Estamos destinados ou somos chamados a cumprir uma missão ou uma tarefa? Temos uma vocação? Se ela não se impõe por si própria, a resposta talvez esteja no nosso inconsciente. Neste caso, a vocação impor-se-ia como um apelo longínquo.

No nosso mundo, o peso das normas sociais mostra-se muito forte. Cada um, na sua vida diária, vê-se forçado a seguir as regras que o seu ambiente lhe impõe. Metido na teia da sociedade, o indivíduo corre o risco de se ver despido da sua liberdade de julgamento em prol de um pesado espírito coletivo. As ideologias que reinam no seu universo imperam, o que limita seriamente a sua liberdade. Do inconsciente vêm-lhe mensagens que oferecem uma compensação a esse ambiente um pouco opressivo. Neste contexto, o sonho desempenha o seu papel na medida em que ele é o guardião do psiquismo humano. É, sobretudo, um vetor da personalização do indivíduo. A este respeito, o psicólogo Carl Gustav Yung, um dos fundadores da psicanálise, tinha verificado, numa das suas viagens a África, que alguns indígenas se recusavam a contar-lhe os sonhos. Precisamente, porque à semelhança dos mistérios religiosos, o sonho faz parte integrante da nossa intimidade. Como tal, ele é o garante da força do nosso espírito e permite manter intacta a nossa independência pessoal. Em alguns casos muito particulares ele pode ser o revelador de uma vocação. 

A VOCAÇÃO, O APELO DE UMA VOZ

Antes de explicar como é que uma vocação pode ser expressa pelos sonhos, é importante definir absolutamente o que ela representa. A palavra resulta de um termo latino vocare que significa «chamar», da mesma família que a palavra voz. Justamente, aquele que tem uma vocação ouve a voz, a que o incita a realizar-se. No início tinha uma conotação religiosa, referindo-se ao apelo de Deus tocando uma pessoa ou um povo. Com a continuação, o termo passou a designar uma inclinação para exercer uma profissão ou um estado, qualquer que seja.

A vocação aparenta-se então como um destino. Na medida em que sofremos a influência desse apelo saído da nossa alma, sentimo-nos determinados, seguimos uma via que nos é própria. «O que é que finalmente levou o homem a escolher a sua própria via e a sair assim da sua identificação inconsciente com a massa? (…) É a isto que se chama vocação, factor irracional que nos leva fatalmente a emanciparmo-nos do rebanho e a sair dos caminhos já batidos. (…) Aquele que está predestinado ouve a voz do interior» (1).

Pensamos então no famoso Daïmon de Socrates, esse demónio ou voz interior que o incitava a exprimir a verdade em todas as ocasiões. Para além de todos os dogmas ou códigos morais, exprime-se em nós um arquétipo muito potente aparentado com o divino, um impulso que vem do fundo de nós próprios e que se coloca para além da sociedade e das suas leis.

 

O SONHO, A VOZ DO INCONSCIENTE

Para além desta busca, vemos que a fonte do sonho é o domínio imenso do inconsciente. Muito antes de Freud, os homens tiveram o sentimento da sua existência, compreendendo que o sonho resultava dela. Já na época de Sumer, lhe atribuíam uma origem divina. O inconsciente detém uma importância enorme na construção do eu, permite ao indivíduo resistir a todos os movimentos coletivos que tenham o objetivo de o subjugar. O sonho propõe então ao homem imagens suscetíveis de o ajudar na sua busca pessoal. Ao contrário de Freud, que só via no inconsciente a sede de pulsões sórdidas, Carl Gustav Yung atribuía-lhe um campo bastante mais vasto. Para além do inconsciente pessoal, considerava que existia um inconsciente colectivo resultante de todas as experiências conhecidas pelo homem desde a sua chegada à Terra. Assim, coexistem em todos nós riquezas prodigiosas prontas para enriquecer a nossa consciência.

AS INFLUÊNCIAS DOS SONHOS SOBRE OS ACTOS

As imagens presentes nos nossos sonhos podem resultar de temas universais próprios para resolver os nossos problemas. Estes símbolos são emanados por forças potentes chamadas arquétipos. Um dos mais potentes na nossa era é o arquétipo do divino, esta luz presente na nossa era, que se impõe, de repente, à nossa vontade. Na época pagã, ela manifestou-se para mostrar determinadas vias. Assim, a vocação de Galeno, um dos fundadores da medicina, foi decidida na sequência de um sonho enviado pelo deus Apolo. Mais tarde, o cristianismo deu o exemplo de sonhos que tiveram uma influência decisiva sobre certos seres. Fundadores de ordens religiosas, tais como Macário, São João Bosco, cumpriram a sua obra na sequência de sonhos que decidiram as suas ações futuras. Muito particularmente, a vocação de S. Francisco de Assis foi-lhe imposta depois de uma série de sonhos, que o incitaram a adotar uma vida contemplativa que ligasse a Igreja e a trazer para a religião cristã todas a criaturas de Deus, tanto homens como animais.

