Física. E embora o seu objeto de estudo sejam as partículas atómicas e subatómicas, o estudo e desenvolvimento da física quântica tem consequências diretas, por exemplo, na aplicação do efeito fotovoltaico, ou no importantíssimo e inovador campo da nanotecnologia.

Atualmente, a própria física está experimentando, junto com a matemática, uma «ampliação» do paradigma, com consequências espetaculares, conforme se está a desenvolver na novíssima teoria do Caos, ou o estudo das flutuações de sistemas dinâmicos, aparentemente turbulentos e imprevisíveis. Basicamente, a teoria do caos vem pôr em relevo que as alterações que se apreciam em fenómenos similares devem-se a pequenas diferenças iniciais. Por exemplo, a trajetória seguida por dois balões soltos desde um plano inclinado não é exatamente igual, e a ele se devem inapreciáveis variações nas condições iniciais. Não é uma questão de azar.

Quando a mecânica quântica revoluciona todo o mundo da física também faz o mesmo no âmbito da química. Os átomos que se entrelaçam para conformar as moléculas, já não são tão definidos como a concepção mecanicista tinha previsto, em que tinha uma partícula «material» (o eletrão correspondente) que era partilhado por dois átomos. Agora não é tão claro que a partícula seja material, ou pelo menos só material, uma vez que comporta-se também como uma radicação. Há um novo modo de conceber a composição das moléculas, e o que é mais importante, a relação entre os átomos que as compõem. Esta relação já não é estritamente material, mas também leva consigo uns determinados níveis de energia, por debaixo dos quais não é possível ter uma ligação química estável. Paralelamente a todas estas alterações conceptuais, as mesmas são possíveis graças a um profundo desenvolvimento das matemáticas. Em definitivo, as ciências fundamentais para compreender a Natureza e o Cosmos, como são a física e a química, experimentam profundas renovações, passando de uma postura reducionista, a outra mais holística, em que a matéria não é a única protagonista. Desde esta nova física e química, para explicar corretamente a realidade há que recorrer a algo mais que as partículas materiais. Para começar, há que ter presente também os «pacotes» de energia.

O reducionismo da Biologia

Contudo, a Biologia (e todas as suas diferentes e numerosas especializações, que agora denominam-se genericamente como «ciências da vida»), não deu o passo de renovação que tiveram as «ciências puras».

A concepção do feito científico continua a ser mecanicista e reducionista em termos gerais, no âmbito corrente das universidades, nas linhas de investigação standard. Os organismos vivos são conjuntos de órgãos, tecidos, células. E em último extremo, tudo reduz-se a um número sem fim de moléculas, que constituem a matéria viva, e que garantem os vários processos biológicos mediante um incrível número de reacções bioquímicas coordenadas fabulosamente em pequeníssimas fracções de tempo.

O grande desenvolvimento da genética forçou a ideia de que quase tudo o que lhe aconteça ao organismo, encontra-se nos genes, em posições relativas de um punhado de átomos dentro de uma gigantesca macromolécula, que denominados ácido desoxirribonucleico, e na forma e tempo de fabricação de milhares de proteínas.

Todo o funcionamento de um organismo (nem que seja a mais pequena bactéria inimaginável para os não iniciados) fecha um prodígio de perfeição e adaptação, que se explica como se fosse uma máquina sofisticada com componentes materiais.

Contínua a haver uma postura mecanicista no acesso ao conhecimento da vida. A ecologia, sendo uma ciência relativamente nova, também adota posições reducionistas, mecanicistas. Os seres vivos (ou biocenoses) num determinado ambiente físico-químico (ou biótopo) constituem um ecossistema, e o intrincado conjunto de relações que podem estabelecer-se entre todos e cada um deles, estuda-se desde o ponto de vista do intercâmbio da matéria com o intuito de garantir a sobrevivência e perduração de indivíduos e espécies. Também neste âmbito de estudo, os ecossistemas abordam-se como se fossem máquinas complexíssimas.

E seguindo com esta concepção científica, quando se consideram os indivíduos, o conjunto de populações que há em qualquer ecossistema, e o decorrer do tempo, no qual se constatam mudanças profundas nos sistemas, com extinções e aparições, aborda-se a necessidade de explicar o processo da evolução desde uma posição igualmente mecanicista e reducionista.

“Existe um claro desencontro entre o paradigma que maneja a biologia e o da física e a química.”

Mas ainda existindo este desencontro, onde está o problema?

1)      Em primeiro lugar, na falta de coerência entre o conjunto de ciências que aspiram a poder explicar a Natureza e o Cosmos. A física, desde que integra os novos descobrimentos (mais além do mecanicismo newtoniano), foi capaz de uma explicação e descrição mais completas da realidade, tanto no terreno da astrofísica, como no das partículas, para dar dois exemplos. O universo descrito por esta nova física não é tão denso como o descrito pela física reducionista. De facto, deixa abertas algumas portas à concepção de um universo teísta (o que foi aproveitado falaciosamente por numerosos movimentos pseudo-religiosos da New Age dos anos oitenta e noventa).

Desta maneira, não há coerência entre este universo que é descrito pela física moderna, e o universo que é apresentado pela biologia, sendo nele que a vida se encerra ainda que em máquinas biológicas, onde tudo se explica por estímulos materiais. E esta falta de coerência parece justamente assinalar que se inclina para o lado da biologia, uma vez que os pilares da física moderna foram solidamente demonstrados pela matemática, enquanto que muitos dos posicionamentos da biologia são conjeturas. O próprio conceito de vida é difícil de definir, e há que recorrer à física para chegar a uma definição universal. Assim, Schrodinger, chega a resolver qualquer sistema vivo como aquele que é capaz de manter uma entropia negativa, ou seja, uma ordem, frente à desordem (ou entropia positiva) que caracteriza os sistemas inertes. Para ilustrar um pouco este feito, suponhamos uma biblioteca perfeitamente ordenada que começa a usar-se. Se não se toma cuidado, com o passar do tempo começará a reinar a desordem na disposição dos livros. Isto seria um sistema inerte com uma tendência natural para a entropia. Um sistema vivo seria aquele que, com independência do uso, mantém a biblioteca ordenada. A subtileza deste conceito contrasta com a ignorante explicação da biologia atual (oitocentista) em que a ordem substitui-se por um azar de consequências úteis.

2)      Em segundo lugar porque a biologia não conseguiu explicar com satisfação muitas das interrogações sobre a vida.

A vida, como realidade e como processo, encerra um grau de complexidade e subtilezas que se escapam à reducionista explicação material (biomoléculas–» células —» tecidos –» organismos –» ecossistemas) da biologia atual. A simples conformação de um órgão a partir de uma massa de células indiferenciadas (para dar um exemplo) não se explica só com a relação e disposição entre os elementos materiais (moléculas, genes, células). Existe tal quantidade de componentes complexos, e tal, quantidade de subtis diferenças (com consequências radicalmente diferentes), que é necessário recorrer a outro paradigma para chegar a uma explicação satisfatória. Por exemplo, ea biologia atual ainda não conseguiu resolver algumas questões: averiguar os mecanismos da formação de espécies e de grandes grupos de espécies (recordemos que a teoria sintética da evolução ou o neodarwinismo não conseguiu satisfazer todas as situações). Um dos problemas está na falta de modelos válidos. Uma das ferramentas que tem o cientista para conhecer a realidade de um sistema complexo (como qualquer sistema biológico ou ecológico) é a criação de modelos onde se integram o sentido e natureza das relações entre componentes. Estes modelos validam-se por desenvolvimentos matemáticos. E o problema dos modelos em biologia é a falta de fidelidade do modelo frente ao feito estudado. O modelo não costuma representar fielmente o feito biológico ou ecológico em questão. E este distanciamento entre o modelo e a realidade costuma dever-se a uma falta de elementos, a consequência do excessivo reducionismo das exposições iniciais. Por exemplo, se um modelo sobre o desenvolvimento dos ecossistemas não tem em conta ao homem e sua evolução cultural como elemento integrante do mesmo, o dito modelo não reflete o comportamento global do ecossistema, salvo se cometêssemos o acto antinatural de tirar o homem desse ecossistema, no qual se desenvolveu.