A vocação impõe-se então como uma manifestação das forças do inconsciente coletivo. Para além de todas as contrariedades sociais a que a coletividade nos obriga, a vocação tem as suas raízes na riqueza simbólica presente na nossa alma. Em todos os momentos cruciais da nossa existência, dá-nos as respostas mais adequadas às interrogações que nos assaltam. Estamos dotados de uma consciência nova, a que nos leva lentamente pelo caminho da individuação, a divindade no interior de nós próprios. Se a sina nos é imposta, o destino vem das nossas orientações pessoais. E é na medida em que tivermos conseguido transformar a nossa sina em destino que fomos capazes de conquistar a nossa liberdade.

  

 O SONHO REVELA SEMPRE UMA VERDADE?

Se muitas vezes a divindade nos inspira por intermédio do sonho, não podemos, apesar de tudo, seguir à risca as suas indicações e é preciso, sempre, usar um enorme espírito crítico para tentar extrair o verdadeiro sentido. Para além do mais há sempre uma maneira pessoal de interpretar a mensagem divina. E é este o motivo pelo qual Hermes, o mensageiro dos deuses, mestre do sono e introdutor dos sonhos, passava por uma divindade ambígua, cheia de contradições, na forma de receber a inspiração divina e de a considerar o aspeto «hermético». Desta forma, a interpretação do sonho torna-se extremamente delicada, pede um enorme bom senso, conhecimento dos símbolos, todo o talento expresso por José quando soube revelar ao Faraó o sentido das suas visões, se acreditarmos no Antigo Testamento. C.G. Yung subscreveu de boa vontade esse carácter obscuro do sonho quando afirmou «que é preciso atribuir um enorme papel à interpretação exata dos sonhos. (…) Uma vez que a interpretação exata é em geral sancionada por um viço de vitalidade, a interpretação falsa condena-se a si própria pela estagnação, as dúvidas e as resistências que ela arrasta.»(2)

Para além disso, o conhecimento da alma e da sua natureza é aleatório e as indicações dadas pelos sonhos podem conter alusões que se mantêm afastadas em relação às necessidades vitais da consciência. Por este motivo, houve épocas em que o sonho foi considerado pelos homens com certa apreensão. E foi assim que na Idade Média uma forte corrente religiosa o incluiu na bruxaria. Como tudo o que vem do inconsciente, suscitou um certo medo da parte dos espíritos e era de bom grado considerado como o demónio. Era a tendência que o cristianismo tinha para só considerar a consciência clara, prelúdio de uma evolução do Ocidente em relação ao pensamento racional. Esta reprovação explicava-se perante a ambiguidade do sonho, e poder-se-iam citar imensos exemplos de sonhos históricos que induziram em erro aqueles que por eles se tinham fascinado. O facto vem de longe. Assim, no Egito, mais de mil anos antes da nossa era, o faraó Ramsés IV passava por ser extremamente sonhador e, como tal, achava que era preciso obedecer a todos os sonhos que se tinha. Azar o seu. Tendo sonhado um dia que um deus o mandou edificar um templo muito afastado, mandou para lá uma expedição de dez mil homens. Como o deserto era particularmente difícil, só mil de entre eles voltaram. Os sonhos nem sempre são para seguir, apesar da importância que se lhes pode dar. Mais tarde, na Pérsia, antes de partir à conquista da Grécia, o grande rei Xerxès, recebeu de um dos seus súbditos chamado Harpagos, o bom conselho de renunciar a essa empresa porque, pensava ele, seria votada ao insucesso. Xerxès afirmou-lhe que todos os seus sonhos lhe diziam que ganharia.

Harpagos fez-lhe ver que ele só estava a exprimir a sua vontade de potência, tese que Nietzsche retomou muito mais tarde. Uma vez mais, o sonho manifesta a sua ambivalência e a dificuldade da sua interpretação.