“Todavia, há muitos elementos na realidade do homem que não se explicam apenas mediante a combinação de moléculas. Por exemplo, a diversa complexidade dos sentimentos, a existência de subconsciente coletivo, a criação do imaginário como «programa operativo» para elaborar pensamentos ou o poder da mente sobre a cura de doenças, são apenas algumas poucas evidências postas em relevo por cientistas sérios do mundo da Psicologia, Antropologia ou Psiquiatria, que não podem abordar-se desde o atual paradigma biológico.”

3)      Em terceiro lugar, a concepção que a biologia tem do próprio homem, choca com a complexíssima realidade humana.

Desde o século XVIII o homem começa a conceber-se como qualquer outro ser vivo, constituído só por um conjunto de órgãos, e uma psiquicidade diferente do resto dos animais, onde estaria a alma ou a identidade do homem. A partir deste momento, e sobretudo, a partir da formação da origem do homem por Darwin, como descendente directo dos grandes símios, tudo no ser humano devia poder ser explicado nos mesmos termos que para o resto dos seres vivos: reacções moleculares, intercâmbios materiais entre células. A medicina, como «ciência da vida aplicada ao homem» é um compêndio complexo de conhecimentos de física e química aplicada à maquinaria do corpo humano.

Todavia, há muitos elementos na realidade do homem que não se explicam apenas mediante a combinação de moléculas. Por exemplo, a diversa complexidade dos sentimentos, a existência de subconsciente coletivo, a criação do imaginário como «programa operativo» para elaborar pensamentos ou o poder da mente sobre a cura de doenças, são apenas algumas poucas evidências postas em relevo por cientistas sérios do mundo da Psicologia, Antropologia ou Psiquiatria, que não podem abordar-se desde o atual paradigma biológico.

Necessidade de um novo paradigma biológico

Desde o ponto de vista científico, é necessário uma mudança de paradigma na biologia. Esta mudança deve incorporar no estudo biológico os modernos conceitos que se estabeleceram na física.

Seguramente, se no marco conceptual da biologia no geral (e todas as suas especialidades) se integram formas de contemplar a realidade através da mecânica quântica ou da teoria do caos, para colocar dois âmbitos muito explícitos da física, seria suficiente para variar o ângulo de visão de muitos problemas irresolúveis da biologia, e poderem-se empregar as ferramentas matemáticas daqueles nestes problemas, como por exemplo está a ocorrer na ecologia com o uso de fractais (teoria do caos ou dos fenómenos turbulentos) ou na neurologia, com a aplicação da mecânica quântica na explicação da atividade psíquica (hipótese Hameroff-Penrose, e todas as ideias deste último sobre o assunto).

É incongruente que se demonstre desde a física como o universo não era criado pelas concepções mecanicistas e reducionistas, e que todavia se continue a manter este esquema básico para abordar o feito biológico.

Creio sinceramente, que assim como um dos grandes avanços tecnológicos vem da mão da biotecnologia (para espanto de uns e prevenção de todos), a grande fronteira na conquista do conhecimento científico encontra-se na renovação que requer a biologia desde as suas ancoragens oitocentistas.

Uma vez que o feito biológico, os seres vivos, são sistemas que escapam à física no sentido estrito, por terem a propriedade de serem sistemas auto organizados, que não dissipam a energia e que mantêm uma ordem, é importante incluir no método de trabalho ferramentas que não supõem uma demonstração em si, mas que podem ajudar no processo criativo de buscar hipóteses científicas coerentes. Trata-se do emprego da analogia.

O método científico mais habitual na atualidade, o hipotético-dedutivo colocado em vigor por Popper, não emprega a analogia como ferramenta metodológica (embora também não a descarte). Todavia, a analogia é um valioso instrumento que utiliza a metade do nosso cérebro, o hemisfério direito do cérebro, para compreender a realidade. Na metade direita do nosso cérebro processa-se toda a informação que tem a ver com os sentimentos (a inteligência emocional tão em voga atualmente), mas também a que tem a ver com as combinações e percepções espaciais, com a plástica e com a actividade criativa. O que não pode medir-se com uma escala linear é do âmbito do lado direito do cérebro.

Os efeitos biológico e ecológico são realidades complexas, com um intrincado desenvolvimento espacial e uma projecção temporal. E neste campo, a analogia pode ser uma interessante ferramenta para colocar hipóteses criativas, que logo fossem refutadas ou não, mediante o estudo empírico e a falsação que propõe o método científico. O emprego da analogia na busca do conhecimento não é novo. Usou-se muito na transmissão de realidades metafísicas, na filosofia e na psicologia. É muito usado na matemática, no caso de analogias exatas. Mas também no caso de analogias conceptuais. O exemplo mais patente, no desenvolvimento da ciência moderna, foi o emprego de analogias físicas por parte de Maxwell quando elaborou a sua teoria do campo eletromagnético. A analogia não estabelece demonstrações científicas (salvo quando existem correspondências exatas), mas pode ajudar a orientar as hipóteses iniciais. Para que as analogias sejam coerentes, extraem-se de sistemas naturais (os sistemas quânticos e os sistemas dinâmicos sujeitos à teoria do caos estão aproporcionar resultados prometedores). Mas também podem ser interessantes as analogias extraídas de sistemas artificiais, como os cibernéticos, que gozam de características similares aos sistemas biológicos.

A mudança de paradigma necessária na biologia deve sustentar-se numa espécie de liberação de complexos e de ideias preconcebidas, tal como aconteceu quando passou-se da mecânica clássica à mecânica quântica. Neste caso, há que pensar analisar-se o feito biológico desde marcos conceptuais diferentes. Por exemplo, um marco conceptual que se considera intocável, e desde este que se abordam muitos problemas biológicos e ecológicos, é o da seleção natural como motor básico do processo evolutivo, seja este o de phyllum (grandes grupos de espécies), o de espécies ou o de células do corpo humano. E embora, na atualidade, a informação que está a aportar a genética, a biologia molecular, a microbiologia, apontam a necessidade de procurar outros mecanismos, além da seleção natural, para explicar o processo evolutivo na sua totalidade. Está-se a desenterrar velhas teorias evolutivas ridicularizadas até à paródia (como o lamarckismo), está-se a apresentar vias de evolução alternativas à seleção natural, e em definitivo, está-se a gerar uma interessante tendência heterodoxa frente à teoria oficial, que facilita a observação do feito evolutivo com outras perspectivas inovadoras e criativas desde o ponto de vista de novas hipóteses de trabalho.

Outro exemplo de marca conceptual intocável, a partir da qual se trabalha com o feito biológico e ecológico, é a ideia de que a transmissão de informação relativa à estrutura e função produz-se apenas quando há um intercâmbio de material genético, e só quando há modificação do código genético se produzem mudanças estruturais. Desde esta postura conceptual abordam-se problemas variadíssimos, que vão desde ecologia de populações até ao desenvolvimento de órgãos na embriogénese ou na capacidade de resposta do sistema imunológico. Contudo, está-se a trabalhar em interessantes vias que conduzem a uma realidade diferente à apresentada pela antiga teoria cromossómica (um gene, um carácter). Por exemplo, pode haver mudanças estruturais profundas sem necessidade de que se altere o código genético ao mínimo, graças a conjuntos de genes que regulam a expressão dos genes estruturais, e cujo funcionamento é todo um desafio para a ciência. E no outro extremo do preconceito, está-se a levar a cabo o desenvolvimento de uma interessantíssima descoberta: os bio fotões de Popp, que demonstram como as células transmitem informação que pode afetar os processos estruturais, sem necessidade de intercâmbio genético nem de matéria alguma, mas sim através de fotões.

“Qual seria o alcance de uma mudança paradigmática nas ciências da vida?”