IDENTIFICAR OS APELOS

Também acontece que o sonho tenha influência sobre a personalidade do indivíduo, não na sua mensagem particular, mas pelas consequências sobre as escolhas que é levado a fazer. A propósito disto, há um conto que fez mudar o decurso da História. Durante a Grande guerra um obscuro cabo de esquadra austríaco, chamado Adolfo Hitler, sonhou que a trincheira onde ele estava se tinha subitamente desintegrado. Ao acordar marchou em direção às linhas inimigas como um sonâmbulo antes de parar e de realizar a sua loucura. Ao virar-se para a sua trincheira viu que um obus tinha feito um buraco no sítio onde ele deveria estar. Esta aventura foi determinante para ele porque desde logo pensou que tinha sido o eleito para «voltar a dar à Alemanha o seu lugar ao sol». Muitos dos seus compatriotas tiveram sonhos anunciadores do cataclismo que a Alemanha ia conhecer com a chegada ao poder dos nazis. Foi isso que, com uma lucidez fora do comum, pôde observar C.G.Yung desde 1918 estudando os casos dos seus pacientes alemães e cujos sonhos lhe pareciam de péssimo augúrio quanto ao futuro do seu país.

Desta forma, é preciso usar uma enorme prudência para analisar os sonhos que nos assaltam. Para fazer uma distinção correta das mensagens propostas, o cristianismo usou aquilo a que chamou o «discernimento dos espíritos». Este consiste em escolher bem e com rigor porque entre todos os espíritos que nos solicitam, uns resultam da voz divina, outros do pecado. A voz permanece um mistério. Se ela exprime os desejos do homem, também manifesta a obscuridade de um Deus que se impõe sem se deixar ver, ou ainda de um demónio que desencadeia sonhos mascarando-nos a realidade. Incapaz de ver claro dentro do seu coração, o homem deve saber identificar estes apelos, ou melhor dizendo, saber discernir.

SONHO, VOCAÇÃO E DISCERNIMENTO

 Há exemplos célebres que mostram que certas personalidades construíram a sua obra a partir de sonhos dos quais elas conseguiram desencantar o valor secreto quanto ao seu futuro pessoal. Muito justamente, o sonho aparece no desenvolvimento da personalidade como um fator de equilíbrio. Dito de outra forma, tem um papel de compensação. Como afirmava Carl Gustav Yung. «No sonho manifesta-se uma função de compensação da atitude consciente, que corresponde evidentemente a uma tendência da natureza para o equilíbrio. Quanto mais unilateral é a atitude da consciência, mais a compensação toma o carácter de um complemento» (3). O psicólogo de Zurique achava então, que quando um indivíduo pecava por excesso de racionalismo ou agia fanaticamente, havia sonhos que o preveniam do precipício perigoso em que ele se encontrava e operavam um reajustamento da sua pessoa. Isto acontece, especialmente, durante a passagem do estado adolescente ao estado definitivamente adulto, sendo este caracterizado por um estado responsável e consciente das suas capacidades pessoais. C.G. Yung aprofundou o seu pensamento quando disse que o sonho tinha este papel naquilo a que ele chamou «a conjunção dos opostos». Esta ideia diz que as coisas só tomam força e carácter quando comparadas com o seu contrário e que só há progresso verdadeiro para o homem confrontando uma com a outra. A vida e a morte, o amor e o ódio, todas estas forças muito mais complementares do que antagónicas resultam da sua harmonia exprimindo-se no sonho, e a primeira manifestação deste confronto é a que existe entre a consciência e o inconsciente.

O SONHO, UMA COMPENSAÇÃO

O primeiro exemplo que se pode dar acerca deste papel assumido pelo inconsciente é o de René Descartes durante a sua juventude, que está contado nos Olympiques. Em 1619, Descartes tinha vinte e três anos e acabava de terminar os seus estudos de forma brilhante. Muito entusiasmado, ele pensava que detinha as bases de uma matemática universal que dominaria todas as ciências. Foi então que teve uma série de sonhos que provocaram nele uma brutal tomada de consciência. «O fogo apanhou-lhe o cérebro e caiu numa espécie de entusiasmo que preparou de tal forma o seu espírito já abatido, que o pôs em estado de receber impressões de sonhos e de visões». (4) Assim, num deles via-se a sofrer de uma fraqueza no pé direito que o obrigava a andar só com o pé esquerdo, espantando-se por ver as pessoas à sua volta firmes sobre os seus dois pés. Ao querer voltar a andar, o vento atirou com ele violentamente contra uma igreja. Ao acordar, meditou e arrependeu-se dos seus pecados. Mais tarde, viria a interpretar este sonho como um desejo salutar e inconsciente destinado a repô-lo no bom caminho. Na verdade, tinha pecado por orgulho, acreditando que possuía toda a ciência, e o seu lado direito abatido, ou seja, a sua vontade consciente, mostrava-lhe que estava errado em só considerar a sua ambição intelectual e que devia ter em consideração, também, as suas faculdades instintivas e irracionais simbolizadas pelo pé esquerdo. Ao ser atirado contra a igreja, compreendeu que devia adotar uma atitude de humildade perante Deus. Assim, o seu sonho apresentava-se como uma compensação de uma atitude da consciência demasiado excessiva, característica de uma juventude sem moderação.