Um último exemplo de marco conceptual que abordam os não poucos problemas biológicos, é o considerar o azar como a principal fonte de mudanças. Isto é particularmente relevante quando se estudam as mutações genéticas, ou quando se estudam as distribuições de eventos estranhos no tempo ou no espaço. Falar de direccionalidade de determinados processos não é concebível. E embora Kauffman tenha demonstrado como os sistemas macromoléculas tendem a sistemas de um maior nível organizativo (há uma direccionalidade) ou a teoria do caos coloca em relevo como muitos desenvolvimentos aparentemente aleatórios e turbulentos, têm a sua origem em pequeníssimas variações iniciais com uma origem concreta (não estocástica).

É evidente a necessidade de um novo paradigma na biologia (em sentido amplo). O paradigma de uma ciência, tomando o sentido que Kuhn lhe outorga, é como o marco inquestionável donde se derivam as regras e procedimentos do efeito estudado. Este marco é imutável, até que um conjunto de estudos e observações evidenciem a inviabilidade do paradigma mediante irregularidades irresolúveis, momento em que se torna necessário a mudança de paradigma, e produz-se uma revolução científica.

Este momento chegou para a biologia.

Consequências de um novo paradigma biológico

Cabe uma última reflexão. Qual seria o alcance de uma mudança paradigmática nas ciências da vida? O assombroso avanço que conseguiram a física e a química ao integrar os revolucionários descobrimentos que modificaram o seu paradigma, traduz-se num desenvolvimento tecnológico sem precedentes na história da Humanidade. Contudo, a percepção do mundo e da realidade não se modificou, pelo menos ao nível popular. A física do átomo é de uma complexidade jactanciosa por parte dos iniciados atómicos, que reverte em novas vias de investigação, igualmente incompreensíveis, e também na tecnologia de ponta cujos efeitos, estes sim, chegam ao cidadão. Não se transmitiu a certeza de que os sentidos enganam a mente (enganam-nos) quando informam da existência de matéria sólida, quando realmente o que há é um imenso volume vazio entre cada átomo, perimetrado por campos energéticos de natureza eletromagnética, que outorgam a sensação de consistência com a qual identificamos a matéria no estado sólido.

A nossa concepção popular do mundo, da Natureza, não assenta nos descobrimentos da física, mas sim no paradigma das ciências biológicas. E se este paradigma é reducionista, a nossa ideia do mundo é reducionista. A biologia é o último bastião científico do materialismo, da ideia monista, unitária, de que a origem e o desenvolvimento de tudo é apenas material.

A nossa própria noção de nós mesmos e da nossa relação com o resto da Natureza surge do paradigma biológico. Somos máquinas, perfeitas, mas máquinas. Não há opção para algo mais que não sejam engrenagens materiais. E se há uma realidade intangível em nós e uma experiência não física, deve ter o seu assento em algum ponto físico e material do nosso organismo. Esta certeza de que não somos nada mais que matéria condiciona o nosso objetivo vital, de tal maneira que se coloca a vida numa posição reducionista, como o conjunto de actos que levamos a cabo para satisfazer o melhor possível as nossas necessidades materiais e o impulso animal dos nossos instintos. Esta postura individual, de todos e de cada um de nós, levou ao desenvolvimento de uma sociedade como a que temos, criada para a satisfação das necessidades materiais-instintivas.

E a forma de relação dentro da sociedade, e também com o resto da Natureza, tem estado motivada, em boa medida, de novo pelo paradigma biológico. A nossa fórmula de relação tem muito de «a lei do mais forte», o triunfo dos mais aptos.

Desta maneira, produz-se a mudança de paradigma na biologia, deixando para trás o reducionista modelo material e aleatório, as consequências não são só no âmbito do conhecimento científico e o seu consequente desenvolvimento tecnológico, mas também levam consigo, a um ritmo diferente, mudanças na nossa construção subjetiva do mundo, da Natureza e de nós mesmos. E isso sim é o que faz falta.

*Geografia, Topografia

Manuel J. Ruiz Torres