Idêntica é a aventura de Blaise Pascal. Na sua juventude, a sua saúde anunciava-se já fraca e tinha crises de epilepsia com frequência. Tinha um carácter suscetível e arrebatado e era difícil para os que o rodeavam.

Mais tarde foi atingido por uma paralisia que o fazia andar com canadianas, o que perturbou o seu sistema nervoso. Afastou-se de Deus e só lhe interessavam os seus trabalhos científicos e, frequentemente, os meios libertinos. Mas Deus havia de voltar a ele subitamente. Com efeito, durante a noite de 23 de Novembro de 1654, então com 31 anos, Blaise Pascal teve uma visão intensa que o levou a sentir a Sua presença em si. É a «noite de Fogo», durante a qual ele colocou toda a sua vida nas mãos do Todo-poderoso e encarregou-se de dar a conhecer a mensagem da saudação de Jesus Cristo. «Desde cerca das dez e meia da noite até por volta da meia-noite e meia, FOGO. Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob, não Deus dos filósofos e dos sábios. Certeza. Certeza. Sentimento, Alegria, Paz» escreveria ele mais tarde no seu Memorial. (5) Este sonho, que devia mudar o destino de Pascal e determinar a sua vocação, ia provocar mais tarde a redação dos Pensées, obra filosófica máxima do século XVII, pensamentos esses que Chateaubriant dizia não se saber se eram de um homem se de Deus. Assim, uma vez mais, a uma atitude unilateral da consciência clara, o inconsciente tinha respondido propondo uma visão que restabelecesse o equilíbrio sob o signo do Divino.

Finalmente, esta mesma função de compensação exercida pelo sonho ia conseguir exprimir-se no próprio Carl Gustav Yung. Ainda muito jovem, sentia-se atraído entre aquilo a que chamava os seus dois «eu», o seu eu número um, externo e que o levava a adaptar-se à sociedade, e o seu eu número dois, que exprimia a sua alma e as suas aspirações profundas. Estando completamente incerto quanto à escolha da sua profissão, teve então dois sonhos que lhe deram a solução. Num deles, via-se a andar numa floresta escura e a dirigir-se para um túmulo. Ao cavar no interior deste, descobriu ossadas de animais pré-históricos. «Isto interessou-me imenso e neste momento descobri que precisava de conhecer a natureza, o mundo onde vivemos e tudo o que nos rodeia» (6) O conselho era claro, devia voltar-se para as ciências naturais, o que veio de facto a fazer.

O PAPEL DA IMAGINAÇÃO

Assim, em muitas ocasiões, o sonho mostrou o caminho a personalidades que se realizaram completamente. Valorizamos a relação estreita que existe entre o domínio do sonho e a parte do maravilhoso no sentido mais nobre do termo. O sonho e a imaginação são tão necessários ao homem como o ar para a respiração. A realidade só se cumpre porque foi imaginada e por detrás de todo o empreendimento de finalidade concreta, existe um mundo de sonho sem o qual não nos podíamos aproximar da perfeição. É esta parte do imprevisto que se impõe ao homem e o orienta nas suas ações. Observamos a sua íntima relação com a noção de milagre. Este tocou de espanto os homens, lembrando-lhes de maneira súbita as imposições divinas. As visões dos santos foram no mesmo sentido. São Paulo, no caminho da Damas e Santo António sentiram-se subitamente chamados e as mensagens que lhes enviou o Todo Poderoso foram semelhantes aos sonhos que o inconsciente nos dirige durante o sono. Tanto de um lado como do outro, eles elevam-se para lá dos caminhos conhecidos, enquanto a sua personalidade se orienta para o seu cumprimento supremo.

 

Didier Lafargue

 

(1) C.G.YUNG, Problemas da Alma moderna, Edições Buchet-Chastel, 1961, pág. 256
(2) C.G.yUNG, Psicologia do inconsciente, Livraria da Universidade Georg, 1986, pág 198
(3) C.G.YUNG, A vida simbólica, Albin Michel, 1989, págs 221-222
(4) Adrien BAILLET, A vida do senhor Descartes, Les Olympiques,  edições da Mesa        redonda, 1992
(5) Blaise PASCAL, o Memorial, edições Payot, 1942
(6) C.G.YUNG, A minha vida, Gallimard, 1973

 

Bibliografia
Paul CHABANEIX, Le  subconscient chez les artistes,les savants et les écrivains, 2010 éditions Nabu presse
Raymond de BECKER, Les machinations de la nuit, 1965, Editions Planète
CatherineMAILLARD e Eric BONY, Le rêve, histoire et significations, 2003, éditions J’ai connu, coleção Librio spiritualité